Dino D’Santiago, cinco anos de curadoria que mudaram a forma de ocupar a Gulbenkian

26 de Junho de 2026
Dino D'Santiago Jardim de Verão da Gulbenkian
Dino D'Santiago | ©Chris Costa

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O Jardim de Verão da Gulbenkian acontece, este ano, entre 27 de junho e 12 de julho, ao longo de três fins de semana em que a Fundação Calouste Gulbenkian abre os seus jardins - e também o Edifício Sede e o CAM - a concertos, conversas, DJ sets, filmes e atividades para famílias, com entrada gratuita. É um gesto que faz daquele espaço, normalmente associado a um certo peso institucional, um território de toda a gente: o cartaz percorre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal, do mais tradicional ao mais contemporâneo, e inclui ainda a apresentação dos sete episódios da antologia "Novas Narrativas de Caça", seguidos de conversas.


A curadoria musical está, pelo quinto ano consecutivo, nas mãos de Dino D'Santiago. Meia década de relação com a instituição, traduzida em mais de duzentos artistas no Grande Auditório, no Anfiteatro ao Ar Livre e no Jardim, e a uma forma de pensar a cultura afrodescendente no centro de Lisboa que se tornou, ela própria, parte da história da casa.


Nesta entrevista, Dino D'Santiago fala sobre o que aprendeu ao longo destes cinco anos de curadoria, sobre os critérios que o guiam na construção do cartaz, sobre a relação que foi desenvolvendo com a Gulbenkian e sobre uma travessia pessoal, entre Portugal, Cabo Verde e o Brasil, que reconfigurou a maneira como olha para a vida e para o trabalho.


Quando lhe perguntamos o que foi aprendendo ao longo do tempo, Dino regressa sempre ao mesmo ponto: as pessoas. A coisa mais bonita, diz, foi perceber o impacto que a cultura tem, onde quer que esteja. E mede esse impacto por sinais miúdos, quase domésticos: o momento em que as famílias dos próprios funcionários da Fundação passaram a querer estar ali, quando antes nem apareciam. "Mudou a forma como as famílias se apropriaram daquele espaço, que é de toda a gente", resume. O peso simbólico não lhe escapa: começou por ver-se a si próprio como uma das poucas caras não-brancas à frente de um projeto daquela dimensão e, cinco anos depois, fala de um público que se desloca de Chaves, de Bragança, do Algarve, do Alentejo, só para viver o espírito do festival, e de programadores internacionais que, sempre que passam por Lisboa em digressão, lhe enviam o catálogo a pedir para entrar nesta história.

“Mudou a forma como as famílias se apropriaram daquele espaço, que é de toda a gente”

Dino D'Santiago

Dino D'Santiago Jardim de Verão da Gulbenkian

Jardins de Verão, em 2025 | ©Lume On Filme

A frase que repetiu numa edição anterior - a de que curar música é, no fundo, curar encontros - mantém-se de pé, mas ganhou um acrescento que faz questão de sublinhar: "Só acrescentaria que curar música cura." E sustenta-o com nomes e com carreiras como a de Jota.pê, que descreveu o concerto no anfiteatro como o melhor momento que viveu na Europa, e com quem passou desde então a colaborar; a Toty Sa'Med, hoje de regresso a Angola a fazer o mesmo exercício de curadoria junto dos talentos de lá; passando por Momi Maiga, do Senegal, que dali partiu para uma digressão pelo mundo; e por Libra, cuja carreira disparou depois daquele palco. Para Dino, o que torna tudo isto possível é a natureza democrática da proposta: um espaço no centro da cidade que enche sem que o artista precise de se preocupar com a bilheteira, com a estrutura montada e o público certo à espera da sua arte. É aí que reaparece a ideia que atravessa toda a conversa, e à qual ele volta como a um refrão, “a obra maior é o público. Só assim faz sentido.”


O cartaz deste ano coloca lado a lado nomes consagrados e caras novas. Os Tubarões, um dos grandes nomes da música cabo-verdiana, partilham programação com Nancy Vieira, voz já há muito estabelecida, mas também com Soraia Ramos ou Rita Vian. Como se equilibra, então, o legado e a renovação? Dino corrige a premissa antes de responder, e a correção revela que não se trata bem de um critério, mas de uma proporção assumida. "Oitenta por cento do cartaz é de caras novas, de sangue novo." A presença d’Os Tubarões, este ano, é uma das exceções que confirmam a regra, e explica-se por uma circunstância concreta: a Fundação levou a sua orquestra a Cabo Verde, no âmbito dos cinquenta anos da liberdade, e o convite ao grupo surgiu quase como retribuição desse gesto, num caso em que os custos de deslocação levariam, em circunstâncias normais, a privilegiar artistas já radicados em Portugal.


Mas há um critério que não admite cedência. "O primeiro critério é excelência, excelência artística", afirma, e demarca-se de qualquer leitura assistencialista: não é um projeto existencialista nem social, é um projeto cuja intenção é que qualquer pessoa, venha de onde vier, assista a um excelente espetáculo. Para sustentar essa fasquia, Dino recorre a uma comparação: os artistas que sobem àqueles palcos têm potencial para construir carreiras da dimensão de Mayra Andrade, Carminho ou Slow J. A transição para esse patamar ainda não se deu, mas, no seu entender, é questão de tempo. A par da excelência, o segundo eixo passa por garantir um cartaz maioritariamente assente nos sons do tambor afrodiaspórico, e abrir espaço, ao mesmo tempo, a artistas portugueses que entendem esses trânsitos e fazem a sua própria travessia em contacto com as raízes.


Há ainda lugar para a descoberta, e é talvez aí que o festival mais se distingue de uma programação de nomes. Dino recorda o ano em que os Ferro Gaita subiram ao palco. Uma banda com que os cabo-verdianos cresceram, mas cuja dimensão muitos portugueses desconheciam, e que acabou por ser uma revelação, com a plateia sem parar de dançar. E há a generosidade dos próprios artistas, que descreve com gratidão: como todos recebem o mesmo cachê, cada um decide se vem com uma formação maior ou sozinho, de violão na mão, e não raras vezes opta por trazer a banda inteira. O que lhe interessa, diz, é que tragam aquilo que verdadeiramente são, e não uma versão reduzida de si mesmos.


Sobre a relação com a Gulbenkian, Dino é direto ao explicar porque continua ali ao fim de cinco anos, e a explicação tem tanto de gratidão como de surpresa. "Em cinco anos, sempre confiaram a cem por cento." Descreve uma flexibilidade e um respeito que lhe permitiram conduzir as narrativas pelos próprios termos, sem ter sentido, em momento algum, que alguém se servia das suas plataformas para fins alheios; pelo contrário, é muitas vezes a própria Fundação a sugerir-lhe caminhos. É essa ausência de atrito, de "anticorpos", que aponta como a verdadeira razão da permanência. E lê-a como parte de um movimento mais amplo da instituição: o de se transformar num espaço onde qualquer pessoa pode entrar, ainda que seja só para beber um café. Enumera, a propósito, o que a casa tem editado e exposto: o volume sobre as rotas do tráfico negreiro, que diz estar a devorar, ou a exposição complexo brasil, que trouxe livros inéditos e lhe deu acesso a uma parte da sua própria cultura que desconhecia. "Tornei-me fã, sem saber como era aquela casa", confessa, acrescentando que, quando ali está, se sente em casa ao ponto de preferir assistir a trabalhar.

“A obra maior é o público. Só assim faz sentido”

Dino D'Santiago

Dino D'Santiago Jardim de Verão da Gulbenkian

Jardins de Verão, em 2025 | ©Lume On Filme

Dino D'Santiago Jardim de Verão da Gulbenkian

Jardins de Verão, em 2025 | ©Lume On Filme

Na edição deste ano, um dos destaques vai para a série "Novas Narrativas de Caça”, cujos episódios vão ser exibidos na Fundação, com conversas que reúnem atores, produtores e realizadores em torno de cada um deles, acontecimento que classifica de histórico e que liga a um sinal mais largo. A série, nota com evidente entusiasmo, chegou ao topo das mais vistas na RTP, o que para si desmente a ideia de que a produção afrodescendente vive confinada à internet e prova que o público quer mesmo absorver aquilo que se faz. "Nós sempre fizemos. Simplesmente agora são melhores, as plataformas.”


