No Doclisboa deste ano há Amílcar Cabral, batuku e Harlem. 7 filmes a não perder

29 de Setembro de 2026
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Amílcar Cabral | DR

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Com 198 filmes de 51 países, onze dias e cinco salas, o Doclisboa é o tipo de festival em que o mais difícil é escolher. Entre 15 e 25 de outubro, o festival ocupa a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa, o Cinema Ideal e o Centro de Arte Moderna Gulbenkian, e no meio de uma programação tão larga há um fio que atravessa vários títulos. São histórias de África e das suas diásporas, contadas muitas vezes a partir de arquivos que ficaram décadas por mostrar e de vozes que resistiram ao tempo, da luta anticolonial na Guiné-Bissau ao Harlem nova-iorquino de 1972.


A 24.ª edição chega pouco depois de Cabo Verde e Moçambique terem assinalado cinquenta anos de independência. A BANTUMEN fez o trabalho de casa e escolheu sete filmes ligados pela mesma linha: a memória do mundo lusófono africano e da sua diáspora, quase sempre com a música por perto. Há um filme sobre Amílcar Cabral, o líder que não chegou a ver a independência pela qual lutou, e outro sobre as eleições que abalaram Moçambique em 2024. Do outro lado do Atlântico, a seleção inclui o retrato de Elza Soares e os dois filmes de William Greaves, que regressa ao festival depois da retrospetiva que lhe foi dedicada no ano passado.


1. Amílcar (2025), de Miguel Eek


O ponto de partida é uma das figuras centrais da história africana do século XX. O filme de Miguel Eek não é uma biografia clássica. É um ensaio poético sobre Amílcar Cabral, o agrónomo, poeta e revolucionário que liderou a luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. A partir dos seus escritos políticos, poemas e cartas privadas, o realizador imagina a voz interior de Cabral e junta arquivos inéditos, filmes coloniais portugueses, imagens revolucionárias da Guiné e novas filmagens em 16mm. O resultado funciona como um diário visual onde a figura pública e o homem privado se cruzam. O filme estreou em 2025 no IDFA, em Amesterdão, um dos maiores festivais de documentário do mundo.


Sessões: 17 de outubro, às 21h00, na Culturgest, e 18 de outubro, às 21h45, no Cinema Ideal.


2. Nha Balila, Dentu d'Algem (2026), de Inês T. Alves e André Xina


Da Guiné-Bissau segue-se para Cabo Verde, a outra metade da luta de Cabral, mas agora pela música. O batuku é um dos géneros tradicionais cabo-verdianos, historicamente cantado e tocado por mulheres, sobretudo na ilha de Santiago. Nha Balila é uma das suas lendas vivas, e o filme de Inês T. Alves e André Xina acompanha-a quando é convidada a vir a Portugal para celebrar o Dia Internacional da Mulher. Aos 92 anos, a cantora mostra uma energia que ultrapassa fronteiras e idades, e a câmara segue o impacto da sua presença junto da diáspora cabo-verdiana. O filme teve antestreia em maio, na Praia.


Sessões: 18 de outubro, às 18h30, na Culturgest, e 23 de outubro, às 19h30, no Cinema Ideal.


3. Povo e Poder (2026), de Ico Costa


Do Atlântico passa-se para o Índico, onde a história da independência se cruza com o presente. Ico Costa filmou as eleições presidenciais de 2024 num país que celebrou há pouco cinco décadas de independência. Em estilo de cinema direto, sem narração a explicar o que se vê, o filme mostra uma crise política em que a FRELIMO, no poder desde 1975, perde a confiança de uma população desiludida com a desigualdade e a corrupção, num contexto de cada vez mais restrições à liberdade de expressão. Está na Competição Portuguesa e tem estreia mundial no festival.


Sessões: 17 de outubro, às 15h00, e 19 de outubro, às 10h00, ambas no Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira.


4. Elza (2026), de Eryk Rocha


Atravessando de novo o oceano, a viagem chega ao Brasil e a uma das maiores vozes da música negra brasileira. Elza Soares, que morreu em 2022, é a narradora da sua própria vida neste filme de Eryk Rocha. Através da música, a cantora constrói um diário de memórias e desejos que dialoga com obras históricas do cinema brasileiro. É um retrato de quase um século de vida e de um Brasil em constante agitação, feito a partir de uma voz que, nas palavras do programa do festival, cantou até ao fim.


Sessões: 21 de outubro, às 21h45, e 25 de outubro, às 16h30, ambas no Cinema São Jorge.


5. Nosso Segredo (2026), de Grace Passô


Ainda no Brasil, mas com coprodução portuguesa, o registo muda da memória coletiva para a intimidade de uma casa. Grace Passô é uma das figuras de destaque do teatro e do cinema brasileiros contemporâneos e já trabalhou com Ruy Guerra e André Novais Oliveira. Na sua primeira longa-metragem, segue uma família negra de Belo Horizonte que tenta reconstruir a rotina depois de uma perda recente. Pelo meio, o filho mais novo guarda um segredo que pode obrigar todos a encarar a origem das suas dores. O filme chegou este ano às salas brasileiras.


Sessão: 24 de outubro, às 15h00, no Cinema São Jorge.


6. Once Upon a Time in Harlem (2026), de William Greaves e David Greaves


A última paragem é Nova Iorque, com dois filmes do mesmo realizador. O Harlem, bairro da cidade, deu nome ao Renascimento do Harlem, o movimento artístico e intelectual negro dos anos 1920 e 1930. Em 1972, William Greaves, um dos pioneiros afro-americanos do documentário, filmou em 16mm uma festa organizada para figuras marcantes desse movimento. As imagens ficaram por mostrar durante décadas, até o filho, David Greaves, terminar o filme a partir da ideia do pai. Recentemente restaurado, é ao mesmo tempo uma cápsula do tempo e uma reflexão sobre o papel do artista e a força criativa por trás de um dos movimentos culturais mais importantes do século XX.


Sessões: 16 de outubro, às 11h00, e 20 de outubro, às 18h30, ambas na Culturgest.


7. The Fight [The William Greaves Director's Cut] (1974), de William Greaves


Um ano antes daquela festa, Greaves estava noutro palco da história afro-americana. Em 1971, no Madison Square Garden, Muhammad Ali voltou ao ringue depois de ter perdido o título por se recusar a cumprir o serviço militar e defrontou Joe Frazier, campeão invicto. Os Estados Unidos estavam divididos pela guerra e pela questão racial, e o realizador e a sua equipa registaram o frenesim mediático e a divisão da opinião pública em torno do combate. Esta é a montagem que o próprio Greaves preferia, agora restaurada em 4K.


Sessões: 17 de outubro, às 15h00, na Culturgest, e 20 de outubro, às 21h45, no Cinema São Jorge.


Para lá destes sete


A edição abre com Guerrilha no Asfalto, de Edgar Pêra, e fecha com Thanks for Coming, do francês Alain Cavalier. A Grécia é o país convidado, com apoio do centro grego de cinema e audiovisual Ekkomea, e o programa inclui uma retrospetiva dedicada ao filipino Lino Brocka, um foco no cinema experimental do finlandês Pasi "Sleeping" Myllymäki e uma mostra sobre o espanhol Jonás Trueba. O realizador vem acompanhado do pai, o também cineasta Fernando Trueba, para uma conversa pública sobre os segundos filmes de cada um. Há ainda uma sessão dedicada ao trabalho recente de Paula Gaitán sobre o universo sonoro do cinema.


Fora das salas, o programa Nebulae, dedicado à indústria, organiza mesas redondas sobre o legado de Lino Brocka, o acesso aos arquivos cinematográficos palestinianos, a coprodução entre a Grécia, Portugal e o Mediterrâneo e a sustentabilidade na produção audiovisual. Para os mais novos e para as famílias, o programa abcDoc tem sessões para escolas, oficinas Docs 4 Kids para crianças dos 6 aos 15 anos e uma Sessão para Seniores, pensada para a partilha de memórias a partir de um filme da programação.


O programa completo, com sinopses e horários, está disponível no site oficicial. A venda presencial de bilhetes começa a 29 de setembro na Culturgest e chega às restantes salas no dia seguinte, 30 de setembro.

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