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Natural de Santo Antão e radicada no Luxemburgo desde 2007, Bia Morais construiu um percurso entre o design, as artes plásticas, a formação empresarial e a inclusão digital. Integrada na organização do Human Leaders International Congress 2026, defende que liderar não começa no cargo, mas na preparação, na humildade e na capacidade de criar oportunidades para outras pessoas.
Bia Morais tem várias dimensões do seu percurso: é designer de comunicação, artista plástica, empreendedora, formadora e gestora de projetos. À primeira vista, podem parecer atividades diferentes mas, para a cabo-verdiana, estão ligadas por um mesmo princípio, que é comunicar, criar estruturas e ajudar pessoas a transformar ideias em projetos sustentáveis.
Em conversa com a BANTUMEN, durante o Human Leaders International Congress 2026, a profissional natural de Santo Antão apresenta-se como uma mulher de várias competências, mas com uma regra simples para organizar essa multiplicidade. “Sou uma mulher multifacetada. Posso estar envolvida em várias coisas, mas, quando agarro uma, faço sempre a cem por cento.”
“Vivemos num mundo onde toda a gente quer ser líder, toda a gente quer ser manager e toda a gente quer ocupar posições. Mas é preciso perceber como se chega lá
Bia Morais
O Human Leaders International Congress decorre nos dias 24 e 25 de julho, no Campus da Universidade de Cabo Verde, na cidade da Praia, e Bia Morais integra a equipa responsável pela construção do encontro, que reúne profissionais, académicos, empresários e representantes institucionais de diferentes países em torno da liderança humanizada, da inclusão, da sustentabilidade e das transformações do mundo do trabalho.
A sua participação no congresso prolonga um trabalho que já desenvolve no Luxemburgo - onde vive desde 2007 -, sobretudo junto de pequenos empresários, mulheres e pessoas da diáspora que procuram estruturar negócios, melhorar a comunicação e encontrar novas oportunidades.
Licenciada em Design de Comunicação na Universidade Lusófona de Lisboa, a sua formação permite-lhe trabalhar naquilo a que chama design de comunicação: identidade visual de empresas, desde a criação de logótipos até aos materiais de comunicação, plataformas digitais e posicionamento das marcas. “Quando conhecemos uma empresa, procuramos perceber o seu porquê, a sua identidade e a imagem que deve transmitir. A partir daí, construímos toda a comunicação corporativa.”
Em 2023, fundou a Promov-in, empresa dedicada ao design, branding, publicidade, formação e consultoria para pequenas e médias empresas. Através do projeto, Bia procura ajudar negócios a ultrapassar uma das dificuldades que mais identifica entre novos empreendedores: a vontade de vender antes de existir uma estratégia clara. “Há pessoas que abrem um comércio porque querem vender, mas, antes de vender, é preciso pensar. É preciso saber onde queremos chegar e que caminho vamos seguir”, sublinha.
Ao longo do seu percurso, assumiu também a presidência da Câmara de Comércio Luxemburgo - Cabo Verde, em 2014, contribuindo para o fortalecimento das relações empresariais entre os dois países. Atualmente, é gestora e coordenadora do projeto Internetstuff, da ASTI, financiado pela Cidade do Luxemburgo, onde trabalha nas áreas da inclusão digital, capacitação e inovação social.
Paralelamente, colabora com uma associação ligada ao comércio e ao empreendedorismo, organizando formações dirigidas a pequenos empresários no Luxemburgo. O que começou como uma iniciativa de dimensão reduzida acabou por evoluir para um projeto apoiado por instituições europeias, com programas de acompanhamento destinados a pessoas que já tinham negócios, mas não possuíam ferramentas suficientes para os consolidar.
Neste seu percurso, Bia mantém igualmente um trabalho como artista plástica que, embora descreva esta dimensão como uma atividade paralela, ocupa um lugar importante na forma como pensa a comunicação e a liderança. “A arte transmite sempre alguma coisa. Quando olhamos para as formas, para o equilíbrio e para a composição, estamos também a observar uma forma de comunicar”, explica.
A sua produção artística cruza referências africanas e europeias, e reflete uma vida construída entre Cabo Verde, Portugal e Luxemburgo. O trabalho já foi apresentado em vários contextos europeus e africanos, promovendo identidade, inclusão e diálogo intercultural.
Uma das questões centrais colocadas por Bia no Human Leaders, a acontecer em Cabo Verde, é a diferença entre desejar um cargo e estar verdadeiramente preparado para liderar. “Vivemos num mundo onde toda a gente quer ser líder, toda a gente quer ser manager e toda a gente quer ocupar posições. Mas é preciso perceber como se chega lá.”
