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Natural de Povoação, na Ribeira Grande, em Santo Antão, Elzo Rodrigues vive em São Vicente há cerca de 12 anos. Foi para Mindelo para estudar Gestão Empresarial e Organizacional na Universidade de Cabo Verde e acabou por ficar para trabalhar. Durante algum tempo, teve uma vida profissional mais estável, ligada ao escritório, mas sentia que lhe faltava qualquer coisa. Hoje, é precisamente nessa ausência antiga que encontra uma forma de explicar o caminho que o trouxe até aqui.
A ligação à natureza começou cedo, alimentada pelos pais e pela relação quotidiana com a paisagem de Santo Antão. Mais à frente, por volta de 2016, ganhou outra dimensão, quando começou a fazer caminhadas com regularidade. O que era uma prática ocasional passou a ocupar os fins de semana e, aos poucos, tornou-se parte central da sua rotina. “Quando dei por mim, já estava no meio”, resume, ao lembrar o início de um percurso que nunca foi desenhado como plano de carreira, mas que acabou por ganhar forma própria.
A primeira montra foi o Instagram. Elzo começou a publicar, por gosto, imagens de lugares que conhecia ou ia descobrindo. A receção começou a chegar de forma espontânea. Primeiro em comentários, depois em mensagens, mais tarde nas ruas. Pessoas dentro e fora de Cabo Verde começaram a dizer-lhe que se reviam naquelas paisagens, que tinham descoberto sítios onde nunca tinham estado ou que, através daquele conteúdo, voltavam a sentir proximidade com o país. “Não tinha noção de que as pessoas fora de Cabo Verde sentiam tanta falta de algo que as aproximasse”, diz.

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O reconhecimento ajudou a consolidar a ideia de que o seu trabalho não servia apenas para mostrar lugares bonitos, como também para criar uma ponte entre cabo-verdianos e o território, entre quem vive nas ilhas e quem está fora, entre o turismo pensado para estrangeiros e a urgência de os próprios cabo-verdianos voltarem a olhar para o país com curiosidade. “O meu pensamento foi sempre conectar os cabo-verdianos com Cabo Verde, tanto os que vivem aqui como os que vivem fora.”
Foi dessa vontade que nasceu o Dam Mon, expressão em crioulo que significa “dá-me a mão”. Criado durante a pandemia e assumido de forma mais estruturada a partir de junho de 2022, o projeto surgiu com o objetivo de levar as pessoas a sair de casa, caminhar e reencontrar-se com a natureza, mas também com outras pessoas. As experiências incluíam momentos de café e conversa, em que se falava de temas como história, saúde mental, educação financeira e vivências do dia a dia. Na sua fase inicial, inclusive, havia até uma regra pouco habitual: os participantes não podiam inscrever-se com familiares, parceiros ou amigos próximos, pois a intenção era tirar as pessoas da zona de conforto e abrir espaço a novas ligações, amizades e contactos.
Ao longo do tempo, o Dam Mon foi-se cruzando com outras dimensões do trabalho de Elzo. Para além das experiências em Santo Antão e São Vicente, passou também a fazer consultoria para pessoas interessadas em viajar por Cabo Verde, ajustando percursos ao perfil de quem o procura. Não vende pacotes fechados para todas as ilhas, sobretudo por causa da instabilidade nas ligações entre elas. Prefere aconselhar com base na experiência, alertando sempre para os constrangimentos da mobilidade interna. “Podia fechar um pacote completo, mas não faço isso, precisamente para me salvaguardar também do risco de a pessoa ficar presa”, explica.
É uma prudência que revela bem o modo como vê o turismo, menos como produto fechado, mais como responsabilidade. Mesmo nas caminhadas e trilhas que organiza e explora com amigos, há uma atenção constante às condições físicas de quem participa, ao grau de dificuldade dos percursos e ao risco de transformar uma experiência positiva num episódio traumático. Todas as pessoas que seguem com ele estão asseguradas, mas nem sempre o seguro resolve aquilo que só o bom senso consegue evitar. “Quando não sabemos onde vamos, temos sempre esse pé atrás em levar qualquer pessoa connosco.”
