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Cátia Semedo Ramos fala de si própria com a naturalidade de quem aprendeu a transformar o seu nome numa personagem de força, movimento e presença. Aos 43 anos, mãe de uma adolescente e “mãe do coração” de outro jovem, construiu um percurso improvável e múltiplo, que já a levou a palcos por Hollywood. Entre a hotelaria, o trabalho doméstico, o coaching, a apresentação de eventos, as palestras e os workshops de batuque, Cátia é uma mulher que se recusa a caber numa definição única e que olha para a vida com uma mistura rara de disciplina, imaginação e confiança no caminho que foi abrindo para si. Nesta entrevista para a BANTUMEN, descobrimos melhor esse percurso e as suas ambições.
Não é por acaso que se descreve como “a mulher dos sete ofícios”. A base está na formação em hotelaria, mas o caminho nunca ficou por aí. “A Cátia também é uma doméstica rara”, como diz a própria, há mais de 20 anos. A expressão nasce precisamente da forma como atribui dignidade à profissão e como recusa-se a aceitar rótulos simplistas, até porque também “é muito boa a fazer as outras coisas”, disse. Entre essas outras coisas, estão as mentorias dirigidas a mulheres, o trabalho ligado a hábitos, rotinas, autocuidado e desenvolvimento pessoal, áreas em que se certificou duas vezes em coaching. “Principalmente nós, mulheres africanas, ainda não estamos muito por dentro” destas ferramentas, observou Cátia, apontando a importância do autoconhecimento e do cuidado consigo mesma.
Há, no entanto, uma dimensão da sua história que costuma reaparecer quando fala em público e que, de certa forma, ajuda a condensar a forma como se vê: a passagem “do bairro para Hollywood”. Cátia cresceu na antiga Pedreira dos Húngaros e faz questão de nomear esse ponto de partida como parte central do seu percurso. “Eu sou filha do bairro”, afirmou, antes de recordar como chegou a Hollywood: “da melhor maneira com a cantora Madonna”. A história, tal como a conta, começa muito antes de 2019. Aos 18 anos, quando foi estudar cozinha para França, ouvia um colega espanhol repetir um conselho da mãe: se algum dia visse uma câmara na rua, devia colocar-se à frente, porque talvez um dia chegasse a Hollywood. Cátia decidiu apropriar-se da ideia. “Desde o ano 2000, comecei a utilizar essa dica”, recordou. Durante anos, foi acumulando pequenos sinais, repetindo para si própria que aquele caminho era possível, até que surgiu o convite para participar num videoclipe de Madonna, seguido de um workshop em Inglaterra e, mais tarde, da notícia de que tinha sido escolhida para continuar. “Em junho recebo a notícia de que fui uma das escolhidas para participar da tour… Então rumo aos United States e fez-se magia!”, contou de sorriso rasgado como quem esbanja orgulho.
O momento acabou por confirmar uma intuição antiga e Cátia sublinha que, além de manifestar, nunca duvidou da possibilidade, mesmo quando outros duvidavam. Mas, mais do que a dimensão glamorosa da experiência, o que esta ulher de vários ofícios destaca é o que aprendeu ao ver de perto o funcionamento de uma grande produção. “Percebi realmente que o melhor não é o que está à frente, mas sim o que está por trás, porque o espetáculo aparece feito, mas a magia acontece por atrás”, afirmou. A experiência levou-a a valorizar ainda mais quem trabalha fora da linha da frente e a reconhecer em si uma vocação particular para esse lado mais invisível da organização. “Eu sei que sou muito boa no frontoffice, mas no backoffice acho que sou ainda melhor”, disse, acrescentando que essa aprendizagem também teve um valor importante para a filha, ao mostrar-lhe que sonhar não é um gesto abstrato, mas algo que pode ganhar corpo.
Quando fala de sucesso, Cátia prefere afastar-se de definições convencionais e responder a partir do que tem em casa. “Eu posso dizer que o meu sucesso é a minha família. Tenho um marido espetacular, tenho uma filha bem de saúde, tenho trabalho, tenho um filho de coração maravilhoso”, afirmou, acrescentando que, para si, o sucesso também passa por “poder, degrau a degrau, ir conquistando tudo aquilo que quero”. O dinheiro não é descartado, mas aparece como consequência e não como medida principal. “Há pessoas que para eles o sucesso é o bolso cheio. Nós também gostamos, não é? Mas para ter o bolso cheio é preciso fazer tudo isto que eu disse”, resumiu.
