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Quantas vezes calamos a dor por vergonha ou por não encontrarmos espaço para falar sobre ela? Para homens negros e queer, a vulnerabilidade e a intimidade são frequentemente substituídas por máscaras de sobrevivência e é justamente para rasgar este silêncio que o artista David Amado lança agora o seu primeiro livro, (DES)PROTEGIDOS.
A obra, que cruza poesia, teatro e dança num formato inovador, parte de uma experiência pessoal e violenta de abuso sexual. Neste momento, o livro encontra-se numa fase crucial de pré-venda e o autor tem um objetivo imediato: alcançar 50 exemplares vendidos.
David Amado explica que o ponto de partida não foi a vontade de fazer uma obra, mas a necessidade de sobreviver ao que sentia. “Não comecei a escrever para criar uma obra. Eu escrevo todos os dias. Escrevo para entender a minha vida. (DES)PROTEGIDOS começou como tentativa de dar sentido a algo que eu não conseguia nomear, muito menos partilhar. Havia muita vergonha. E durante muito tempo, me culpei a mim mesmo.”
Entretanto, o processo de produção da obra começou a ganhar contornos cénicos e “as personagens vieram depois. Como fragmentos. Como vozes. Hoje entendo que eram mecanismos de defesa. O trauma fragmenta, e foi nesse processo que comecei a reconhecer diferentes partes de mim. Só mais tarde percebi que aquilo podia ser teatro. Quando comecei a ver o espaço. Os corpos. A luz. E, principalmente, quando entendi que a palavra não era suficiente. O corpo também precisava falar.”

Livro DES)PROTEGIDOS, de David Amado
Essa necessidade de fazer coexistir linguagem, corpo e emoção levou-o a escolher uma forma híbrida, entre teatro, dança e poesia. Para o autor, não faria sentido contar esta história de forma linear. “O trauma não é linear, então a linguagem também não podia ser. O que eu vivi foi um momento específico, mas que continuou no meu corpo muito depois, e que também vinha de antes. Era cíclico. Fragmentado.” É nesse ponto que o livro se aproxima da ideia de coreopoema, inspirado no trabalho de Ntozake Shange, dramaturga e poeta norte-americana que, enquanto feminista negra, abordou no seu trabalho questões relacionadas à raça e ao poder negro. “A poesia me deu acesso a isso. À repetição. À quebra. Ao que não precisa ser explicado. Mas não bastava. Porque o que aconteceu comigo não foi só mental. Foi físico. A dança entra como uma forma de processar o que não cabe em palavras. Tem coisas que o corpo entende antes da cabeça e algumas coisas, só o corpo consegue dizer.”
As cinco personagens que habitam o texto carregam nomes e funções distintas: Ary, Eros, Kabu, Mata e Nosenti. Cada uma representa uma resposta possível à violência, à negação e à tentativa de continuar inteiro depois da fratura. As personagens são estratégias de sobrevivência”, resume David Amado, explicando que cada uma representa um mecanismo de defesa diferente: Ary traduz a assimilação e a busca de validação, Eros expõe a hipersexualização e a tentativa de recuperar controlo, Kabu encarna a dissociação, Mata reflete a performance de invulnerabilidade e Nosenti revela a raiva como forma de proteção.
David reconhece-se em todas essas camadas. “Todas são partes de mim. Depois do que eu vivi, eu também me dividi. Teve momentos em que eu busquei validação fora. Momentos em que me objetifiquei para ter controle. Momentos em que eu simplesmente não estava no meu corpo. Momentos em que me fechei completamente e momentos em que a única coisa que eu conseguia sentir era raiva.”
Entre todos esses mecanismos, há alguns que o autor identifica como particularmente difíceis de desmontar. “A dissociação. É a mais automática. Ao longo de um dia, o meu corpo pode ser atravessado por várias formas de violência; raça, sexualidade, expressão. Então sair de mim torna-se fácil. Natural. Mas isso também me afasta de mim mesmo.” E acrescenta: “A auto-objetificação também é difícil de largar. Porque, muitas vezes, o corpo é o único lugar onde sentimos algum tipo de poder. Então usá-lo como moeda (para acesso, validação, controle) vira estratégia. E abandonar isso é perder uma forma de sobrevivência. Em Portugal, vejo também muita dificuldade em romper com a assimilação. A necessidade de se adaptar, de não incomodar, de caber. Isso custa caro.”
Apesar de o livro tocar em temas duros e ainda muito pouco debatidos, sobretudo o abuso entre homens, o autor diz que a maior resistência não surgiu no momento da escrita, mas quando percebeu que o texto poderia chegar a outras pessoas. “A resistência veio depois. Quando entendi que aquilo não era só para mim. Que poderia virar peça. E depois, livro. No teatro, ainda existe proteção. Você pode se esconder na personagem. No livro, não. O livro tem o meu nome. E isso muda tudo. Porque deixa de ser só sobre criar. Passa a ser sobre assumir.”
Ao longo da entrevista, David evita romantizar a ideia de cura. O que o livro lhe permitiu foi outra coisa: dar forma. “Não foi confronto. Porque mesmo com as minhas tentativas de dissociação, não era algo de que eu pudesse fugir. Já estava comigo. Todos os dias. Foi mais um processo de dar forma. De transformar sensação em linguagem. Não sei se ‘cura’ é a palavra. Tem certas feridas que não fecham 100‰. Mas escrever me permitiu continuar com mais consciência. E, isso já é muito.”
A forma como fala de intimidade atravessa todo o livro e também a sua leitura sobre o que significa ser um homem negro e queer a narrar trauma. “Posso dizer que a intimidade é central. Porque ela nos é negada. Existe uma ideia de que homens não precisam de intimidade. Muito menos entre homens. E isso afeta tudo. Afeta como nos relacionamos. Como desejamos. Como lidamos com o toque.” Para o autor, essa negação está ligada à forma como os corpos negros masculinos continuam a ser vistos. “Ao mesmo tempo, muitas experiências nem são reconhecidas como trauma. Porque não somos vistos como sujeitos sensíveis. Apenas como corpos. E se você não é visto como alguém que sente, fica mais difícil até nomear o que te feriu.”
Entre os debates que gostava de ver surgir a partir do livro, há um que aparece com especial urgência: o consentimento entre homens. “Porque o que eu mais ouço, quando falo sobre isso, é: ‘comigo também.’ Mas isso só vem depois que alguém fala primeiro.” E continua: “Existe muita confusão sobre consentimento. A ideia de que, se você disse sim uma vez, disse sim para tudo e para sempre. E quando algo muda ao longo do caminho, ou um limite é ultrapassado, fica difícil nomear. Principalmente para homens. Porque vem a culpa. Vem a vergonha. Vem o silêncio. E, no nosso caso, vem também o peso do estigma.”
David Amado não espera que o leitor saia do livro com respostas fechadas. O que espera é deslocamento. “Eu não espero compreensão total. Espero que algo se mova. Que alguma pergunta fique. Que alguém se reconheça. E que, talvez, algumas conversas comecem a acontecer...fora do livro”.
Atualmente em pré-venda, (DES)PROTEGIDOS chega como um primeiro gesto público de um autor que escolheu não suavizar o que viveu, mas transformá-lo numa linguagem própria, atravessada por corpo, silêncio, fragmentação e sobrevivência. Mais do que pedir escuta, o livro parece querer abrir um espaço onde certas conversas possam finalmente começar.
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