Bia Ferreira constrói um continente inteiro em dez faixas

23 de Junho de 2026
Bia Ferreira Améfrica álbum
Bia Ferreira | ©Juh Almeida

Partilhar

"Cota Não É Esmola" tornou-se viral em 2018 e ficou claro desde esse momento que Bia Ferreira seria uma voz com missão. A cantora, compositora e multi-instrumentista brasileira define-se a si própria como "artivista", alguém que usa a música para fazer a sua própria revolução e ensinar tecnologias de sobrevivência ao povo negro e LGBTQ+. Durante anos, a sua obra viveu atravessada por essa urgência, por canções que funcionavam tanto como denúncia como como manifesto. Améfrica, o seu novo álbum, faz algo diferente: mantém a política mas mudou o instrumento. O instrumento agora é a alegria.


"Eu queria fazer um disco que nos lembrasse da nossa alegria. A gente já fala muito sobre dor, violência e sobrevivência, porque tudo isso existe, mas nosso povo também ama, dança, faz festa, se apaixona e sente prazer. Isso também sustenta a vida", explica a artista. E é exatamente isso que se sente ao ouvir Améfrica de fio a pavio: um disco feito para o corpo, para o palco, para cantar junto.


O conceito que dá nome ao álbum vem da filósofa e antropóloga brasileira Lélia Gonzalez, a ideia de Améfrica como um espaço de continuidade entre as comunidades afro-diaspóricas e originárias das Américas. Bia Ferreira usa esse pensamento como mapa sonoro onde, ao longo das dez faixas, o português, o espanhol, o inglês e o francês coexistem com o reggae, os ritmos nordestinos, as musicalidades afro-caribenhas e latino-americanas. "Améfrica é uma forma de homenagear os povos que construíram a cultura que atravessa esse continente. Muito do que a gente entende como música, festa, espiritualidade e beleza vem dessas heranças."


A produção é assinada pela própria artista em parceria com Vinicius Lezo, e as dez letras são da autoria de Bia Ferreira, à exceção de "Algoritmo", coescrita com La Dame Blanche.


A faixa de abertura, também intitulada "Améfrica", funciona como declaração de intenções: é o ponto de encontro entre idiomas, ritmos e geografias, o mapa do território que se vai percorrer. "Paz para o Espírito" vira o olhar para dentro. É a faixa mais introspetiva do disco, o momento de recolhimento antes da festa. "Conte Comigo" expande a ideia de amor para além das relações românticas, transformando o afeto em algo coletivo, quase político. "Leve" e "Pote Fundo" são as faixas do corpo: reggae, baião e xote guiam o movimento, e a leveza não é superficialidade, é resistência. "Nós" e "O Seu Silêncio" aproximam natureza, espiritualidade e coletividade, com o reggae a funcionar como lembrete de que ninguém existe sozinho.


O momento de maior tensão do disco é "Algoritmo", com participação de La Dame Blanche. A faixa tem um tom crítico e urbano e questiona os impactos emocionais das redes sociais e da lógica algorítmica nas relações humanas. É uma ruptura necessária dentro do álbum, a prova de que Bia não abandonou completamente o lado mais confrontacional da sua obra. Mas o disco respira de novo em "Pra Alegria Se Achegar", uma canção solar feita para celebrar o afeto, a festa e o recomeço, tal como escreveu a Billboard Brasil.


A decisão de fechar o álbum com uma nova versão de "Cota Não É Esmola" é o gesto mais revelador de todo o projeto. A canção que a lançou - e que se tornou leitura obrigatória nos exames de universidades como a Universidade de Brasília, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal do Paraná - regressa aqui não como peça de museu mas como obra viva. Se antes era urgência pura, agora é também continuidade: a mesma voz, o mesmo argumento, um mundo ligeiramente diferente.


Na BANTUMEN, onde acompanhamos há anos as vozes que fazem a ponte entre o Brasil e os PALOP, Améfrica interessa-nos por razões que vão além da qualidade musical - e, diga-se de passagem, esta é inegável. Interessa-nos porque Bia Ferreira está a fazer, em português e noutras línguas, o que tantos outros têm procurado fazer: afirmar existência além da resistência


Améfrica está disponível em todas as plataformas digitais.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile