Elza Soares e o legado de William Greaves lideram os destaques do Doclisboa 2026

7 de Setembro de 2026
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Elza Soares | DR

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O Doclisboa regressa de 15 a 25 de outubro para a sua 24ª edição, e a BANTUMEN é parceira do festival há três anos na divulgação do cartaz. Entre os primeiros títulos anunciados há dois destaques que atravessam diretamente histórias e vozes afrodescendentes, um retrato de uma das maiores cantoras brasileiras de sempre e um duplo tributo a um dos pioneiros afro-americanos do documentário.


Na secção Heart Beat, espaço dedicado ao cruzamento entre o cinema e outras formas de arte, estreia Elza, de Eryk Rocha, um retrato de Elza Soares. A cantora, cuja voz e incessante capacidade de reinvenção atravessaram gerações, carregou consigo uma força vital que recusou deixar-se condenar por um país profundamente desigual. O filme junta-se a uma tradição de documentários musicais na programação deste ano, mas destaca-se por trazer ao ecrã uma das figuras mais marcantes da música negra brasileira, cuja história pessoal está indissociável da luta contra o racismo e a violência de género no Brasil.


O segundo destaque pertence a William Greaves, realizador afro-americano cujo trabalho regressa ao Doclisboa depois da retrospetiva apresentada no ano passado em conjunto com a Cinemateca Portuguesa. São apresentados dois filmes seus, só agora disponíveis. The Fight [The William Greaves Directors Cut] revisita o histórico combate de 1971 entre Muhammad Ali e Joe Frazier, captando um confronto que expôs as profundas divisões políticas e raciais dos Estados Unidos da América. Já Once Upon a Time in Harlem, terminado postumamente em 2026 pelo filho do cineasta, David Greaves, é uma cápsula temporal que nos leva a uma soirée em casa de Duke Ellington em 1972, reunindo algumas das grandes figuras da arte e da cultura que construíram a chamada Harlem Renaissance. A dupla apresentação junta assim, no mesmo festival, o registo de um momento histórico da luta racial norte-americana e uma celebração da genealogia artística negra, com um filho a terminar a obra do pai.


A par destes dois núcleos, a programação da secção Heart Beat inclui ainda outros nomes incontornáveis do cinema e das outras artes. Juliette Binoche estreia-se atrás da câmara com In Motion, filme em que revisita a sua intensa colaboração com o bailarino e coreógrafo Akram Khan, numa reflexão sobre a criação artística, o risco e a transformação pessoal. A história do cinema está também presente em Vittorio De Sica – Staging Life, de Francesco Zippel, retrato íntimo do eterno realizador e ator italiano, e em Orson Welles: The One-Man Band, de Oja Kodar e Vassili Silovic, que reúne imagens raras de projetos inacabados de Orson Welles.


O escocês Douglas Gordon, vencedor do Turner Prize, é o centro de Douglas Gordon by Douglas Gordon, de Finlay Pretsell, enquanto o universo musical é revisitado em Nino – A Film About Nino Rota, de Walter Fasano, mais conhecido pelo seu trabalho como montador em filmes como Call Me by Your Name (2017). O filme, narrado pelo músico britânico Sting, revisita a vida e obra de Nino Rota, compositor italiano que elevou os universos cinematográficos de autores como Fellini e Coppola. Chega ainda Kate Bush – The Timeless Genius, de Sonia Gonzalez, sobre os primeiros anos e a carreira da artista britânica.


Do desporto, chega Cantona, de David Tryhorn e Ben Nicholas, sobre o antigo futebolista francês Éric Cantona e a sua transformação de jogador considerado indomável em ícone do Manchester United. Já The Pervert's Guide to Utopias, de Sophie Fiennes, junta de novo a realizadora ao filósofo Slavoj Žižek para interrogar as utopias que moldam a nossa ideia de sociedade e de futuro. "O nosso dever é ver as coisas como elas são e, para isso, precisamos do cinema", diz Žižek no filme.


Na secção Da Terra à Lua, dedicada a histórias de diferentes lugares e tempos, destaca-se Siri Hustvedt – Dance Around the Self, de Sabine Lidl, sobre a vida e o percurso literário da escritora, que foi companheira de Paul Auster, também presente no filme. Chega ainda Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie, de Alex Gibney, sobre o atentado com arma branca sofrido pelo autor de Os Versículos Satânicos, inspirado nas memórias autobiográficas de Salman Rushdie e focado no processo de reconstrução do seu espírito depois do ataque. Fecha esta primeira leva de destaques Thanks for Coming, de Alain Cavalier, despedida do realizador francês que aos 94 anos acompanha, num filme-diário, o seu próprio quotidiano, gestos e reflexões.


Com esta primeira seleção de títulos, o Doclisboa 2026 confirma a amplitude que já é habitual no festival, cruzando cinema, música, literatura, artes visuais e desporto. A programação completa, incluindo as restantes secções, será divulgada nas próximas semanas.

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