Djeek em “Fora do Centro” e as fronteiras que a música ainda não conseguiu derrubar

23 de Julho de 2026

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Há uma pergunta que os músicos do Djeek já ouviram tantas vezes que aprenderam a responder-lhe de lado: como é que se junta tanta geografia numa banda só sem aquilo virar um cartão de visita? Portugal, Cabo Verde, Angola, Congo, Guiné-Bissau - nomes que, escritos em fila, parecem um exercício de diversidade bem calculado. Tocados, são outra coisa. Ao violino, Edvânia explica que cada músico do grupo carrega o seu país de origem no corpo, e que várias dessas geografias já se pareciam sonoramente muito antes de qualquer um deles pisar Lisboa. Ao teclado, Edvânio dá a essa proximidade um nome e um lugar: o gumbé, ou bumbé, ritmo guineense que se ouve no semba angolano com outro sotaque, e o estilo tina, também da Guiné, que os angolanos chamam kilapanga.


É essa recusa em explicar-se antes de tocar que atravessa todo o projeto, e talvez seja por isso que o Djeek chama à sua música "afro jazz espiritual" em vez de arranjar um rótulo mais fácil de vender. "Tudo começa no campo espiritual antes de se materializar", diz Edvânia, ao descrever a música como um encontro metafísico, "um encontro de almas", que ultrapassa os instrumentos e devolve ao grupo a liberdade de criar sem prestar contas a um género. O afro-jazz funciona apenas como o caminho que os juntou, dado o percurso de cada um, e como tema de conversa para esse encontro maior. Edvânio radicaliza a ideia ao falar de uma música afrodescendente espiritual que "transcende o que se pode ver ou explicar", sentida na alma antes de entendida na cabeça. No baixo, Kristoffer traz para essa conversa a imagem de génios do desporto, Ronaldo e Messi, para falar de quem nasce escolhido pela música, enquanto outros precisam de suar mais para chegar ao mesmo sítio.


Nada disto nasceu de um plano de carreira, e é aqui que o Fora do Centro encontra o Djeek em terreno particularmente seu. A websérie da Associação Sons da Lusofonia, com curadoria editorial da BANTUMEN, existe precisamente para dar palco a projetos que continuam geograficamente próximos do centro de Lisboa, mas distantes dos seus circuitos de visibilidade e Djeek encaixa nessa descrição sem esforço, com Dilson Pedro na bateria a completar a secção rítmica ao lado de Kristoffer. O grupo nasceu de amigos que queriam tocar juntos, unidos pela música africana e pelo jazz, sem seleção nem casting. "Já devia ser super natural haver bandas formadas por instrumentistas afrodescendentes", diz Edvânia, "tal como vemos em África e noutros países"  e o próprio jazz, como género e como história, foi construído por bandas negras antes de ser exportado para todo o lado como património universal. Edvânio situa essa comunidade em Lisboa como fruto de encontros musicais sem planeamento, e à guitarra, Jery Bidan acrescenta que o grupo se cimentou através de histórias e experiências partilhadas ao longo do tempo, não de um contrato ou de uma estratégia.


A Casa do Comum, no Bairro Alto, onde o Fora do Centro grava os seus episódios, fica a poucos minutos a pé dos palcos que normalmente decidem quem é "centro" e quem é "periferia" na música feita em Lisboa. É uma proximidade geográfica que não se traduz automaticamente em proximidade de tratamento, e Edvânio nomeia isso sem rodeios: a cidade está no centro da criação contemporânea, mas as culturas afrodescendentes continuam por vezes a ser vistas como periféricas dentro desse mesmo centro, uma perceção que, para ele, está a mudar devagar com a internacionalização da música e a maior visibilidade dos artistas. Jery Bidan dá a essa frase um rosto concreto: um concurso de bandas em que o grupo dele foi considerado o melhor, mas perdeu por preconceito racial, com o resultado manipulado para criar um terceiro lugar artificial. A música africana e cabo-verdiana ganha cada vez mais espaço internacional e está genuinamente presente no cenário contemporâneo português, sobretudo em Lisboa, e, ainda assim, continua a ser lida como periférica no centro da própria indústria que a acolhe.


Há uma segunda fronteira que o grupo atravessa todos os dias, esta desenhada pelo mercado e não pela raça: a da música que não canta. "A música instrumental não tem um lugar significativo na rádio e nas plataformas de streaming", diz Edvânia, e é por isso que tantas bandas se sentem pressionadas a introduzir voz na formação só para ganharem alcance. Edvânio reconhece a mesma pressão em cima do palco: os instrumentistas recebem menos reconhecimento do que os cantores porque a atenção do público tende a concentrar-se em quem canta, um desequilíbrio que o mercado ainda não resolveu e que Djeek, banda sem vocalista fixo, sente na pele todas as vezes que sobe a um palco.


O que sustenta o grupo, apesar destas fronteiras, é uma ideia de memória que funciona mais como arquitetura do que como saudade. Edvânia liga-a à busca pelo que ficou dos músicos que o grupo cresceu a ouvir e continua a respeitar, com o sonho de um dia partilhar palco com alguns deles enquanto ainda for possível. Edvânio dá a essa memória três pilares - ritmo, harmonia, melodia - que sustentam a herança musical do grupo e permitem à cultura africana e às influências espirituais comunicarem-se através do som, geração atrás de geração.


Sobre o discurso institucional de Lisboa como cidade multicultural, Edvânia não desenvolve, e a economia da resposta já diz o essencial: "Ainda há um longo caminho a percorrer." Edvânio completa a ideia ao lembrar que a música nunca esteve separada da cultura e da influência de outros países, com a música angolana e brasileira já integradas na cultura portuguesa, mesmo quando essa origem se esquece pelo caminho. Kristoffer chega ao mesmo ponto por outra via, a de uma música "sem cor", palpável, que qualquer pessoa pode sentir independentemente da origem de quem a ouve.


Dentro do coletivo, a convivência de referências, linguagens e visões artísticas diferentes ganha uma imagem que o próprio grupo usa para se descrever: a de uma sanduíche, onde cada ingrediente mantém a sua identidade enquanto contribui para um todo harmonioso - violino, teclado, baixo, guitarra e bateria a encontrarem-se sem se dissolverem uns nos outros. É essa lógica que o Djeek quer levar para depois do Fora do Centro. As questões políticas são inevitáveis dada a existência do próprio grupo, mas o centro do projeto continua a ser a cultura e o bolingo, o cuidado, o afeto, sem papel político pré-concebido, porque a música, para eles, já nasceu antes de qualquer discurso sobre ela, e é isso que continuam a fazer: juntar-se para tocar.

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