Salvador, a Amazónia e o conselho de Criolo: a travessia atlântica que reconfigurou tudo


A leitura destes cinco anos não se faz, porém, sem o que aconteceu em paralelo na vida de Dino, e é aqui que a conversa muda de registo. Os últimos três anos foram, nas suas palavras, uma travessia, sobretudo o tempo passado no Brasil, que lhe deu um espaço que diz não ter tido antes: o da espiritualidade ligada ao continente africano. Conhecia as religiões de matriz africana de longe, sobretudo pela internet, e sentia que, mesmo no continente, as culturas muçulmana e católica predominavam; chegar a Salvador, onde essas raízes permanecem vivas, foi um choque térmico que descreve como bom, e que coincidiu com um período em que questionava muito o seu lugar naquele triângulo entre os PALOP, o Brasil e Portugal. Hoje, antes de subir ao palco, reza aos seus orixás. Reconhece-se filho de Oxóssi - o caçador que tem uma única flecha e por isso não pode falhar - e atribui a essa imagem uma mudança a nível pessoal e profissional: deixou de “disparar flechas à toa” e tornou-se mais assertivo na vida. Ao mesmo tempo, faz questão de notar, cresceu também a sua admiração pela presença de Jesus Cristo na Humanidade.


Foi um conselho de Criolo, cantor, rapper e compositor brasileiro, que o ajudou a habitar a tensão de pertencer a vários lugares ao mesmo tempo. "Não tens de segurar bandeira nenhuma a não ser a tua existência", recorda terem-lhe dito, numa altura em que sentia quase ter de reclamar o direito de pertencer ao país onde nascera. Filho de cabo-verdianos nascido em Portugal, com duas pátrias que ama e o direito de usufruir de ambas, ganhou no Brasil uma terceira que lhe deu espaço para vibrar na sua africanidade sem ter de lutar por esse lugar. Daí a gratidão, que quantifica: mais de oitenta por cento da sua biblioteca vem do Brasil, país que traduziu e estudou pensadores e filósofos africanos e afro-brasileiros a quem, diz, não teria acesso a partir da Europa e cuja perspetiva distingue da norte-americana, demasiado centrada, no seu entender, na história afro-americana.


No fundo de tudo há uma reorientação de prioridades, que situa com precisão no tempo: depois de ser pai, percebeu que tudo o que fazia passava a ter impacto direto nos filhos. Quinze dias na Amazónia ensinaram-lhe que aquilo a que chamava silêncio era, afinal, ausência de vida. Custou-lhe adaptar-se à floresta “sempre aos berros”, até que, por volta do sexto dia, entrou em harmonia e entendeu que era aquela a conexão com a natureza que os povos africanos sempre sentiram. "Por isso é que sofremos quando vimos trabalhar para a Europa", observa. A partir daí, focou-se na família e na ação social, e o projeto Mundu Nobu, associação que dirige com Liliana Valpaços,  tornou-se um dos pilares da sua vida, com os miúdos que acompanha a ocuparem o lugar de filhos. Quanto às redes sociais, optou pelo afastamento deliberado: não lê mensagens, faz as suas partilhas e segue em frente, recusando-se a ser absorvido por aquele campo energético. "A rua sempre me deu amor", diz, por oposição ao universo paralelo que se construiu online e que deixou de legitimá-lo.

“Não tens de segurar bandeira nenhuma a não ser a tua existência”

Dino D'Santiago

Sobre o que pede a esta edição, Dino deixa um conselho que é tanto prático como ético. Os bilhetes são gratuitos e levantam-se no próprio dia, a partir das 15h00 e até dois por pessoa. E quem desconfie que afinal não vai a um concerto deve abster-se de levantá-los, para não ocupar o lugar de quem realmente quer estar ali. É um cuidado que, nas suas palavras, prolonga o próprio espírito da coisa: o de famílias sentadas na relva, com colunas a tocar, corpos a pertencer àquele lugar sem atrito. Mais do que a música, mais do que qualquer outra coisa, é essa apropriação do espaço que considera o mais belo do Jardim de Verão. É, no fim, a mesma ideia por outras palavras: a obra maior é o público.


E depois do verão? Em setembro, Rio de Janeiro e uma digressão pelo Brasil. E, no último trimestre do ano, um novo álbum - o primeiro depois de Badiu, editado em 2021, gravado ao longo de três anos, precisamente nessa travessia entre Brasil, Cabo Verde e Portugal, abordagem semelhante ao projeto Criolo, Amaro & Dino, lançado este ano. O nome já existe, mas fica guardado: há uma intervenção artística a ser preparada para o momento da revelação.

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