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Passava pouco das 6:30 da manhã do dia 4 de abril e eu já estava no Aeroporto de Lisboa pronta para embarcar rumo a Cabo Verde. Era o primeiro dia de uma semana e meia de trabalho. Pela primeira vez, ia passar mais de quatro dias fora de casa - nunca tinha acontecido - e a ansiedade bem que tomou conta do meu corpo. Saí de madrugada, despedi-me dos meus filhos e fui até ao aeroporto com um aperto no peito: é aquela fase da vida adulta em que nos apercebemos de que, não importa a circunstância, vamos ter sempre de escolher. Quanto custa ficar fora de casa? Quanto custa não realizar sonhos, sejam eles pessoais ou profissionais? A verdade é que para nós, mulheres, a cobrança chega em dobro e começa em nós, que somos as primeiras a fazê-lo. É o momento em que a linha entre a realização e achar que estamos a ser egoístas se torna mais ténue que nunca. Do lado de fora, a cobrança vem elegantemente vestida de preocupação: “Então as crianças ficam com quem?”. É uma colocação curiosa à qual eu por norma respondo “com o pai”. “E não há problema?”, perguntam de volta. Por que haveria de haver, pergunto eu?
Agarrei-me a tudo o que poderia aliviar a saudade - o tal outro lado da moeda - e segui viagem.
Depois de mais de 20 horas de escala, aterrava a 5 de abril no Aeroporto Nelson Mandela. Primeira vez na terra que sempre chamei de “minha” sem nunca ter conhecido. Foi um misto de sensações, confesso. Havia uma expetativa que vinha de longe e havia também uma consciência, quase ingrata, de que aquela viagem não me ia dar tudo o que eu queria, porque fui a trabalho, e o trabalho tem o seu ritmo, as suas obrigações, os seus horários que nem sempre nos permitem cumprir a agenda da forma que bem entendermos.
Acredito que há uma diferença entre visitar um lugar para contar um recorte específico e visitá-lo para conhecer por inteiro com as suas falhas, os seus acertos, o bom e o mau - com a verdade (e realidade) que chega de forma orgânica e acaba por dizer mais do que qualquer discurso institucional. Por muito que o poder se manifeste através dos mecanismos que tem à disposição, é nas pessoas - nas suas alegrias e lamentos - que se vê o país real. Cá e lá, por muito que se tentem mascarar certas e determinadas coisas, todos sabemos que, enquanto houver pessoas a reivindicar pelo básico, talvez a vida seja um pouco mais dura (e difícil) do que se quer fazer parecer - e essa diferença, quem trabalha em jornalismo cultural sabe-a de cor, ainda que raramente a admita em voz alta.
Fui como “pessoa da diáspora” e isso, não sendo tudo, é o bastante para que as microtensões do quotidiano se manifestem. Ainda que tenha ido de peito aberto, há um olhar que não deixo de carregar para onde quer que vá. Demasiado europeu? Talvez. Admiti-lo nada mais é do que uma aceitação da realidade e a pergunta que se impõe, mais do que como desligar, é: quanto destas pessoas existe em mim e vice-versa? Foi, a bem da verdade, um exercício fácil e bastou-me entender que é graças a quem decidiu ficar, viver e lutar que hoje tenho um sítio a que posso chamar de “meu”.
Fiquei na Cidade da Praia e muito do meu tempo foi passado entre o Plateau - o centro da cidade - os hotéis e o recinto dos festivais. Um triângulo pequeno, no papel. Na prática, um universo com várias camadas que fui tentando descascar à medida que o tempo permitia.
A Cidade da Praia vive em dois mundos completamente distintos que se cruzam na azáfama do quotidiano, sem que nenhum dos dois pareça surpreendido com o outro. De um lado, as vendedoras de rua com os seus tabuleiros e a sua economia própria, o comércio tradicional que sobrevive na teimosia de quem sabe que a cidade precisa deles mesmo que nem sempre o diga. O pulso de quem faz acontecer com as mãos e com o corpo, com a presença física e constante. Do outro lado, os serviços mais formais: os ministérios com as suas fachadas e protocolos, os restaurantes e as esplanadas onde se come bem e se paga com multibanco, porque sim, a maioria dos lugares aceita multibanco - detalhe que me surpreendeu pela positiva e que diz qualquer coisa sobre a modernização silenciosa que o país foi fazendo. Há uma rede de autocarros. As pessoas são simpáticas de um modo que não parece ensaiado para o turismo, mas que existe antes dele e independentemente dele.