Essa visão mais alargada estende-se também à forma como pensa a relação entre vida familiar e profissional. Cátia acredita que os dois lados podem coexistir, mas insiste na importância de separar papéis e tempos. “Eu acho que sim, que é possível ter sucesso familiar e profissional, desde que não misturemos. Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”, explicou. A gestão do tempo, o planeamento e a clareza sobre prioridades aparecem várias vezes na conversa como instrumentos de sobrevivência e equilíbrio, sobretudo para mulheres que vivem sob múltiplas exigências. “Eu sou a Cátia, esposa, mãe, amiga, companheira, mas eu sou a Cátia”, afirmou, resumindo uma ideia que repete com convicção: antes de qualquer função, há uma pessoa que precisa de espaço próprio. “Vocês têm que ver que vocês são a pessoa mais importante da vossa vida. Logo, eu preciso do meu tempo, me myself and I”, disse.
A disciplina ajuda a sustentar essa visão. Não por acaso, Cátia também é atleta e integra essa rotina no dia a dia com a naturalidade de quem sabe que o corpo também precisa de método. “Sou muito disciplinada. Não é à toa que sou atleta”, afirmou, explicando que acorda às cinco da manhã para treinar às seis. Essa estrutura atravessa o resto da sua vida e dá-lhe ferramentas para lidar com a sobrecarga, sem cair no discurso da mulher que consegue tudo sem custo. Pelo contrário, Cátia reconhece que não se chega a todo o lado como se gostaria, mas acredita que é possível encontrar um equilíbrio mais justo se houver consciência das prioridades e trabalho interior.
“Se eu tivesse aprendido a amar-me mais cedo, se calhar teria sido diferente”
Cátia Ramos
Talvez por isso a conversa volte, mais do que uma vez, ao desenvolvimento pessoal. Quando lhe perguntam o que gostaria de ter aprendido mais cedo, a resposta é direta: “Se eu tivesse aprendido a amar-me mais cedo, se calhar teria sido diferente.” Ainda assim, recusa olhar para trás com amargura e prefere interpretar o percurso como uma aprendizagem necessária. “Acredito muito que teve que ser assim para eu poder ser hoje a Cátia, que eu sou muito mais confiante, muito mais dona de si. Aprendi a dizer não”, disse. Pelo caminho, reconhece que ficou para trás uma versão mais ingénua, demasiado disponível, demasiado pronta a acreditar em toda a gente. “Eu sou muito de pessoas. Eu não vejo maldade nas pessoas. Eu acredito nas pessoas e sempre dou de mim às pessoas”, explicou, acrescentando que o crescimento lhe foi mostrando que nem sempre o mundo devolve essa entrega na mesma medida. Ainda assim, não fala dessa perda como derrota. “Mas eu estou bem comigo mesma. E a Kátia que fica lá atrás também está óptima. Por isso estamos bem”, afirmou.
O conselho que deixa a outras mulheres nasce precisamente dessa travessia. “Sejam elas próprias”, disse, antes de acrescentar que a tentativa de agradar a todos pode tornar-se uma forma de abandono de si. “Tu nunca vais agradar a todos. E muitas vezes o que é que fazemos? Ficamos pelo caminho para poder agradar e esquecemo-nos de nós”, observou. Durante algum tempo, reconheceu, foi isso que também aconteceu consigo. “Quis agradar e fiquei para trás. Mas hoje não. Hoje gostas de mim, gostas. Não gostas de mim, está tudo bem. Respeito, mas a Cátia vai seguir.”
Esse seguir inclui também a cultura. Para lá do trabalho mais visível como mentora, palestrante ou apresentadora, Cátia tem desenvolvido workshops de batuque para crianças, jovens, adultos e idosos. “Eu conto um bocadinho da história do batuque, falo sobre o instrumento, como é que se toca…”, explicou, mostrando que a transmissão cultural também faz parte da forma como se move no mundo. É mais uma camada de uma trajetória difícil de resumir numa só profissão ou num só lugar social. Talvez por isso, no final da conversa, a expressão que melhor a define não seja a de mulher multifunções, nem a do bairro que chegou a Hollywood, mas a de alguém que aprendeu a juntar trabalho, presença, imaginação e disciplina sem perder o entusiasmo. Cátia Ramos não se apresenta como exemplo acabado de nada. Apresenta-se, antes, como alguém em movimento, e é nessa vitalidade que parece residir a sua força mais evidente.
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