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E se “desmontar um museu” fosse o passo necessário para torná-lo habitável? Ainda que não existam respostas, é a partir desse gesto, simultaneamente físico e simbólico, que se constrói a escolha de obras da Coleção do Centro de Arte Moderna realizada por Carlos Bunga no âmbito de Habitar a Contradição, exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian até 30 de março.
Integrada no núcleo “Convite”, apresentado no Mezanino, esta seleção reúne obras da Coleção do CAM marcadas pela sua natureza efémera e elusiva. Longe de assumir uma lógica retrospectiva ou representativa do acervo, a escolha integra-se como extensão direta da exposição e opera num território onde curadoria e prática artística se confundem. O resultado é um conjunto de obras convocadas não para ilustrar uma ideia, mas para participar ativamente numa reflexão sobre casa, corpo, memória e instabilidade, assumida como processo e como final em aberto.
Neste enquadramento, e de acordo com Carlos Bunga, alguns trabalhos adquirem um caráter particularmente significativo, seja pela sua natureza própria, seja pelo modo como contribuem para o desenvolvimento do tema da exposição. Entre elas encontra-se Sala de desconstrução (1975), de Tulia Saldanha, bem como Lisbonne Été (1988), de Keiichi Tahara. Assume igualmente relevância Water Motor (1978), de Babette Mangolte, apresentada na exposição através de empréstimo e não pertencente à Coleção do CAM, tornando visível uma ideia de coleção entendida também a partir das suas ausências. No conjunto inscreve-se ainda Além-Tejo Vos-Tejo (Lisboa, 15 Maio 1979), de Wolf Vostell, cuja presença sublinha o modo como o núcleo articula diferentes práticas e temporalidades em torno de uma reflexão comum.
A seleção inclui trabalhos de artistas centrais da coleção, convocados a partir de afinidades conceptuais que atravessam diferentes gerações e contextos artísticos. Mais do que propor uma leitura representativa do acervo, o conjunto articula práticas que abordam o espaço, o corpo e a materialidade como territórios instáveis, onde a presença se constrói frequentemente a partir do vestígio, da ausência e da transformação.
É nesse campo que se inscreve a obra de Lourdes Castro, cuja prática — conhecida por obras como séries de sombras, recortes e impressões, caixas e herbários — convoca a memória através do que não está plenamente presente. Trabalhos desse universo, integrados na Coleção do CAM, deslocam a presença para o domínio da projeção e do vestígio, dialogando com a dimensão elusiva que atravessa o núcleo “Convite”. A relação entre corpo e espaço prolonga-se, por outras vias, no trabalho de Helena Almeida. Autora de obras que exploram a relação entre gesto, corpo e suporte, Almeida transformou a pintura num campo de ação, habitando a tela e o espaço expositivo como extensões do corpo. Conhecida tanto pelas telas tridimensionais da sua primeira fase como por obras fotográficas de caráter performativo, a sua prática introduz uma leitura do habitar como gesto ativo, em tensão permanente com os limites arquitetónicos.
A reflexão sobre o espaço enquanto construção mental e afetiva encontra outro desenvolvimento na obra de Maria Helena Vieira da Silva, referência da abstração europeia do pós-guerra. As suas composições, organizadas em redes e malhas, estruturam o campo pictórico como território de circulação e desorientação, exigindo um olhar atento e demorado. Trabalhos como A poesia está na rua I (1974), que existem em relação com contrapartes ausentes, reforçam essa ideia de espaço incompleto e em suspensão, em ressonância com a lógica de instabilidade que estrutura a exposição. A materialidade assume um papel central nos trabalhos de Alberto Carneiro, conhecido por obras que articulam natureza, corpo e escultura a partir de uma reflexão sobre a árvore, a floresta e o gesto humano. Trabalhos desse universo, frequentemente associados ao uso da madeira e à ideia de floresta, introduzem uma dimensão orgânica que dialoga com a transitoriedade das estruturas propostas por Carlos Bunga.
A atenção à fisicalidade da forma prolonga-se na escultura de Alberto Chissano, conhecido por trabalhos em madeira que conjugam ancestralidade e modernidade. As suas peças, muitas vezes sem título, afirmam uma presença densa e expressiva, onde a superfície trabalhada transporta memória e corporeidade, reforçando a dimensão material e memorial do conjunto. Em continuidade com estas preocupações, a obra de Carlos Nogueira introduz o objeto como estrutura relacional. Conhecido por obras que dialogam com o quotidiano e com o lugar — autor de trabalhos como Construção para lugar nenhum —, Nogueira constrói formas que interrogam a ideia de uso, abrigo e construção simbólica, aproximando-se da noção de espaço vivido que atravessa o núcleo “Convite”.
A dimensão ética do conjunto intensifica-se com a presença de Doris Salcedo, reconhecida por obras que abordam memória, violência e ausência. Trabalhos como Plegaria Muda (2008), que implicam a utilização de materiais orgânicos e processos de reconfiguração ao longo do tempo, deslocam a escultura para um território de luto ativo e de memória em construção, ampliando a leitura do habitar para além da esfera individual e confrontando o espaço doméstico com a experiência do trauma coletivo.
Por fim, a obra de Manuel Amado, que atravessa desenho, instalação e objeto, introduz uma reflexão persistente sobre o espaço doméstico e a memória. Conhecido por trabalhos que interrogam a casa enquanto construção simbólica e partilhada, o seu percurso reforça a leitura do habitar como experiência em permanente negociação.
Ao integrar obras da coleção num dispositivo concebido a partir da prática de um artista, o núcleo “Convite” introduz uma inflexão no modo como o acervo é apresentado e interpretado. Sem substituir os enquadramentos históricos ou curatoriais que estruturam a coleção, esta proposta evidencia a sua capacidade de dialogar com linguagens contemporâneas e de se deixar atravessar por leituras situadas. A coleção mantém a sua densidade patrimonial, mas é convocada para um contexto que privilegia a relação, a proximidade e a experiência, reforçando a ideia do museu como espaço onde diferentes temporalidades e modos de pensar a arte podem coexistir sem se anularem.

Túlia Saldanha, «Sala de desconstrução», 1975 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Vieira da Silva, «A poesia está na rua I», 1976 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Lourdes Castro, «Outubro», 1959 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Alberto Carneiro, «Trajeto dum Corpo», 1976-77 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Keiichi Tahara, «Lisbonne Été», 1988 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Babette Mangolte, «Water Motor», 1978 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Wolf Vostell, «Além-Tejo Vos-Tejo», 1979 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Helena Almeida, «Tela Habitada», 1976 | ©Coleção do CAM/Pedro Pina

Alberto Chissano, «S/Título», 1982 | Coleção do CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian © Pedro Pina

Carlos Nogueira, «Construção para lugar nenhum», 2003 | Coleção do CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian © Pedro Pina

Doris Salcedo, «Plegaria Muda», 2008 | Coleção do CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian © Pedro Pina

Manuel Amado, «Quarto Interior», 1993 | Coleção do CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian © Pedro Pina
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