"A próxima geração de artistas africanos dá–me esperança", Bombino

27 de Maio de 2026
Bombino entrevista
Bombino | DR

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Bombino é o nome artístico de Goumour Almoctar, cantor e guitarrista tuaregue do Níger, que acredita que a música é ponte entre passado e presente, entre culturas, entre quem somos e quem podemos ser. Nascido a 1 de janeiro de 1980, em Tidene, cresceu num acampamento com 17 irmãos e recusava-se rebeladamente a ir à escola. Em 2018, tornou-se num orgulho nacional ao ser nomeado para o Grammy Best World Music, com o álbum Deran.


Quando o Níger foi assolado pela rebelião tuaregue em 1990, Bombino, juntamente com o pai e o avô, foi forçado a fugir para a vizinha Argélia. Durante esse tempo, familiares que os visitavam deixaram uma guitarra, e Bombino começou a aprender sozinho como tocar. Jimi Hendrix, Mark Knopfler e outras influências que encontrava pelo caminho tornaram-se nos seus mentores através dos vídeos que a si chegavam.


Regressou ao Níger aos 16 anos, mas em 2007, uma segunda rebelião tuaregue levou o governo a declarar aquele povo nómada inimigo de Estado e a banir guitarras, vistas como símbolos de rebelião. Bombino fugiu novamente, desta vez para o Burkina Faso, e dois dos seus companheiros músicos foram executados.


A 30 de maio, Bombino sobe ao palco do Lisboa Ao Vivo e a BANTUMEN aproveitou para conversar com aquele a quem o The New York Times apelidou de “Sultão do Shred” - estilo de tocar guitarra muito técnica e a uma velocidade extraordinária. Falámos sobre música, política, esperança e futuro.

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Bombino entrevista

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“Espero que um dia vivamos num mundo onde as crianças nunca sejam forçadas a deixar as suas casas por causa de conflitos”

Bombino

Para o artista, a tradição não é um peso do passado. "É importante nunca esquecer as nossas raízes e a nossa cultura porque a música ligada à tradição ajuda-nos a recordar e a conectar com os nossos antepassados. Há muitas coisas que aprendemos olhando para trás, para a história", explica-nos.


Essa filosofia está no coração do "tuareggae", o género híbrido que criou e que funde a guitarra do Saara com ritmos reggae. A inspiração veio de um lugar profundo. "Veio de um amor genuíno pela música reggae. Bob Marley é um herói em toda a África e sempre amei a sua música e a de muitos outros artistas do reggae." Essa admiração não advém apenas do ritmo e sonoridade musical, afinal "Bob Marley tocava em temas que importam, como a liberdade, identidade e o amor, e esses são exatamente os temas que estão no centro das minhas canções. A fusão entre a música tuaregue e o reggae aconteceu naturalmente."


A guerra moldou a sua mensagem. O contexto que marcou a infância de Bombino é o de um povo em luta pela sua sobrevivência, entre rebeliões e a fome. A seca devastadora dos anos 1980 no Sahel forçou milhares de pessoas a abandonarem o seu estilo de vida nómada tradicional, com muitos a fugiram para o sul ou para países como Argélia e Líbia. Quando regressaram ao Níger, encontraram um governo que os via como ameaça. Em maio de 1990, o exército nigerino respondeu à rebelião e prendeu, torturou e matou centenas de civis tuaregues. "Quando era criança, tive que sair do Níger porque não era seguro ficar. Aprendi dessa experiência que a vida é imprevisível e precisamos apreciar os momentos de estabilidade, sem os tomar como garantidos." Essa verdade rude transformou-se em propósito artístico. "Esta experiência mostrou-me que a guerra nunca é a resposta e sabia que queria escrever canções sobre paz e liberdade. Espero que um dia vivamos num mundo onde as crianças nunca sejam forçadas a deixar as suas casas por causa de conflitos."


O artista conhece intimamente o custo de ser forçado a partir. Por isso, quando reflete sobre o contexto musical atual em África, rejeita a narrativa simplista de que é necessário abandonar o continente para conquistar o mundo. "Penso que é possível ser uma estrela global apenas a partir de África agora. Partes de África são tão modernas e conectadas quanto outras partes do mundo." Mas há uma nuance importante, e Bombino sabe disso pela sua própria trajetória, marcada por viagens entre continentes, colaborações em estúdios dos Estados Unidos a Marrocos, e tours internacionais que o fizeram conhecer audiências por todo o lado. "Acredito que as performances ao vivo são muito importantes. Para verdadeiramente conectar com audiências em todo o mundo, é preciso fazer digressões internacionais."


Quando regressou do Grammy em 2018, compreendeu o peso simbólico do reconhecimento. "Foi muito especial receber este reconhecimento. Mostrou que a música do Níger era considerada muito importante no palco global." E a cidade de Agadez o recebeu como um herói. "Quando regressei ao Níger da cerimónia do Grammy, havia uma parada para me receber. Não esperava isso e foi muito tocante. Sou grato a todos os meus fãs e aos músicos que me ajudaram, dando-me esta oportunidade de representar a música do Níger."


Trabalhar com Keith Richards, Dan Auerbach e David Longstreth não deixou Bombino intacto. "Aprendi muito com todas estas experiências. Dan Auerbach e David Longstreth ensinaram-me coisas técnicas sobre como trabalhar num estúdio de gravação." Mas foi Keith Richards que se tornou numa inspiração diferente, pela liberdade como toca e porque ”vê-se que ama música e aprendizagem", explica o artista.

“A próxima geração de músicos africanos está a fazer coisas incríveis”

Bombino

Em 2023, o álbum Sahel chegou num contexto político delicado. A região enfrentava conflitos sobrepostos e questões políticas complexas e Bombino quis fazer algo diferente, num gesto de reconciliação através da música. "O Sahel é uma região que experimentou muitos conflitos e teve muitas questões políticas. Queria fazer um álbum que relembrasse a todos o quanto temos em comum e que precisamos encontrar paz." Essa necessidade A responsabilidade do artista tem limites, mas também poder. "Como artista, não posso resolver tudo, mas tenho de tentar ao máximo inspirar e guiar as pessoas."


Quando lhe perguntamos como observa a situação atual, a resposta é honesta: "As coisas estão ainda complicadas na região. Alguns problemas têm raízes muito localizadas, mas outros conectam com situações globais mas a vida é complicada em todo o globo neste momento."


Ainda assim, o artista encontra sempre espaço para esperança. "A próxima geração de músicos africanos está a fazer coisas incríveis. Vejo tantos jovens músicos talentosos. Com grande competência técnica, mas também tocando com paixão e ideias inovadoras. A geração futura dá-me esperança. Não querem repetir os erros do passado e querem um mundo melhor."


Sobre o concerto no dia 30 de maio, no Lisboa Ao Vivo, Portugal representa, para Bombino, um espaço particular de ligação. "Estou muito entusiasmado em estar de volta em Portugal. Tenho muitos fãs aqui e estou sempre feliz em conectar com a comunidade africana e lusófona."  


Considerando o contexto particularmente polarizado a nível social global, quando lhe perguntamos sobre o papel da música na luta contra segregação cultural e preconceito, Bombino simplifica: "O artista não tem muito poder nesta luta, mas podemos criar uma ponte entre culturas diferentes. As pessoas aprendem às vezes sobre os Tuaregue e o Níger através da minha música. Fico feliz que possa fazer esta ligação. Espero que depois de descobrirem a minha música, as pessoas aprendam mais sobre a nossa história e cultura ricas", remata.

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