Para a empreendedora, a liderança exige experiência, preparação, responsabilidade e, sobretudo, humildade. A facilidade com que atualmente se constrói uma imagem pública pode criar uma distância entre aquilo que uma pessoa mostra e aquilo que realmente está preparada para fazer. Bia reconhece as oportunidades criadas pelas ferramentas digitais e pela inteligência artificial, mas alerta para a necessidade de as utilizar com consciência. “Hoje, toda a gente consegue fazer uma fotografia bonita e a inteligência artificial consegue fazer muitas coisas. Ainda bem que as pessoas utilizam essas ferramentas, mas é preciso responsabilidade. A imagem não pode substituir aquilo que realmente somos e sabemos fazer.”
É neste ponto que encontra uma das razões para a pertinência do Human Leaders International Congress. O evento procura deslocar a conversa sobre liderança do estatuto e da aparência para a relação com as pessoas, para a tomada de decisões e para o impacto produzido nas organizações. Bia considera-se uma líder, mas diz retirar maior satisfação do trabalho que permite a outras pessoas aproximarem-se de posições de decisão. “Eu gosto de ajudar as pessoas a chegar ao ponto de se tornarem líderes. Para liderar, temos de começar de baixo, aprender, construir uma base e perceber o caminho.”

Bia Morais | Foto DR
Nas formações que coordena, procura ampliar os horizontes de pequenos empreendedores, mostrando-lhes que um negócio não depende apenas de um produto ou de um espaço comercial. Exige planeamento, comunicação, parcerias, gestão financeira e capacidade de adaptação.
Um dos programas em que participou surgiu num período em que vários comerciantes enfrentavam dificuldades e encerramentos. Em vez de limitar a resposta à manutenção das lojas, a formação procurou apresentar alternativas, como a criação de parcerias, a exploração de novos canais de venda e o contacto com estruturas de apoio empresarial.
O resultado levou à criação de uma segunda fase de acompanhamento. Segundo Bia, nem todos os participantes conseguiram dar continuidade aos projetos, mas cerca de metade avançou para objetivos mais estruturados.
O seu trabalho com pequenos empresários mostra-lhe que muitas pessoas têm talento e vontade, mas desconhecem as estruturas de apoio ou não sabem como organizar um projeto. No Luxemburgo, explica, existem mecanismos que facilitam a criação de empresas, programas públicos, consultores e instituições preparadas para acompanhar empreendedores. O problema está muitas vezes na falta de informação ou na dificuldade de transformar essas possibilidades numa estratégia concreta. “Temos muitas ferramentas disponíveis. O que fazemos é encaminhar as pessoas, ajudá-las a trabalhar com a Câmara de Comércio, com profissionais de gestão e com as estruturas do Estado.”
Para Bia, ampliar horizontes não significa prometer sucesso e sim ajudar cada pessoa a compreender melhor as escolhas disponíveis e as responsabilidades associadas a cada decisão.
Um dos objetivos que pretende desenvolver através da Promov-in e da participação no Human Leaders é reforçar a circulação de talento entre África e a Europa.
Durante muito tempo, observa, a cooperação foi pensada quase sempre num único sentido: profissionais residentes na Europa viajavam para países africanos para ministrar formações, prestar consultoria ou apresentar conhecimentos considerados mais avançados.
Bia quer inverter essa lógica. “O meu objetivo é fazer as coisas de maneira diferente. Não quero apenas trazer pessoas da Europa para formar em África. Quero levar África à Europa.” A ideia nasce da constatação de que muitos profissionais africanos continuam a ser valorizados apenas depois de passarem por instituições ou mercados europeus.
Bia sentiu essa contradição no início da carreira quando, depois de terminar a formação em Portugal, foi convidada a criar a identidade visual de um hotel na ilha do Sal. O seu trabalho acabou por ser escolhido, apesar de existirem propostas de profissionais residentes em Cabo Verde. A seleção deixou-a satisfeita, mas também levantou uma dúvida. “Percebi que deram importância ao meu trabalho porque vinha de fora, apesar de eu ser cabo-verdiana. Em Cabo Verde existem profissionais muito bons. Esta é uma mentalidade que precisamos de quebrar.”
A questão não está em rejeitar o conhecimento exterior mas em reconhecer que a competência africana não precisa de validação europeia para adquirir valor.
No Luxemburgo, Bia encontra cada vez mais profissionais africanos em posições de responsabilidade, mas considera que esses percursos permanecem pouco visíveis. “Temos médicos, engenheiros, gestores, pessoas em bancos e em grandes instituições, mas muitas vezes ninguém fala sobre elas.”