É uma cidade que funciona. E que, ao funcionar, revela também as suas contradições - como todas as cidades que funcionam, aliás.
Reconheci-me várias vezes. Nas pessoas, no crioulo, nas expressões que saltavam de conversas que não eram comigo, mas que me apanhavam na mesma. Vi muito do que em tempos vi na infância, quando na Damaia ainda existiam bairros como o 6 de Maio, Fontaínhas, Estrela d’África (o facto de os meus pais terem um restaurante, há quase 30 anos, na zona ajuda a justificar o enquadramento) - a dinâmica, o ritmo, a forma como as pessoas ocupam o espaço público, a maneira de falar que carrega uma história comum sem precisar de anunciá-la - e tudo me soou familiar. Não é bem memória, é qualquer coisa mais funda, que foge a qualquer tentativa de explicação racional.
É difícil de desenvolver porque é muito íntimo. Não há palavras que não o banalizem, e eu tenho consciência disso enquanto escrevo. Há sempre o risco de transformar um sentimento genuíno numa frase feita sobre identidade e diáspora, e esse risco não me apetece correr. Por isso, fico com a versão simples: há uma parte de mim que se encontrou ali. Uma parte que não sabia que estava à procura de nada e que, ainda assim, reconheceu qualquer coisa quando a viu. Isso não precisa de mais justificação do que a sensação em si.
Obviamente que não dá para romantizar tudo e não é esse o exercício. Como acontece em todos os países - e aqui não estou a apontar o dedo a Cabo Verde em particular, estou a falar de uma condição estrutural que atravessa parte do universo lusófono e muito além dele -, há sempre uma parte da população que faz a cidade acontecer, que lhe dá vida e textura e sentido, mas que não usufrui dela em pleno. Que assiste de fora ao que foi construído com as suas mãos.
A cultura continua a não chegar a todos os lugares, embora os festivais façam a sua parte para trazer uma dinâmica diferente durante os dias em que existem. É um intervalo, mas não é novidade: a cultura é, por norma, o parente pobre dos governos. Recebe o que sobra depois de tudo o resto ter sido decidido, e quando chega, nunca chega inteira. Surge muitas vezes numa lógica de fragmentação em que só alguns têm acesso - seja por questões económicas, geográficas, ou simplesmente porque a informação não circula de forma igual para toda a gente. E essa fragmentação pode reverberar num conceito elitista que ninguém gosta de nomear abertamente, mas que persiste com uma teimosia que acaba por tornar-se mais estrutural que acidental.
A questão que me fica, e que não tenho resposta para dar, nem acho que seja esse o papel desta crónica, é a seguinte: quando a cultura se torna investimento, quando é programada com base no retorno e no lucro e no prestígio internacional, como fica quem fica de fora? Quem não tem bilhete, nem transporte, nem tempo, nem a sensação de que aquilo foi pensado também para si? A pergunta não tem resposta simples, e desconfio de quem a tiver. Mas vale a pena não deixá-la cair debaixo do entusiasmo legítimo que os festivais merecem.
O Atlantic Music Expo e o Kriol Jazz Festival são como duas faces da mesma moeda, ainda que com públicos, formatos e funcionamentos distintos. Coexistem na mesma cidade, praticamente nos mesmos dias, com o mesmo propósito declarado de pôr a música no centro, mas a partir de pontos de partida diferentes, e essa diferença diz qualquer coisa sobre as escolhas que se fazem quando se programa cultura.
O AME, aberto ao público e de entrada gratuita, leva à Rua Pedonal e à Pracinha da Escola Grande um recorte do que a Cidade da Praia é em si mesma: pessoas mais velhas, pessoas mais novas, amantes de música com opinião formada, curiosos que passavam e ficaram, famílias. É um festival para os que, adorando a cultura local, não deixam também de querer ver o que se faz pelo mundo fora - e que encontram naquele espaço, naqueles dias, uma razão para estar na rua de outra maneira. Mas o AME não é só concertos. Há uma outra componente que vale tanto ou mais do que o cartaz: os showcases, os workshops e as conferências. Cada um deles com o propósito claro de, durante três dias, colocar a música e a cultura no centro de uma conversa que muitas vezes acontece à margem das decisões que contam.
