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Cresceu em Angola a desenhar com fones nos ouvidos e a misturar músicas num programa que mal conhecia. Veio para Lisboa aos dezassete anos, fez dois anos de arquitetura, abandonou-a à conta da geometria descritiva, passou pela culinária, chegou ao design gráfico no IADE e a música foi ficando, primeiro como refúgio, depois como profissão. Ellis Ferrére é DJ há dois anos. No currículo já conta passagens por Paris, Barcelona, Madrid, Genebra, Berlim e pelo festival Koala. A 10 de julho, prepara-se para subir ao Palco Coreto do NOS Alive. De lá, segue para Paris. Diz que quer ser a melhor do mundo e não encontra razão para pensar de outra forma.
O ponto de partida é a infância em Luanda. Filha única, mãe protetora, pouco tempo na rua. "O meu tempo em casa era ouvir música e desenhar", recorda. As notas mais altas na escola eram sempre nas disciplinas ligadas à arte, o que não compensava um défice de atenção que a fazia perder o fio às restantes. Quando a mãe foi chamada à escola pela primeira vez, Ellis tinha nove anos. O caminho que se seguiu foi o das explicações e, em casa, mais desenho.
A música entrou pela mesma porta da solidão produtiva. Num computador, sozinha, Ellis descobriu um programa rudimentar que permitia sobrepor faixas. "Passei a apresentar e a fazer muitas playlists", diz, e foi aí que percebeu que queria partilhá-las com outras pessoas além da família. A DJ surgiu antes de qualquer palco, antes sequer de o nome existir.

©BANTUMEN/Nuno Silva
O nome veio do pai. Ferreira, que assinava sempre Ferrer. Ellis viu uma vez a assinatura - "Leonardo Ferrer" - e ficou com ela. Quando chegou ao design, era o Ferrére Studios; quando entrou para os decks, era já Ellis Ferrére. Chegou a ponderar trocá-lo - as pessoas escrevem-no mal, acentuam-no onde não devem, associam-no ao chocolate -, mas não cedeu. "É um nome que sempre esteve aqui, sempre surgiu, sempre existiu", diz, e pretende que dure: "Daqui a uns anos, o Ellis Studios ou o Ferrére Studios para outras coisas que eu pretendo fazer."
A carreira de DJ, com dois anos de existência, foi construída com uma metodologia que ela descreve sem eufemismos: "Nos primeiros meses, fiz uma lista de mil sítios onde eu queria tocar e comecei logo a mandar emails, mesmo sem ninguém responder." Quando respondiam a dizer que não era possível, voltava a escrever no mês seguinte. É esta persistência que define o arco da sua trajetória, uma acumulação deliberada de tentativas.
O Coala Festival, em 2025, foi um desses resultados que demoram o tempo que demoram. Ellis tinha estado na primeira edição como espectadora, em 2024, e saiu de lá com uma certeza. "Eu disse: vou tocar aqui no próximo ano." No ano seguinte, recebeu o email com a proposta num dia em que as coisas corriam mal. Estava a caminho de casa da mãe quando a notificação chegou. "Chorei tanto nesse dia." O set começou com dez pessoas à frente. No meio da atuação, o espaço estava lotado. Pela primeira vez, havia desconhecidos a pedir-lhe uma fotografia.
Mas o momento que Ellis cita quando fala do que a prende à música não foi em nenhum festival. Foi numa noite no Musicbox, durante uma festa em curadoria da BANTUMEN, quando um rapaz a abordou depois de tocar e lhe disse que naquela noite tinha pensado em tirar a própria vida e não o fez porque sabia que ela ia tocar. "Eu pedi-lhe para repetir e gravei", conta. "Desde então, sinto que é isso que eu tenho que fazer."
Ser artista independente, diz sem hesitar, "é terrível". Mas a alternativa - depender de uma validação externa para avançar - nunca pareceu viável. O julgamento da família quando anunciou que queria ser designer gráfica foi o primeiro teste. A mãe só mudou de posição depois de um amigo lhe explicar que a profissão existia e dava dinheiro. "As pessoas só dão valor a partir do momento em que tens sucesso, em que já te conhecem na rua ou alguém de fora", diz, sem rancor aparente. "Não julgo."
No universo da música, os obstáculos tomaram outras formas. Houve uma noite em que um homem ligado ao espaço, não à festa, se aproximou dos decks e lhe disse para não tocar aquele tipo de música. "Ele foi muito bruto. Naquele dia senti-me muito mal, chorei imenso." Mas Ellis tirou daí uma decisão: "Nunca mais vou receber nenhuma crítica de um homem que vem desestabilizar o meu ser." Noutras ocasiões, foi chamada a preencher cartazes onde faltava uma mulher, não pelo repertório, mas pela lacuna. A leitura é dupla: "É mau num lado, mas do outro quero mostrar aquilo que valho.” A questão da solidariedade entre mulheres no meio é colocada com franqueza. Quando começou a produzir música e procurou colaboradoras, as respostas vieram maioritariamente de homens. "Podia haver muito mais troca? Sim. Como mulheres, poderíamos ser muito mais unidas."
A produção é um capítulo recente mas central. Ellis começou a perceber que os remixes das músicas que tocava não soavam como ela queria que soassem e a lógica que se seguiu foi: "Se fosse eu a fazer, fazia de outra maneira." Tem já uma faixa de drum 'n' bass feita em colaboração com Helvio Fox. Cita Fred Again como a inspiração que lhe despertou a vontade de produzir. O objetivo não é abandonar os decks, mas alargar o que leva para eles: "Não quero passar a vida a tocar a música de outras pessoas. Quero que as pessoas sintam o que eu senti enquanto fazia aquela track."
Quanto a saber para onde quer ir a pergunta foi-lhe feita de várias formas ao longo da conversa. Começou por dizer que queria ser a próxima Fischer de Angola. Foi interrompida: porque não a melhor DJ do mundo? Pensou. "Por que não? É possível." E depois, mais direto: "Eu quero ser melhor. Ponto."
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