Fernando Semedo, o chef por detrás do melhor bolo de bolacha do mundo

30 de Junho de 2026

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Em São Bento, numa boutique que Fernando Semedo quis à sua imagem, a montra é de bolo de bolacha. Inteiros, em potes, à fatia. A receita foi criada em 2016, quando trabalhava no Villa Saboia:  o dono queria bolo de bolacha na ementa e Fernando pôs-se a trabalhar numa versão sua. Bolachas Maria, natas, café, um crumble por cima. Não mudou uma grama desde então. Durante anos fabricou-o na cozinha de casa, vendeu online, por encomenda, em pontos avulsos. A loja própria abriu em setembro de 2022. "Comecei com uma brincadeira", conta. "Dizia que era o melhor bolo de bolacha do mundo." Pausa. "Até alguém me apresentar o contrário."


Cozinheiro e chef de cozinha com 35 anos, Fernando tem também outros negócios, todos dentro da gastronomia. O percurso até São Bento começou no Prior Velho, perto de Sacavém, como tantas outras famílias que chegaram a Portugal nos anos setenta e oitenta vindas das ex-colónias e se foram fixando nos bairros da periferia de Lisboa. Os pais tinham vindo de Santiago, a maior ilha de Cabo Verde e a mãe emigrou quando tinha 16 anos. Fernando nasceu cá.


Era a mãe quem segurava a casa. Cozinhava todos os dias, e foi nessa cozinha que Fernando cresceu, primeiro a observar, depois a meter mãos na massa. "Com quatro anos já fazia alguma coisa no fogão. A ponte com a cozinha vem claramente através dela." Era também ela quem tinha planos para os filhos, que, embora raramente dissesse em voz alta, iam ficando visíveis nas decisões que tomava. Em 1998, a família comprou casa no Miratejo e saiu do Prior Velho. Fernando foi percebendo o peso dessa mudança só mais tarde. "O pensamento dela foi sempre esse: quero que vocês saiam do bairro. Mais tarde acabei por perceber."

Chef Fernando Semedo entrevista

Fernando Semedo | ©BANTUMEN/Nuno Silva

Na escola era rebelde, não no sentido de arranjar problemas, mas no de não conseguir encontrar razão para estar ali. Se lhe perguntassem com 10 ou 12 anos o que queria ser, "se calhar dizia querer ser jogador de futebol e não jogava à bola, basicamente." Não chegou a sê-lo e acabou por virar-se para o atletismo,  através de Emanuel, o irmão do meio, que se foi inscrever e a quem a mãe perguntou se mais alguém queria ir. Fernando inscreveu-se com a vontade de quem queria apenas ocupar o tempo: sem grandes expetativas e sem grandes ambições. Durante meses foi a treinos e a provas sem perceber o que estava ali a fazer. "Estou aqui só porque estou aqui."


O treinador Paulo, que já faleceu, via nele o que ele próprio não conseguia ver. Durante anos repetia-lhe que era bom, que se se dedicasse chegava longe. Fernando não acreditava, chegava a dizer que queria desistir. Paulo insistia. O clique deu-se quando atingiu a marca de atleta de alta competição e percebeu, pelo tratamento que passou a ter nos treinos, que havia ali alguma coisa real. "Afinal, se calhar até sou fixe nisto." Começou a pôr as coisas na balança - treino ou sair à noite com os amigos - e a escolha foi deixando de ser difícil.


Foram tempos que guarda com saudade e que poderiam ter tido outro desfecho, não fosse uma lesão aos 15 anos encerrar-lhe a carreira de forma precoce. A partir daí, a cabeça foi para a cozinha. A mãe não queria - conhecia a dureza da restauração - e impôs-lhe o ensino secundário normal. Fernando fez tudo para ser expulso. Em dezembro conseguiu. "Parece que foi a minha forma de dizer à minha mãe que não era aquilo que eu queria." Concorreu, tempos depois, para o curso de cozinha na Escola Profissional de Hotelaria e Turismo de Lisboa.


