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A BANTUMEN esteve na inauguração da primeira exposição individual de Dino d’Santiago, Portal do Retorno, na Galeria Underdogs, em Lisboa. Patente de 23 de janeiro a 28 de março, a mostra afirma-se como um espaço de memória, escuta e reconhecimento, propondo uma inversão simbólica das chamadas “Portas do Não Retorno” associadas ao tráfico transatlântico de pessoas africanas.
Concebida como uma cerimónia visual de reparação espiritual, Portal do Retorno nasce no contexto dos 50 anos de independência de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. A exposição reúne cerca de 30 obras, todas da autoria de Dino D’Santiago, realizadas com tinta da China sobre papel e cartão colorido. Os rostos fragmentados, compostos por metades que se encaixam como peças, evocam tanto os corpos interrompidos pela violência histórica como a tentativa de recompor uma memória coletiva silenciada.
Na inauguração, Dino explicou que o uso do papel e da cartolina não é um gesto casual. Remete para a sua infância e para os primeiros desenhos feitos com os materiais que tinha ao alcance. “Quis voltar a casa e valorizar aquilo com que comecei”, partilhou. O traço contínuo, sem interrupções, assume aqui um posicionamento político claro, recusando o silêncio imposto pela história e afirmando a cor como território de potência, presença e identidade.
Mais do que revisitar a dor, o artista sublinha que a exposição procura transformá-la. “Aqui não se trata de reviver o trauma, mas de transmutá-lo”, afirmou. Cada rosto funciona como um corpo-templo, cada fragmento como um gesto de cura. O mural que integra a exposição alarga ainda mais este campo simbólico, ao homenagear vidas travadas por muros contemporâneos, do Muro de Berlim à Faixa de Gaza, passando pela fronteira entre os Estados Unidos e a América Latina, ligando diferentes geografias de desumanização.
Exposição "Portal do Retorno"
Durante a conversa com a BANTUMEN, Dino D’Santiago destacou também o impacto profundo da sua relação com o Brasil no processo criativo de Portal do Retorno. Foi no contacto com pensadores, escritores e práticas espirituais afro-brasileiras que encontrou novas ferramentas para compreender a sua própria negritude. “O Brasil deu-me filósofos, músicos e pensadores que pensam a partir dos povos originários, que falam de florestania em vez de cidadania”, disse.
A vivência no Brasil, em particular em Salvador da Bahia, aproximou-o do candomblé e dos orixás, permitindo-lhe reconhecer-se em referências espirituais que não encontrou na iconografia ocidental cristã. “Hoje sei que sou filho de Oxóssi e de Ogum. Isso muda a forma como olho para a vida. Fez-me sentir mais humano”, explicou. Para o artista, esta reconexão ajudou-o a resgatar uma memória africana que durante muito tempo esteve reduzida ao percurso da escravatura, abrindo espaço para celebrar também a história dos impérios, dos reis e das culturas africanas.
Esse processo de mergulho interior coincidiu com um período intenso de criação, que o próprio descreve como “oitenta madrugadas” quase sem dormir. Foi nesse tempo que pintou as obras agora expostas, escreveu canções e trabalhou num livro, num exercício de introspeção profunda, sem concessões ao ego. “Quando estamos cansados, o ego não entra em cena. Dá para ir mesmo às feridas”, confessou.
Portal do Retorno surge assim como um gesto de reconciliação com o passado, mas também como um olhar projetado para o futuro. Dino expressa o desejo de que as próximas gerações já não precisem de pintar rostos fragmentados. “Eu ainda carrego os pedaços do que os meus pais e avós sofreram. Mas quero que os meus filhos pintem rostos completos”, afirmou.
Na Galeria Underdogs, este trabalho afirma-se não como um lugar de observação distante, mas como um espaço de reconhecimento ativo. Um convite a olhar para a história, não para nela ficar preso, mas para, finalmente, encontrar um caminho de regresso.
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Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
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