Filme "A Dama do Rap" conta a história de Edd Wheeler, a rapper que trocou os microfones pelos tribunais

27 de Agosto de 2026
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Edd Wheeler | DR

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No Brasil, antes de o rap feito por mulheres conquistar espaço nas plataformas de streaming, nos festivais e nas tabelas de sucesso, havia já mulheres negras a ocupar os microfones, as pistas e os espaços de resistência da cultura hip-hop. É essa memória que um novo documentário, dirigido por Cavi Borges, se propõe a recuperar, ao colocar no centro da narrativa Edd Wheeler, nome artístico de Edwiges Tomaz, e a trajetória d'As Damas do Rap, o grupo que a artista integrou ainda nos anos 1990.


O documentário chama-se A Dama do Rap e foi lançado a 11 de agosto, data simbólica para a cultura hip-hop. Está disponível gratuitamente no YouTube desde então.


A história de Edd Wheeler começa longe de um estúdio de gravação. Foi nas pistas de dança, a partir do universo do smurf dance, um estilo de dança de rua ligado ao movimento charme, e dos bailes de charme dos subúrbios do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, região metropolitana vizinha da cidade, que ela e outras seis mulheres negras se aproximaram e, aos poucos, trocaram os passos de dança pela rima. Nascia assim, em 1992, As Damas do Rap, um grupo a atuar num ambiente predominantemente masculino, numa altura em que a presença feminina na cena hip-hop carioca, ou seja, do Rio de Janeiro, era ainda residual.

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d'As Damas do Rap | DR

O grupo chegou a gravar a faixa "Um Sonho Real", incluída na coletânea Tiro Inicial, lançada em 1992 e apontada, segundo o site oficial d'As Damas do Rap, como um dos registos fundadores do rap carioca. Segundo a mesma fonte e o material de divulgação do documentário, As Damas do Rap terá sido o primeiro grupo de rap feminino formado no Rio de Janeiro, uma afirmação que partilhamos aqui tal como é apresentada pela produção do filme e pelo próprio grupo, sem confirmação por fontes académicas ou jornalísticas independentes que tenhamos conseguido consultar até à publicação deste artigo. O que essas fontes confirmam, de forma mais ampla, é que As Damas do Rap fazem parte de um conjunto de nomes, ao lado de artistas como Dina Di e Rubia RPW, que ajudaram a abrir caminho para as mulheres no rap brasileiro já nos anos 90, ainda que a maior parte dos registos históricos sobre esse período dê mais destaque a coletivos formados fora do Rio de Janeiro, como o de Dina Di, em Campinas.


Da rima nas ruas à defesa dos direitos das mulheres


Mais do que recuperar uma música ou um grupo do passado, o documentário acompanha a transformação de Edd Wheeler ao longo de mais de três décadas. A rapper que começou a escrever e a rimar ainda nos anos 90 tornou-se, entretanto, advogada, palestrante e ativista, mantendo a sua atuação ligada à cultura hip-hop e às pautas dos direitos das mulheres. O seu percurso inclui participação na Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop, trabalho de mediação de conflitos e de combate à violência contra a mulher, além de iniciativas voltadas para o fortalecimento da presença feminina na cultura.


É essa ponte, entre a pista de dança e a sala de audiências, entre a rima que denunciava a realidade das ruas e a palavra que hoje é instrumento de atuação social, que o documentário de Cavi Borges tenta contar. Quando As Damas do Rap surgiram, as mulheres ainda precisavam de disputar espaço numa cena maioritariamente masculina. Mais de 30 anos depois, a presença feminina no rap brasileiro é bastante maior, mas essa ocupação não começou agora, e é justamente esse fio histórico que o filme convida a olhar.


Moradora de Nilópolis, cidade da Baixada Fluminense, Edd Wheeler representa também uma parcela importante da história cultural produzida fora dos grandes centros tradicionais de circulação artística no Brasil, à semelhança do que acontece com tantas periferias urbanas em Portugal e nos países africanos de língua portuguesa. A sua trajetória liga a Baixada Fluminense, o subúrbio carioca, os bailes de charme, o rap, a cultura negra, o protagonismo feminino, o Direito e o ativismo social, temas que raramente aparecem juntos na mesma biografia.


O interesse pela sua história ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro. Segundo a assessoria de imprensa do documentário, Edd Wheeler já teve o seu percurso registado e discutido em pesquisas académicas, documentários e projetos ligados à cultura hip-hop no Brasil, além de ter participado em iniciativas e debates internacionais sobre o movimento. Em 2026, a sua trajetória terá sido apresentada pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz como referência do hip-hop brasileiro, destacando a sua atuação como rapper pioneira, integrante fundadora d'As Damas do Rap, advogada e articuladora social. Não conseguimos confirmar de forma independente os detalhes desta apresentação académica, pelo que a informação é reproduzida aqui como relato da própria assessoria.


Carlos Vinicius Borges, conhecido no meio do cinema como Cavi Borges, e já realizou trabalhos como Cidade de Deus, 10 Anos Depois, documentário sobre o impacto do filme Cidade de Deus uma década após a sua estreia, e Um Filme Francês, além de ter codirigido, com Emílio Domingos, o documentário L.A.P.A., sobre o bairro carioca. Como produtor, esteve envolvido em mais de uma centena de filmes e recebeu ainda prémios como Melhor Curta-Metragem, por "Sete Minutos", e o Prémio da Crítica, por "Riscado", com trabalhos exibidos em festivais como Cannes, o Festival do Rio e Gramado.

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