O primeiro estágio, no Hotel Mundial, deixou-o maravilhado, mas ao voltar para a escola percebeu que terminar o curso não ia significar saber cozinhar a sério. Começou a procurar em revistas os restaurantes onde podia aprender. Encontrou o do chef Miguel Castro e Silva. "Acabou por ser o meu pai a nível da gastronomia portuguesa." Saía da escola e ia diretamente para lá. No verão, fazia o dia inteiro na cozinha. Numa tarde de agosto, o subchefe Gonçalo chamou-o ao balneário. A pessoa responsável pela bancada das carnes não estava e tinha de ser Fernando a assumir. "Congelei. Disse: Gonçalo, esquece, não consigo, não dá para mim." Era um dos melhores restaurantes de Lisboa, a cozinha era complexa e ele só sabia fazer entradas. Gonçalo não cedeu: ia ficar ao lado dele, confiava nele. Deram 120 almoços. "Nunca tinha posto um lombinho a basear. Nunca tinha feito umas migas. Só via os meus colegas fazê-lo." Correu bem. "Ali foi o primeiro clique de: ok, se calhar consigo ser bom cozinheiro."


Seguiram-se o Gin Lovers, o The Decadente, o Less, anos a acumular técnica e a perceber como funcionava o ofício por dentro. A insegurança demorou mais tempo a ceder do que as competências. Durante anos olhou para colegas e duvidou de si. "Quando vimos de uma classe mais baixa e temos o nosso tom de pele, a sociedade faz-nos duvidar de nós de alguma forma." Havia festas de aniversário na escola a que nunca foi convidado, coisas que na altura passavam despercebidas e que mais tarde voltavam com outro peso. "A gente pensa que não, mas está ali no inconsciente."


Quando abriu o Reservado, a equipa de sala era toda africana. Não tardou a que começassem a vir à cozinha dizer-lhe que havia mesas difíceis, clientes que dirigiam a palavra à mulher, a mulher respondia ao empregado, sem que ninguém olhasse diretamente para quem servia. Fernando saía da cozinha e ia à sala. A postura dos clientes mudava quando o viam chegar. Aconteceu vezes suficientes para que o padrão se tornasse inegável. "Comecei a perceber o que é que os meus funcionários estavam a passar."


A mesma lógica encontrou-a noutro sítio, já depois, quando entregava bolos em casa de clientes que ainda não o conheciam. Tratavam-no como tratam quem está à porta com uma encomenda na mão. Quando percebiam quem era, o tom mudava, a mão estendia-se, a conversa abria. "Independentemente de ser o Fernando ou de ser outra pessoa, quem está a entregar está a prestar um serviço. Devemos sempre tratar com educação e com respeito." São situações diferentes com a mesma raiz, e Fernando não tem ilusões sobre o que isso representa a uma escala maior. "As oportunidades estão lá, mas não são dadas de forma igual. A gente vai fazer sempre cem, duzentos quilómetros a mais."


A resposta que encontrou foi trabalhar mais e melhor do que os outros. "Se eu e mais cinquenta cozinheiros estamos no mesmo sítio e é preciso descascar 10kg de batatas numa hora, eu faço em meia hora, custe o que custar. Não é uma questão de competição com os outros. É contigo próprio."


O Reservado acabou por fechar. O The Cookie Cake resistiu e cresceu, e é para Fernando o maior acerto até hoje. Houve pelo meio a oportunidade do Belcanto - "para mim, o melhor restaurante que temos em Portugal" - que não aceitou por ter dado a palavra a outro sítio. Hoje olha para essa decisão sem arrependimento: "Se tivesse ido para lá, não teria criado o bolo de bolacha e talvez não me tivesse tornado empreendedor tão cedo." A boutique de São Bento abriu em setembro de 2022. A receita não mudou. O crumble é o mesmo desde 2016. "Enquanto africano, criar um bolo de bolacha que hoje é conhecido como um dos melhores do mundo: não é só um produto português, é aquela gastronomia que eu gosto de fazer."


Com 35 anos, diz que ainda não chegou. O sucesso, como o define, está por completar. "É conseguir cuidar daqueles que são meus: os meus irmãos, as minhas sobrinhas, a minha mãe. Quando sentir que consigo contribuir para uma melhor qualidade de vida deles, aí sim." A mãe que o obrigou ao décimo ano, que ele contrariou para poder cozinhar, é quem continua no centro de tudo. E a rebeldia que ela conheceu bem não desapareceu, transformou-se. "Se eu tiver que ir no meio de 10 cozinheiros, vou à procura de fazer alguma coisa diferente dos dez. O caminho é este: se toda a gente vai para ali, eu pego na minha rebeldia e saio fora."

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