A falta de representação afeta também as gerações mais novas da diáspora, que podem crescer com uma imagem limitada de Cabo Verde, construída a partir das experiências migratórias dos pais e avós.
Bia Morais tem discutido com Lúcia Brito, idealizadora do Human Leaders, a criação de um projeto dirigido a jovens cabo-verdianos da segunda e terceira gerações residentes no Luxemburgo. A proposta é aproximá-los de Cabo Verde não apenas como destino de férias ou origem familiar, mas como um país com empresas, instituições, profissionais qualificados e projetos inovadores que precisam do seu talento. “É importante mostrar às crianças que Cabo Verde não é apenas o lugar de onde os avós saíram para trabalhar nas obras ou fazer trabalhos pesados. Aqui também existem médicos, engenheiros, chefes de banco e pessoas a desenvolver projetos importantes.” Essa relação deve ultrapassar a nostalgia e transformar-se em circulação de conhecimento, investimento, formação e oportunidades.
Bia integra a organização do Human Leaders International Congress e participa no Women Rise, encontro dedicado à liderança feminina, ao lado de Danielle Stescki, Albertina Ferreira e Isabel Manique. A conversa reúne experiências dos Estados Unidos, Luxemburgo, Cabo Verde e Angola.
A sua presença reforça a necessidade de aproximar os debates sobre liderança das experiências concretas de mulheres que trabalham entre diferentes países, setores e comunidades. Bia leva ao encontro um percurso construído entre criação visual, capacitação de empreendedores, inclusão digital e ligação entre Cabo Verde e a diáspora.
No futuro, pretende continuar a trabalhar no desenvolvimento empresarial, reforçar a Promov-in e dar mais espaço à vertente artística, levando os seus quadros a diferentes suportes sem perder o carácter autoral.
O seu trabalho mantém-se ligado ao mesmo princípio: criar projetos próprios e abrir caminhos para os outros. No design, amplia a forma como uma empresa se apresenta; na formação, as possibilidades de um empreendedor; na arte, os modos de comunicar; e, na diáspora, a imagem de Cabo Verde e de África.
“É importante mostrar às crianças que Cabo Verde não é apenas o lugar de onde os avós saíram para trabalhar nas obras ou fazer trabalhos pesados”
Bia Morais
No Luxemburgo, Bia encontra cada vez mais profissionais africanos em posições de responsabilidade, mas considera que esses percursos permanecem pouco visíveis. “Temos médicos, engenheiros, gestores, pessoas em bancos e em grandes instituições, mas muitas vezes ninguém fala sobre elas.”
A falta de representação afeta também as gerações mais novas da diáspora, que podem crescer com uma imagem limitada de Cabo Verde, construída a partir das experiências migratórias dos pais e avós.
Bia Morais tem discutido com Lúcia Brito, idealizadora do Human Leaders, a criação de um projeto dirigido a jovens cabo-verdianos da segunda e terceira gerações residentes no Luxemburgo. A proposta é aproximá-los de Cabo Verde não apenas como destino de férias ou origem familiar, mas como um país com empresas, instituições, profissionais qualificados e projetos inovadores que precisam do seu talento. “É importante mostrar às crianças que Cabo Verde não é apenas o lugar de onde os avós saíram para trabalhar nas obras ou fazer trabalhos pesados. Aqui também existem médicos, engenheiros, chefes de banco e pessoas a desenvolver projetos importantes.” Essa relação deve ultrapassar a nostalgia e transformar-se em circulação de conhecimento, investimento, formação e oportunidades.
Bia integra a organização do Human Leaders International Congress e participa no Women Rise, encontro dedicado à liderança feminina, ao lado de Danielle Stescki, Albertina Ferreira e Isabel Manique. A conversa reúne experiências dos Estados Unidos, Luxemburgo, Cabo Verde e Angola.
A sua presença reforça a necessidade de aproximar os debates sobre liderança das experiências concretas de mulheres que trabalham entre diferentes países, setores e comunidades. Bia leva ao encontro um percurso construído entre criação visual, capacitação de empreendedores, inclusão digital e ligação entre Cabo Verde e a diáspora.
No futuro, pretende continuar a trabalhar no desenvolvimento empresarial, reforçar a Promov-in e dar mais espaço à vertente artística, levando os seus quadros a diferentes suportes sem perder o carácter autoral.
O seu trabalho mantém-se ligado ao mesmo princípio: criar projetos próprios e abrir caminhos para os outros. No design, amplia a forma como uma empresa se apresenta; na formação, as possibilidades de um empreendedor; na arte, os modos de comunicar; e, na diáspora, a imagem de Cabo Verde e de África.
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