Djô da Silva lançou Cesária ao mundo, criou o AME e o KJF e agora avisa: a cultura cabo-verdiana está em risco

16 de Abril de 2026

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Djô da Silva escolhe as palavras com a precisão de quem passou décadas a negociar contratos e conhece por dentro os meandros da produção cultural. "Todos os políticos de Cabo Verde já entenderam a importância da cultura. Isso já conseguimos", diz, em conversa com a BANTUMEN horas antes do arranque do segundo dia da 15.ª edição do Kriol Jazz Festival. "O discurso e a ação é que ainda não estão a bater”, acrescenta a propósito da sala de espectáculos que não existe, do estúdio internacional que ninguém construiu, dos orçamentos que diz não acompanharem os discursos e de tudo o que existe em Cabo Verde como promessa, mas não como realidade. Djo sabe-o melhor do que ninguém, porque passou trinta anos a suprir, por conta própria, todas as falhas que hoje aponta ao setor cultural.


José da Silva nasceu na Praia em 1959, cresceu em Dakar, emigrou para Paris. Durante onze anos foi controlador na SNCF, a rede ferroviária francesa, e foi a flexibilidade do trabalho por turnos que lhe permitiu, nos tempos livres, começar a gerir uma banda de cabo-verdianos que tocava nas festas da diáspora parisiense. O Sound of Cape gravou três discos entre 1983 e 1985. Na altura, o produtor e empresário tratava de tudo: contratos, produção, distribuição e foi nesse processo que percebeu que talvez o seu percurso passasse muito mais pelos bastidores do que propriamente pelo palco. Quando a banda se desfez, por pressão dos compromissos familiares dos outros membros, seguiu-se a gestão do Cabo Verde Show, outra referência da diáspora, formada em Dakar, e foi com eles que fez a sua primeira digressão a Cabo Verde, em 1986.


Mas para compreender o que Djô é hoje e o que fez dele uma das 100 Personalidades Mais Influentes da Lusofonia, é necessário recuar ao restaurante Monte Cara nos finais da década de 80.

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Universal / Carlão
djo da silva entrevista

DR

Um ano depois da primeira digressão, em 1987, entrou num bar, ouviu uma voz e ficou. Movido pela curiosidade, tentou perceber de quem se tratava. Era Cesária Évora e começava aí uma colaboração de anos, que cunhou a artista como a eterna “Diva dos Pés Descalços” e ajudou a levar a música de Cabo Verde ao mundo. À data, Cesária não tinha contrato nem perspetivas, estava a um dia de regressar a casa, desanimada depois de Portugal não ter correspondido às esperanças. Djô decidiu levá-la para Paris. Sem dinheiro para hotéis, acomodou Cesária e Luís Morais em sua casa. Fizeram festas pela França, viajaram à Holanda, e em todo o lado a lotação esgotava. "Estava na condição de ajudar uma pessoa não muito conhecida, mas quando fizemos a primeira festa apareceram imensos cabo-verdianos que já conheciam bem a Cesária e a adoravam." A descoberta foi o inverso do que esperava: não ia apresentar uma desconhecida, ia (apenas) dar visibilidade a alguém que a diáspora já conhecia e apreciava.


Em 1988 fundou a Lusáfrica. O nome nasceu de um erro tipográfico - queria dizer "Luso-África", o compositor do logo percebeu outra coisa e ficou assim.  A editora registou o primeiro álbum de Cesária, La Diva aux pieds nus, com sucesso imediato na diáspora. O salto decisivo viria, contudo, em 1991, quando a cantora atuou pela primeira vez para um público essencialmente francês no festival Musiques Métisses, em Angoulême. No ano seguinte, Miss Perfumado vendeu meio milhão de cópias; "Sodade" entrou para a história da world music; e em 2004 o Grammy de Melhor Álbum de World Music Contemporânea coroou o que o mercado já tinha confirmado. Sediada em Paris, a Lusáfrica produziu ao longo de décadas mais de três mil títulos, fruto do trabalho com artistas como Bau, Tito Paris, Ildo Lobo, Lura, Tcheka, Nancy Vieira, Teófilo Chantre, Mário Lúcio, Bonga, a Orquestra Aragón de Cuba, entre outros. Era a principal plataforma de projeção internacional da música lusófona e africana em França e tinha sido construída por um homem sozinho, à sua custa, a partir da diáspora.


