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E se te dissessemos que África, Brasil e Antilhas partilham uma mesma história?
À partida, são três geografias que parecem distantes, mas a verdade é que acabam por encontrar-se num elo de resistência tecido através de uma das celebrações mais conhecidas do mundo: o carnaval. Muito além dos desfiles e das fantasias, o carnaval é uma forma de expressão cultural em que o corpo, o ritmo e a memória coletiva ocupam o espaço público.
Associado ao calendário cristão, o termo carnaval deriva da expressão latina carne vale - “adeus à carne”- e marca o período que antecede a Quaresma e cujas raízes europeias estão ligadas às festas pagãs da Antiguidade que celebravam a suspensão momentânea das normas sociais. No entanto, quando esta tradição atravessa o Atlântico, o seu significado transforma-se de forma significativa.
É nesse encontro que surge o que Paul Gilroy designa como Atlântico Negro: um espaço transnacional de circulação de corpos, culturas e ideias entre África, Américas e Europa. Mais do que uma rota económica, o Atlântico Negro constitui um território simbólico onde a diáspora africana reinventa práticas, espiritualidades e linguagens de resistência. No Brasil e nas Antilhas, o carnaval deixa de ser apenas herança europeia e passa a ser também arquivo vivo da consciência africana, onde a celebração se converte em identidade, política e liberdade.
A ligação entre estes lugares não nasce por acaso. A cultura tornou-se uma estratégia de sobrevivência num passado colonial em que milhões de africanos foram forçados a atravessar o Atlântico, levando consigo pouco mais que memória, gestos e espiritualidade. Em contextos de dominação e apagamento, a dança, o canto e a celebração eram formas de preservar humanidade e identidade.
Em África, aquilo que hoje reconhecemos como espírito carnavalesco manifesta-se em celebrações próprias de cada sociedade, onde máscaras, danças e ritmos ativam a vida comunitária. Cada país possui a sua forma singular de expressar essa herança. Na Guiné- Bissau, por exemplo, a comemoração centra-se nos valores culturais locais e revela uma preocupação em preservar o que é identitário. Na capital, várias pessoas vestem trajes africanos com base na sua etnia e desfilam com peças artesanais na cabeça, tocando e dançando estilos como o gumbé, fazendo desta a maior manifestação cultural do país.
Em Angola, o carnaval ocupa as principais avenidas de Luanda e torna-se também espaço de crítica social. Dá destaque ao papel das zungueiras na economia, às tradições como a kabetula e o semba e às roupas coloridas feitas com tecidos que representam o país, como a samakaka. Alguns acessórios são produzidos com quitutes, como colares de ginguba, e, de forma semelhante ao Brasil, existe um concurso entre os grupos carnavalescos, que reforça o sentido de pertença e criatividade coletiva.
Já em Cabo Verde, o Carnaval do Mindelo, na ilha de São Vicente, é frequentemente descrito como o mais 'brasileiro' de África, mas nem por isso descura a sua matriz crioula. Grupos como o Monte Sossego ou o Cruzeiros do Norte levam para as ruas carros alegóricos monumentais e fantasias detalhadas, onde o batuku e a morna abrem espaço para um ritmo próprio que celebra a insularidade. É uma festa de luz e cor que faz parar o país, unindo a diáspora cabo-verdiana num movimento de regresso às origens.
No Brasil, o carnaval ganha outra densidade quando se cruza com as heranças culturais africanas trazidas pela diáspora. Muitas das suas expressões visuais e performativas dialogam com práticas ancestrais de diferentes sociedades africanas, onde a celebração coletiva tinha também função espiritual e social. Em vários contextos africanos realizavam-se procissões em torno das aldeias para a purificação simbólica do espaço, o afastamento de energias negativas e a reativação da comunidade. A criação de máscaras e indumentárias a partir de elementos naturais, como ossos, ervas, pedras ou penas, não servia apenas de ornamento, mas de mediação entre o mundo visível e o espiritual.
Esses códigos transformam-se em fantasias, desfiles e coreografias que continuam a ocupar o espaço público como narrativa viva da memória africana. Foi também nesse contexto que o samba ganhou forma, trazido por africanos escravizados de Angola e ressignificado no Brasil até se tornar um dos ritmos mais emblemáticos do país, especialmente nesta época.
Nas Antilhas, o carnaval assume uma dimensão particularmente política e identitária. Em territórios como Guadalupe e Martinica, a festa estende-se entre janeiro e a Quarta-feira de Cinzas e mobiliza a rua como espaço central de expressão crioula. Ritmos como o zouk, o calypso e a soca, acompanhados por tambores e steel bands, constroem uma paisagem sonora onde o corpo afro-caribenho se afirma em movimento. Um dos momentos mais simbólicos é o J’ouvert, o desfile que ocorre antes do amanhecer e que marca a abertura popular da festa: corpos cobertos de tinta, lama ou pó ocupam a cidade para inverter hierarquias e reinscrever presenças negras no espaço público.
Este elo de resistência do Atlântico Negro é também um potente gerador de capital económico e social à escala global. Só no Brasil, o Carnaval de 2025 movimentou cerca de R$ 12 mil milhões (cerca de 2,3 mil milhões de euros), impulsionando setores como o turismo, o comércio e os transportes. Além do lucro para hotéis e restaurantes, a festa funciona como combustível para a economia local, ao criar milhares de empregos e fortalecer os laços comunitários. Profissões como costureiros, artesãos e mecânicos ganham uma valorização essencial e servem, frequentemente, como pilar de representatividade, dada a ligação da cultura carnavalesca à arte africana.
A comemoração reforça o tecido social ao materializar a ideia de aldeia global. Escolas e blocos de samba afirmam-se como espaços de encontro e de preservação de tradições, onde se consolidam vínculos entre moradores, artistas e produtores e onde as fronteiras sociais, raciais e de género tendem a esbater-se, abrindo caminho a uma circulação cultural que hoje ultrapassa o espaço físico e encontra no digital um prolongamento consistente.
A ligação entre o carnaval de África, do Brasil e das Antilhas reside na sua função de representação cultural e de afirmação identitária dos povos negros, mas também na capacidade de gerar pertença e reconhecimento coletivo em contextos marcados por desigualdades históricas. Longe de se limitar à dimensão festiva, o carnaval configura-se como um dispositivo de memória partilhada, através do qual comunidades da diáspora africana preservam e atualizam referências culturais que durante séculos foram marginalizadas. Ao ocupar o espaço público com o corpo, o ritmo e a espiritualidade, essas comunidades convertem a celebração num território simbólico de reapropriação, onde gestos, crenças, sonoridades e modos de vida deixam de ser silenciados para se afirmarem como património vivo, hoje amplificado também pelas redes digitais que prolongam essa presença para além das ruas.

Guiné Bissau | ©Dias Pontes, TV Wandam

Guiné Bissau | ©Dias Pontes, TV Wandam

Brasil | DR

Ilhas Caraíbas | ©Ben Iwara

Cabo Verde |©Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas

Cabo Verde |©Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas


Angola | DR
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