Nas redes sociais, o percurso também tem sido feito por camadas. Elzo começou por partilhar fotografias, vídeo e texto. Com o tempo, sentiu necessidade de usar a voz, depois de aparecer em frente à câmara, num processo que descreve como “desbloqueio pessoal”. A partir daí, foi experimentando novos formatos, entre conteúdos mais trabalhados e outros mais imediatos. Um dos exemplos mais recentes são os vídeos em que parte, com amigos, para explorar zonas de Santo Antão que nem eles próprios conhecem bem. O resultado são percursos cheios de incerteza, desvios inesperados e momentos quase cómicos, justamente porque mostram pessoas da ilha a perderem-se dentro da própria ilha. “As pessoas estão a adorar acompanhar esse novo formato”, conta.

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Essa exposição tornou-o também, de certa forma, parte do próprio produto. Muitas das pessoas que o contactam não querem apenas fazer uma caminhada ou visitar um lugar. Querem saber se ele vai estar, se podem tomar um café com ele, conversar, partilhar aquele momento presencialmente. Elzo reconhece esse vínculo e não o recusa, pelo contrário, diz gostar desse contacto direto, talvez porque, apesar de trabalhar intensamente no digital, se considera alguém do encontro presencial. “Eu vivo dentro das redes sociais, mas sou do presencial.”
Mas se o lado humano e comunitário do projeto parece consolidado, o mesmo não se pode dizer da sustentabilidade económica. Ao longo da conversa com a BANTUMEN, realizada em Cabo Verde durante a cobertura do Atlantic Music Expo e do Kriol Jazz Festival, Elzo fala sem romantizar as dificuldades de viver do trabalho criativo no arquipélago. “A vontade de desistir é maior do que a vontade de continuar”, admite. Ainda assim, esse desgaste é frequentemente contrariado por sinais concretos de reconhecimento, há sempre alguém na rua, uma mensagem, um encontro, uma prova de que o trabalho está a chegar às pessoas e a produzir efeitos reais e é nesses momentos que percebe que o que faz não passa despercebido e tem impacto na vida de outras pessoas.
Um dos problemas, diz, está na forma como o digital continua a ser visto por muitas empresas cabo-verdianas. Para ele, falta perceber o valor estratégico do marketing, da criação de conteúdos e da visibilidade digital. “O marketing ainda é visto como um custo, não como um valor acrescentado”, afirma. Essa falta de abertura reflete-se, por exemplo, nas dificuldades que encontrou quando tentou promover pousadas locais em Santo Antão. Bateu a várias portas, algumas abriram-se, outras responderam-lhe que os seus espaços “não eram para cabo-verdianos”. A experiência acabou por expor não só limitações de infraestruturas e comunicação, como também uma mentalidade ainda fechada em relação ao potencial do turismo interno e da promoção feita por criadores locais.
Ainda assim, Elzo acredita que o cenário pode mudar, mesmo que talvez não seja a sua geração a colher os resultados mais visíveis. A seu ver, os próximos criadores de conteúdo poderão encontrar um mercado mais aberto, mais preparado para trabalhar com projetos digitais e mais atento ao valor da cultura visual e da experiência local. Até lá, continua a testar formatos, a ajustar percursos e a insistir na ideia simples de mostrar Cabo Verde para dentro e para fora, sem perder de vista as pessoas que o habitam.
No fim, quando tenta resumir o que faz, admite que há duas perguntas a que ainda não sabe responder bem: onde mora e o que faz exatamente. Talvez porque o seu trabalho se mova entre várias frentes, criador de conteúdos, consultor, anfitrião de experiências, promotor de território. Ou talvez porque, no fundo, a resposta esteja dispersa por todas essas dimensões ao mesmo tempo. O que parece mais certo é isto: se a pergunta for sobre turismo, natureza ou cultura em Cabo Verde, Elzo Rodrigues tem quase sempre um caminho para indicar.
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