Quando Cesária morreu, em dezembro de 2011, a Lusáfrica perdeu o seu rosto mais visível no circuito global. Djô percebeu que o modelo tinha de mudar e que ele próprio tinha de mudar de sítio. O regresso a Cabo Verde foi, nesse sentido, uma inversão calculada. Se durante décadas o trabalho tinha sido levar a música cabo-verdiana ao mundo a partir de Paris, a questão era agora como continuar presente nesse circuito sem depender de uma figura insubstituível. "Perdemos a Cesária, então perdemos visibilidade no showbusiness mundial. Como é que conseguimos continuar a estar presentes? Então decidimos: vamos trazer essa gente até nós."


Assim nasceu o Atlantic Music Expo, um mercado de música transatlântico na Cidade da Praia que junta anualmente profissionais de África, das Américas e da Europa em torno de conferências, showcases, workshops e encontros individuais. O financiamento inicial veio de um acaso: uma conversa num bar com o responsável da cooperação luxemburguesa, um copo partilhado, uma conversa sobre cultura e sobre a falta de dinheiro. "Um mês depois tínhamos um milhão de euros para financiar quatro anos do AME." Depois de quatro anos, o governo cabo-verdiano entrou como cofinanciador. Ao longo de 12 edições, o AME tornou-se numa referência transatlântica, reunindo mais de 500 delegados de 25 países, o único mercado de música com esta escala e esta consistência em toda a costa africana, à excepção de Marrocos e da África do Sul.


O Kriol Jazz Fest, que acontece todos os anos imediatamente a seguir ao AME, antecede-o também na história: foi criado em 2010, antes do mercado, e partilha o mesmo princípio fundador. Não é um festival de jazz no sentido restrito do termo, é uma festa da crioulidade, como Djô define sem hesitar. "Sempre tentámos ter artistas que representam justamente essa crioulidade: artistas que vêm da América Latina, da América do Norte, da Europa, da costa de África e tentar fazer essa fusão de música." Quinze anos depois, o festival tem um público fiel que vem dos Açores, de Portugal, de vários pontos de África, que reserva bilhetes com meses de antecedência. O evento, que no início obrigava a explicar onde ficava Cabo Verde num mapa, tornou-se um destino. E é essa sequência - mercado profissional seguido de festival para o público - que melhor ilustra a visão de Djô enquanto fundador do festival: cultura e indústria não são mundos separados, e a projeção de Cabo Verde depende de trabalhá-los em simultâneo.

“Dependemos de quem manda. E com as eleições, nunca se sabe se quem ganha está interessado em continuar a financiar ou não”

Djô Da Silva

É sobretudo no terreno da política cultural que o discurso se torna mais direto e, por consequência, mais analítico. Embora reconheça os esforços feitos nos últimos anos, Djô não deixa de pontuar a tensão entre o que se diz e o que se faz, algo que para o empresário se manifesta de  formas muito concretas. O Estatuto do Artista, aprovado recentemente, é um exemplo prático dessa tensão: Djô apoia-o como ato de reconhecimento simbólico, mas alerta para os riscos de ir longe demais. Conhece o modelo francês por dentro, e o que viu não o convenceu. "O músico francês custa o dobro de qualquer músico da Europa. Então os franceses, o que fazem? Correm a gravar em Londres, em Portugal, em outros lugares, mas não em França", afirma ao advertir que, nesse mercado em particular, o sistema de proteção especial tornou-se num obstáculo à atividade que devia proteger. O conselho que dá em Cabo Verde é quase o oposto: que o artista seja tratado como qualquer outro trabalhador, com contrato e contribuições sociais, sem um regime paralelo que encareça e afugente quem devia beneficiar.


O financiamento dos festivais expõe outra camada da mesma fragilidade. "É um festival que sempre vive em risco", confessa, chegando a admitir que houve um ano em que o evento foi cancelado um mês antes da data, quando a Câmara Municipal da Praia decidiu não financiar e a organização viu o orçamento reduzido em cerca de 50% - um corte de 100 mil euros  de um total de 250. O público cabo-verdiano - a quem são cobrados 2500 CVE por dia, o equivalente a cerca de 25 euros,  por quatro artistas - não consegue suportar sozinho um evento desta dimensão e, para a organização, subir os preços é inviável.


O resultado é uma dependência estrutural de contratos que têm de ser renegociados todos os anos, de eleições que mudam prioridades, de vontades que podem mudar de um mês para o outro. "Dependemos de quem manda. E com as eleições, nunca se sabe se quem ganha está interessado em continuar a financiar ou não." Só recentemente conseguiu um contrato de cinco anos com o governo, mas apenas com o governo, e, ainda assim, insuficiente para garantir estabilidade plena.