Este ano, o tema era "A música e a IA" - e o programa abriu portas a discussões que foram muito além do óbvio. Circulação nos mercados internacionais, produção musical no contexto das novas tecnologias, posicionamento digital para artistas de territórios periféricos, o que muda e o que permanece quando as ferramentas mudam tão depressa. São todos temas que vão atravessando o quotidiano de quem trabalha com música e cultura, direta e indiretamente, e que raramente encontram espaço para serem pensados com calma, sem agenda comercial imediata. O AME abriu esse espaço e, para um país com a dimensão de Cabo Verde, isso não é pouco.
A funcionar em "on demand" no Palácio Ildo Lobo, foi lá que eu e a Vanessa passámos grande parte dos dias e das tardes antes dos concertos. A equipa era boa - e quando digo boa, não estou a usar o adjetivo por gentileza. Fez-me sentir em casa desde o primeiro momento, com uma receptividade muito mais genuína do que qualquer protocolo poderia indicar. É uma equipa jovem, coesa e sem medo de assumir a responsabilidade de fazer dar certo aquilo que ainda está a crescer. Acredito que esteja aí grande parte do sucesso que é o AME: não só na programação, não só no financiamento ou nos parceiros institucionais, mas nas pessoas concretas que acordam todos os dias a pensar em como fazer melhor. Senti isso. E ouvir um "até para o ano" tão convicto, dito sem cerimónia e com a naturalidade de quem já conta com isso, é uma das provas de que a relação já estabelecida tem pernas para andar. Mais mãos tivéssemos, mais teríamos feito.
O Kriol Jazz Festival tem o mesmo propósito essencial, mas opera num registo diferente. É pago. A entrada é proibida a menores de 18 anos. São dois dados que podem parecer administrativos à primeira leitura, mas que mudam substancialmente o público que chega e, por consequência, a mensagem que circula. O ambiente é outro: mais contido, mais concentrado, com parte do público sentado e a assistir com a atenção que se reserva para os concertos que se escolheram e se pagaram. Todos os concertos ocorrem no mesmo palco, o que cria uma unidade que o AME, pela sua natureza mais dispersa e aberta, não tem. As atuações são mais longas, há espaço para os artistas se desenvolverem, para o público acompanhar em vez de apanhar.
O cartaz deste ano conseguiu um equilíbrio muito positivo entre o local e o internacional, e a homenagem a Zeca di Nha Reinalda é, talvez, o exemplo mais claro disso: o Kriol olha também para dentro, reconhece e celebra os seus próprios símbolos, e faz isso sem complexo, sem sentir que precisa de pedir desculpa por não ser mais cosmopolita. Trazer gente de fora não significa desvalorizar o que Cabo Verde já tem. Antes pelo contrário, permite que o país funcione como o que já é, mas que nem sempre se assume como tal: um epicentro atlântico com uma tradição musical que não deve nada a ninguém.
Vale ressaltar que estes dois festivais - e talvez Cabo Verde no seu conjunto - beneficiam de algo que não se programa e não se importa, a localização geográfica. Cabo Verde está relativamente próximo do Brasil, com a ligação Praia-Recife recentemente reestabelecida. Está mais perto ainda do Senegal, da Guiné, de uma costa africana ocidental que tem a sua própria energia e os seus próprios mercados culturais em expansão. Isso, parecendo que não - e às vezes parece mesmo que não, tal é a naturalidade com que se aceita o que se tem -, é a combinação perfeita para que esta influência transatlântica se multiplique de formas que ainda estamos a aprender a nomear e a aproveitar.
Não é uma tarefa fácil, mas talvez Cabo Verde seja em si mesmo um argumento - geográfico, histórico, cultural - para que o Atlântico negro deixe de ser pensado apenas a partir dos seus extremos e comece a ser pensado também a partir do seu centro. Os festivais percebem isso, cada um à sua maneira. A questão que fica - e aqui volto à pergunta que deixei sem resposta mais atrás - é se quem decide, quem investe, quem traça políticas culturais e define prioridades orçamentais, também percebe. E se percebendo, está disposto a fazer com que essa posição única chegue inteira a quem dela mais precisa.
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