“Quinta-Essência 75/25” de Carlão, um desabafo cantado sobre si, o mundo e o tempo

27 de Março de 2026

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Aos 50 anos, Carlão regressa aos álbuns de longa duração com Quinta Essência 75/25, um disco que funciona ao mesmo tempo como balanço pessoal, comentário ao presente e reencontro com as suas raízes. Oito anos depois de Entretenimento, o músico volta com um trabalho onde a escrita ganha centralidade e onde memória, paternidade, inquietação política e identidade africana se cruzam num retrato mais exposto de si e do tempo em que vive.


Neste álbum, a palavra é o centro de tudo e Carlão confessa que, nos últimos anos, a urgência de comunicar algo mais denso tornou-se inevitável. Por isso, a necessidade de voltar ao longo formato. "Sentia uma necessidade de largar coisas cá para fora que não fossem singles. E a verdade é que tive projetos de vários EPs que foram ficando pelo caminho. Entretanto, estamos ali a chegar a 2023, 2024, e eu penso: 'Vou fazer 50'. E estes EPs, que estão muito compartimentados - um era muito pesado, outro só de love songs".


Embora o álbum represente um momento marcante no percurso de Carlão, o músico rejeita a ideia de que este álbum possa ser lido como uma compilação ou um best of. As canções são novas, mas atravessadas pelas várias fases que viveu até aqui, funcionando mais como um fecho simbólico de ciclo - e, talvez, como o início de outro. "Pensei: 'Porque não juntar estes dois EPs, fazer mais umas canções?'. Daí surge a Quinta-Essência 75/25, que é um apanhado desde o meu ano de nascimento, onde aí não estava a fazer música, óbvio, mas estava a absorver coisas, até 2025, que foi quando fechei o disco, pouco antes do final do ano."

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Universal / Carlão
Carlão Quinta Essencia 75/25 entrevista

©Nuno Silva/BANTUMEN

A pausa de quase oito anos entre álbuns não se explica por um único motivo, mas a pandemia surge, para Carlão, como um ponto decisivo nesse intervalo. O músico olha para esse período como um tempo suspenso, em que muita gente tentou continuar como se nada tivesse acontecido, embora a realidade fosse outra. Na sua leitura, os anos entre 2020 e 2022 deixaram marcas profundas e continuam, de certa forma, por digerir. Foram, diz, um “buraco estranho” no tempo, um período que “acusou o toque” em quase toda a gente.


Ainda assim, a criação não ficou parada. Pelo contrário, houve trabalho, ideias e projetos a ganhar forma, mesmo que nem todos tenham encontrado imediatamente o seu lugar no mundo. Carlão esteve envolvido nos EPs Formas do Verbo Amar e Detox, mas esses lançamentos acabaram por não avançar logo. A isso juntou-se a exigência da televisão, através da sua participação no The Voice Kids, uma experiência que reconhece como intensa e absorvente, e também a necessidade de gerir o tempo, a família e a própria vida. Foi essa combinação de fatores, entre contexto externo, acumulação de trabalho e maturação pessoal, que fez com que o álbum só chegasse agora, em 2026.


Ao olhar para trás e revisitar as várias fases da sua vida, do adolescente que foi ao homem que é hoje, Carlão recusa a tentação fácil do arrependimento. O que vê no passado não é uma lista de erros a corrigir, mas uma sucessão de experiências que o ajudaram a chegar aqui. É desse lugar, entre a memória e a aceitação, que faz o seu balanço, sustentado por um percurso artístico consistente, por projetos de que se orgulha. “Tento não me arrepender de nada. É um bocado clichê, mas tudo o que um gajo fez até agora é o que faz de ti o que és hoje. Tenho duas filhas que amo de morrer, tenho um trabalho sólido com várias bandas e projetos de que gosto. Arrepender... não sei. Aquilo que fui buscar atrás e que me deu muito gosto foi tocar coisas mais pesadas que já não fazia há algum tempo”.

“Parece que o mundo não está feito para ninguém, a não ser para umas centenas de pessoas que controlam o dinheiro todo e deixam o resto a sofrer”

Carlão

A conversa muda de tom quando entramos na carga social de Quinta-Essência 75/25 e, em particular, em “Passo a Passo”, um dos momentos mais duros do disco. Perguntado sobre quando sentiu, durante a criação deste trabalho, que “este mundo não era para ele, nem para ninguém”, Carlão responde sem hesitar. Os últimos anos, diz, têm posto à prova a sua natureza positiva.


Na sua leitura, o cenário sociopolítico atual, marcado pelo regresso de figuras como Trump ao poder, pelo crescimento da extrema-direita e pelo alastramento de conflitos, reforça a sensação de que o mundo parece desenhado para servir uma minoria que concentra o dinheiro e o poder, deixando o resto a lidar com as consequências. É desse mal-estar que nasce “Passo a Passo”, escrita num desses momentos, como diz, “escuros e de raiva anti social”.


“Parece que o mundo não está feito para ninguém, a não ser para umas centenas de pessoas que controlam o dinheiro todo e deixam o resto a sofrer. É preocupante o cenário sociopolítico: o aparecimento desta direita radical, o Trump (que legitimou muito isto), o Bolsonaro... Há um ressurgimento do ódio, da xenofobia e da intolerância contra a diferença. Isso assusta-me. Vês as pessoas a olhar só para si próprias e a não ver o outro como uma pessoa”.


Carlão admite que há dias em que anda na rua e sente que não pertence àquilo que o rodeia, como se o mundo estivesse “maluco”. Nesses momentos, tenta sobreviver convencendo-se de que “está tudo bem” e segue em frente. Esse lado convive com a sua faceta mais extrovertida, mas também com uma inquietação profunda perante o tempo em que vive.