A formação é, para o produtor, a questão que atravessa tudo e a mais difícil de resolver, sobretudo quando se verifica a ausência de um mercado de trabalho estruturado, sem referências próximas. Não há em Cabo Verde nenhum sítio que ensine a gerir vistos de artistas internacionais, a negociar com um promotor americano, a apresentar um projeto musical a um programador europeu. "80% do trabalho é internacional. Eles têm que saber falar com um produtor americano, um produtor inglês, gerir vistos de viagem. Isso não se aprende aqui em Cabo Verde. Não há escola para isso." Djô passou três anos a formar a sua própria equipa e continua. O que procura - e ainda não encontrou - é alguém dentro da estrutura com força suficiente para assumir a linha da frente e deixá-lo recuar para os bastidores. "É preciso uma pessoa que vai liderar a equipa, e eu não senti que alguém tem essa força", admite. Enquanto essa pessoa não aparecer, continua na frente.


Na diáspora, vê sinais de mudança e reconhece o esforço dos jovens cabo-verdianos residentes na Holanda, em Portugal, nos Estados Unidos que estão a tentar profissionalizar-se na música. O problema, diz, está muito mais relacionado com as “movimentações” do que com a vontade. "Não consegues ter um caderno de contactos sem te moveres. Hoje em dia há mercados. Vais a um mercado, ganhas experiência." Há mercados internacionais exatamente para isso, e a ferramenta existe, mas falta quem a use com consistência, quem apareça onde as decisões são tomadas, ano após ano, até os contactos se tornarem relações e as relações se tornarem oportunidades.


Sobre o que Cabo Verde é hoje musicalmente - e sobre o legado e as inúmeras tentativas de criar uma nova Cesária - Djô fala com a convicção de quem não tem interesse em alimentar mitos. Não virá outra: não por falta de talento, mas porque Cesária foi uma exceção que chegou num momento em que havia um espaço específico disponível no mercado global, e ela soube ocupá-lo. Esse espaço, atualmente, já não existe da mesma forma. "Cada artista da nova geração vai buscar o seu espaço."


Não havendo uma “herdeira”, o produtor aponta um conjunto de artistas que, juntas, chegam a uma presença internacional comparável: Mayra Andrade, Lura, Elida Almeida, entre outras. "Quando pomos tudo isso junto, chegámos quase ao que Cesária conseguiu. Não temos uma artista, mas temos que entender também que um fenómeno como a Cesária não aparece assim facilmente."


E há, nas ilhas, uma vitalidade que o anima. Em todas as ilhas onde viaja regularmente - Santo Antão, Fogo, Brava, São Vicente - encontra jovens a fazer música tradicional sem que isso seja recuo ou nostalgia. Morna, funaná, batuque, tratados com seriedade e com qualidade. "Vejo nesses jovens interesse também na tradição. Não é aquilo que muita gente pensa, que todo jovem quer fazer kizomba. Há muitos também que estão na música tradicional e vê-se que têm qualidade." É este ponto que resume a sua leitura do presente: o problema de Cabo Verde não é artístico, pelo contrário. "Não estou preocupado musicalmente. Estamos mais preocupados com o financiamento da cultura."


A matéria-prima existe. O que falta é uma máquina estrutural capaz de transformá-la em algo palpável e para Djô, isso não é dissociável do investimento  numa sala de espectáculos permanente, na criação de estúdio com condições internacionais, na criação de uma escola de música estruturada e, acima de tudo, num orçamento que corresponda ao discurso.


O que Do da Silva representa para a cultura cabo-verdiana não cabe numa só frase, e ele próprio desconfia das sínteses fáceis. Recusa apresentar-se como o homem que salvou a música do arquipélago, sabe que o talento existia antes dele e existirá depois. O que fez foi criar, repetidamente e com recursos próprios, aquilo que considera ser a base: uma editora internacional, um mercado profissional, um festival com identidade própria, uma rede de contactos construída ao longo de décadas em festivais e mercados em todo o mundo. 


E ao mesmo tempo foi descobrindo e formando artistas, de Cesária a Elida Almeida, de Bau a Lura, com a paciência e a curiosidade de quem sabe que o resultado não chega no dia seguinte. "Sou super curioso. Às vezes uma palavra de uma pessoa leva-me a correr 100, 200 kms para ir ouvir um artista. Tem que haver esse interesse, essa curiosidade. Foi a curiosidade que fez com que eu criasse isto tudo."

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