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Os Rabelados são uma comunidade tradicional de Cabo Verde, país insular do continente africano, banhado pelo oceano Atlântico, localizada na ilha de Santiago, na zona de Espinho Branco. A comunidade forma-se a partir da partilha de uma identidade socioreligiosa comum e o seu surgimento remonta à década de 1940, quando um grupo de fiéis se rebela contra a ordem estabelecida, em particular contra a condução da Igreja Católica. Dessa rutura nasce uma comunidade que afirma uma identidade religiosa tradicionalista própria, emergente das reformas católicas implementadas no país nesse período (Semedo, 2016).
A cisão ocorre quando os chamados “padres da terra” — padres negros, nativos de Cabo Verde — são substituídos por padres da Congregação do Espírito Santo. Os padres locais seguiam práticas católicas ancestrais, como o uso do latim nas liturgias, uma ideologia de não acumulação e de desapego a bens materiais, uma disciplina rigorosa no vestir e no comportamento e uma relação de grande proximidade com os fiéis. Essa conduta, no entanto, era desaprovada pela cúpula eclesiástica portuguesa, que promove a substituição por padres europeus, brancos, vestidos de branco e falantes de português. Em contraste, os padres da terra vestiam-se de preto, falavam crioulo cabo-verdiano e existem relatos de matrimónios e de práticas de poligamia. Essas tensões conduziram à rutura dos fiéis com a hierarquia eclesial e ao surgimento da comunidade dos Rabelados (Silva, 2016; Asher, 2011).
Após a rutura com o sistema, os Rabelados passam a viver como andarilhos entre diferentes localidades da ilha de Santiago. Há cerca de trinta anos, motivados por decisões coletivas e impulsionados pela energia artivista da artista Misa Kouassi, fixam-se definitivamente na zona de Espinho Branco. A agricultura familiar e a pesca tornam-se as principais formas de subsistência, mas a arte passa igualmente a integrar o quotidiano como estratégia de resistência e de manutenção do modo de vida, transformando a comunidade num coletivo de artistas plásticos.

Espaço da Galeria Rabel’Arts | DR

Espaço da Galeria Rabel’Arts | DR
Atualmente, de forma associativa, os Rabelados produzem as suas obras e mantêm a galeria Rabel’Artes, um espaço inserido na própria comunidade onde expõem e comercializam os trabalhos, gerando rendimento para os artistas e dando visibilidade à comunidade. Entre os artistas Rabelados há homens e mulheres; alguns produzem a partir de uma relação espiritual com a criação artística, mas todos privilegiam cenas do quotidiano, da sua cosmologia e da sua visão de mundo. As obras retratam o plantio do milho, as batucadeiras, as adivinhas, a lavagem da roupa, o valor atribuído à educação e à importância do estudo, bem como figuras simbólicas, como as sereias.
Sob o protagonismo de uma segunda geração de artistas, jovens Rabelados têm dado continuidade a um traço identitário que consolida a estética da Rabel’Art. A arte dos Rabelados configura-se como um facto social total, reunindo múltiplas dimensões: é arte, mas é também espiritualidade, resistência, sobrevivência e memória.
A comunidade passou a apreender e a utilizar a arte como uma das suas principais fontes de sustentabilidade. Sustentabilidade económica, através da renda gerada, mas também simbólica, por meio do registo e da preservação da memória coletiva do quotidiano, materializada nas pinturas em tela. A experiência artística dos Rabelados constitui, assim, uma das expressões mais consistentes de arte decolonial no campo das artes contemporâneas, merecendo maior atenção crítica e académica.

Aldeia Rabelart | DR

Espaço da Galeria Rabel’Arts | DR
Misa é o nome artístico da artista cabo-verdiana que, após viver vários anos na Suíça, regressa à ilha de Santiago e passa a desenvolver um trabalho comunitário que articula arte, cidadania e espiritualidade junto dos Rabelados. Através do ensino de técnicas de pintura em tela e de outras expressões das artes plásticas, como esculturas e bonecas, a artista introduz também pressupostos de uma arte engajada, produzida de forma coletiva e com domínio integral do processo, da criação à comercialização.
Como parte do seu projeto de vida, Misa tem procurado responder aos desafios estruturais colocados pela contemporaneidade. Questiona, nesse sentido, como, num contexto de globalização que conduz à padronização dos modos de vida e ao desaparecimento do conhecimento tradicional, é possível promover modelos culturais e rurais africanos, em particular os insulares, articulando-os com o futuro, o turismo sustentável e as diásporas. Para a artista, essa resposta só pode ser construída através da arte, entendida como prática engajada, comunitária, identitária e capaz de subverter a lógica dominante do capital.
O envolvimento em projetos artísticos na comunidade dos Rabelados e, posteriormente, em Porto Madeira — localidade da ilha de Santiago, onde criou uma galeria interativa dedicada à produção artística e cultural associada à espiritualidade e à ideia de uma África unificada numa casa planetária — consolida a sua entrega ao artivismo. Os projetos tiveram como objetivo preservar a memória e a ruralidade das ilhas africanas, promover ligações culturais e espirituais entre a África insular e continental e afirmar a ilha de Santiago como destino artístico e cultural, contribuindo simultaneamente para o desenvolvimento local.
Mais recentemente, desenvolveu no Senegal o projeto Aldeia Criativa, o Sexto Continente, que estabelece uma ligação entre África e diáspora através da arte. O projeto prevê a criação de 54 casas, correspondentes a cada país africano, sob a responsabilidade de uma família e em homenagem a um artista africano ou da diáspora. O objetivo é destacar a herança africana viva e explorar as pontes entre África insular, África continental e diáspora. Em todas essas iniciativas, a proposta passa por afirmar a arte como linguagem de resistência e de emancipação comunitária, sustentada por uma metodologia própria de formação e engajamento.
Nos seus projetos formativos, Misa privilegia o trabalho com mulheres agricultoras, professores e estudantes, promovendo processos de independência criativa, despertar da consciência artística e desenvolvimento humano através da arte e do bem-estar.

Misa com o artista Sabino da Comunidade dos Rabelados | DR

Quadro de Josefa Rabelados, 2025 | DR
O futuro dos Rabelados e da sua produção artística é frequentemente questionado quanto à sua perenidade, sobretudo por quem não reconhece a arte como estratégia de resistência. No entanto, como observa o historiador Thiago Gomide, “diante da crise global, o mercado de arte precisa de uma urgente terapia. A síndrome artística não é apenas financeira, mas também identitária; curadores e instituições navegam sem rumo” (2025). Essa crise não parece atingir os Rabelados, que veem na arte o fortalecimento da identidade coletiva e uma forma autónoma de subsistência.
As novas formas de apropriação da categoria de obra de arte, a partir das práticas de comunidades tradicionais, compreendem a arte como expressão comunitária e emancipadora, inseparável da memória, dos saberes e dos fazeres locais. A gestão autónoma da própria produção artística surge, assim, como uma via possível de descolonização das relações, historicamente assimétricas, com galerias e museus. Esse é um dos legados centrais deixados por artistas como Misa Kouassi e pelos artistas da comunidade dos Rabelados.
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