Sinto que há ainda mais ‘Carlões’ in between. O segredo é tentar não agarrar as coisas más e focar no que importa. Eu alimento-me muito da energia das minhas filhas, da palhaçada com elas. O equilíbrio é o mais difícil na vida: ser uma estabilidade entre trabalho, família e o mundo. O que me dá ‘pica’ é o amor de pai e o trabalho onde me sinto realizado. Quando tenho esse equilíbrio, vou-me mantendo”.

Carlão Quinta Essencia 75/25 entrevista

©Nuno Silva/BANTUMEN

Voltando ao álbum, em Quinta-Essência 75/25, Carlão arrisca também cantar em crioulo, num gesto que funciona menos como ornamento e mais como reencontro com a sua própria história. Nascido em Angola, em 1975, é filho de pais cabo-verdianos - o pai de Santiago, a mãe de Santo Antão - e esse mergulho na língua leva-o inevitavelmente de volta ao percurso da família, que tinha emigrado para Angola em 1971 e acabou por viajar para Portugal à pressa, no meio da guerra, deixando tudo para trás.


Ao recordar esse tempo, Carlão percebe melhor uma escolha que durante anos lhe pareceu apenas um silêncio: os pais decidiram não ensinar crioulo aos filhos, numa tentativa de facilitar a integração em Portugal e de evitar que sobressaíssem ainda mais num país onde a diferença já era visível na cor da pele. Hoje, lê essa decisão como uma forma de proteção. “Hoje percebo. Eles não queriam sobressair. Em 1975, em Portugal, as coisas eram diferentes. Nós já sobressaíamos pela cor, então eles queriam que ao menos a língua ajudasse a integrar. Por isso, não cresci com o crioulo fluente e tenho vergonha de o falar porque sinto que não o domino bem”.


Entretanto, foi através das poesias do primo Zé Maria - que é nada mais do que José Maria Neves, presidente da República de Cabo Verde - que encontrou uma forma de imergir no crioulo, ao musicar um dos seus poemas. Assim, surgiu “Nair Ki fla”. A canção presta homenagem à tia Nair, mãe do autor, falecida em 2025 com quase 100 anos. Para Carlão, dar voz a esse texto foi também uma forma de transformar em afirmação pública aquilo que durante muito tempo viveu como hesitação íntima. “A letra fala da aridez de Cabo Verde, ‘que não dá mel nem açúcar’, mas o poema diz: ‘Não, mãe, esta terra é o meu mel’. Fala de África como berço da humanidade. Foi muito especial, não foi cantar em crioulo ‘à toa’, teve muita consistência e ligação familiar”.


Quando a conversa entra no território da identidade e das raízes, a tonalidade muda outra vez. Percebe-se que, para Carlão, esta relação com Cabo Verde não é abstrata nem decorativa: é física, emocional, quase imediata. Esse chamamento ganhou corpo em 2025, quando viajou até Santo Antão para gravar o videoclipe de “Oh Nha Nené”. Voltar à ilha da mãe, agora com a maturidade de quem também já é pai, permitiu-lhe olhar para aquele território com outra atenção e outra reverência. “Eu já lá tinha estado há 20 anos, mas agora a perspetiva mudou. Pedi à minha mãe os sítios importantes para ela e fui lá: onde nasceu, a escola onde andava. Valorizei muito mais a resiliência dela. Ela fazia percursos de duas horas a pé, pelos montes, para ir à escola. Valorizei muito a mulher africana, que muitas vezes carrega tudo às costas enquanto nós, homens, somos uma cambada de bandidos (risos). A mulher é que sustenta a família a vários níveis”.


Mais à frente, a conversa regressa a uma canção mais antiga, “Assobia para o Lado”, lançada em março de 2020, e àquilo que essa frase pode significar hoje. Carlão faz questão de esclarecer que nunca a pensou como um apelo à indiferença ou como uma espécie de Hakuna Matata tropical. O que ali propunha era outra coisa: uma estratégia de sobrevivência. Assobiar para o lado, explica, sempre foi uma forma de relativizar o que não controla para preservar energia para o que realmente importa - a amizade, o amor, os afetos. Mas admite também que, em 2026, esse exercício tornou-se mais difícil. Continua a sentir a canção quando a canta em palco, mas reconhece que escrever hoje com aquele desprendimento seria quase impossível. Assobiar para o lado tornou-se, para si, uma forma de resistência, uma tentativa de não se deixar esmagar por um presente cada vez mais pesado, enquanto espera que chegue um tempo em que seja possível voltar a escrever com essa leveza.


No fecho deste balanço dos 50 anos, a conversa deriva ainda para os festivais e para a forma como os grandes eventos de verão se foram transformando. Em Quinta-Essência 75/25, Carlão olha para esse universo com ironia, mas também com alguma inquietação. Ri-se da provocação do “direito à piscina”, mas sublinha que por trás da graça existe uma crítica real: a sensação de que, em muitos festivais, a música deixou de ser o centro.


O músico não se coloca fora dessa contradição e admite, com honestidade, que também faz parte do jogo. Ainda assim, o que o preocupa é a forma como o excesso de oferta, de palcos e de estímulos acaba por canibalizar a experiência, ferindo a relação mais direta entre artista e público. Para Carlão, o problema não está necessariamente na escala, mas na falta de cuidado com o detalhe e com aquilo que faz de um concerto um momento de verdadeira escuta. No fim, o apelo é simples: que os festivais consigam recuperar um equilíbrio onde a música volte a ser, acima de tudo, aquilo que nos faz parar para ouvir.

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