Aussy Managem quer tornar o Direito acessível a quem sempre ficou à margem

5 de Agosto de 2026

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Quando se pensa em justiça, em direito acessível, em quebrar barreiras que historicamente foram construídas para afastar comunidades inteiras do conhecimento jurídico, é preciso falar de mulheres como Aussy Cassamá Managem. Advogada, mestre em Ciência Jurídica Forense, co-fundadora da M. Mais Direito juntamente com Joel Managem - uma iniciativa que chegou este ano aos sete anos - e mãe de uma filha que a motiva diariamente a sonhar ainda maior.


A história de Aussy começa numa adolescente que acreditava numa coisa simples: que a justiça deveria ser para todos, não apenas para quem tinha estabilidade financeira ou conexões privilegiadas. "Desde adolescente que eu defendia essas ideias", conta-nos, com um sorriso de quem nunca duvidou realmente do que pretendia.


A licenciatura em Direito e o mestrado vieram depois, mas o essencial já estava lá, sobretudo a convicção de que era preciso fazer diferença. Durante a faculdade, enquanto estudava, trabalhava e dava explicações a colegas que tinham dificuldades em Direito Civil, Aussy Managem cobrava 20 euros por hora para conseguir um extra - mesmo sem saber a M. Mais Direito já estava a germinar.

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Aussy Managem | ©BANTUMEN/Nuno Silva

A pandemia chegou em 2020, e com ela um isolamento que obrigou a pensar. Aussy e Joel, fechados em casa, começaram a questionar: “e se criássemos um espaço onde explicássemos direito de forma simples e acessível?” Um lugar onde as pessoas, especialmente imigrantes e seus filhos ignorados pelas estruturas jurídicas, pudessem compreender os seus direitos e deveres. "Sendo imigrante, filha de imigrantes, eu sempre vi que o acesso ao direito a nós era diferente", explica. "A ideia de que ir a um advogado era só em última instância, isso criou um vazio e eu quis tentar preencher esse vazio."


Assim nasceu a M. Mais Direito. Uma página de redes sociais, depois um escritório, onde o direito não é complicado, muito pelo contrário.


Hoje, Aussy Managem dedica-se essencialmente a três áreas que a apaixonam: Direito Civil, Direito da Família e Direito do Trabalho. Escolhas que não são aleatórias, uma vez que são áreas tocam diretamente a vida das pessoas, especialmente da comunidade afrodescendente que forma cerca de 60 por cento da sua clientela. Ali, acorrem pessoas que precisam de orientação ou de alguém que explique que conhecer os próprios direitos é uma vantagem em todas as situações. E a diferença que Aussy observa entre gerações é reveladora. Enquanto clientes mais velhos, muitas vezes têm medo de questionar patrões ou situações injustas, os clientes mais jovens perguntam: "mas e se for despedida por ter dito não?"


"A nossa geração mudou", reflete Aussy. "Não é só sobreviver, é crescer, é ter um trabalho ideal, é conhecer os direitos. Há um crescimento de informação e de posição."

“Infelizmente, há duas justiças em Portugal”

Aussy Cassamá Managem

Ainda assim, a advogada e empreendedora não é uma mulher que vive de ilusões. Quando lhe perguntamos se existe uma única justiça ou se há justiças diferentes, a resposta é honesta: "Infelizmente, há duas justiças em Portugal. A balança da justiça cede mais para um lado, que para o outro. Vejo duas pessoas com circunstâncias quase iguais, e a ponderação beneficia mais uma do que a outra, porque tem estabilidade financeira e familiar que a outra não tem. Isso é muito visto. E, infelizmente, a cor da pele também conta."


Apesar de reconhecer a discrepância, a fundadora M. Mais Direito não desiste. E credita a outros a perseverança em manter a luta por igualdade social. "Não podemos desistir, porque o que estamos a fazer não é opção. Se tivéssemos desistido lá atrás, hoje não estaríamos aqui. Eu não podia ter uma cédula, não podia estar a exercer", afirma.


Quando o futuro é o sujeito da conversa, Aussy Managem sonha alto. Quer uma sociedade de advogados numa cidade grande, quer representatividade na Justiça, mais caras como a sua nos tribunais, com mais tranças, com uma sociedade mais unida. E acredita que é possível.


O que caracteriza Aussy é precisamente isso: a capacidade de acreditar apesar de tudo. Apesar das barreiras sistémicas, das injustiças que testemunha, da burocracia portuguesa que ainda é cara e complexa para quem empreende. Porque sabe algo que não se ensina nas faculdades, mas que só se aprende vivendo: há coisas que ninguém pode fazer por si e que há uma responsabilidade intrínseca que cada um carrega. "A nossa noção de justiça tem a ver mais do que tudo com aquilo que sentimos cá dentro", diz. "Nós sabemos quando é certo e quando não é. E a justiça em si é seguirmos aquilo que acreditamos que está certo."

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