Na Guiné-Bissau, empreender continua a ser um ato de resistência

1 de Junho de 2026
empreendedorismo guine bissau opiniao
DR

Partilhar

Para quem é jovem na Guiné-Bissau, a realidade desencoraja muito antes de qualquer tentativa, e desencoraja por razões muito concretas. O Estado falha sistematicamente em criar emprego e em garantir o acesso a crédito sem o qual nenhum jovem consegue erguer o seu próprio negócio, e dessa falha resulta uma economia que reduz o horizonte da maioria à mera subsistência.


Não admira, perante isto, que muitos jovens desistam antes mesmo de tentar, e que essa desistência se confunda, no quotidiano, com simples aceitação de uma realidade que não dá margem. Qualquer conversa séria sobre empreendedorismo jovem no país tem de começar por reconhecer este pano de fundo, sob pena de transformar histórias de teimosia individual em fábulas inspiradoras que acabam por dispensar o Estado das suas obrigações.


E, no entanto, há quem não desista - há quem, na ausência total do Estado e das oportunidades que ele devia criar, se ergua pelos seus próprios meios, com os recursos que tem à mão, ou então com o apoio das organizações que ocupam o espaço deixado vazio. São histórias que raramente saem do perímetro de Bissau, mesmo quando acontecem dentro da própria capital, e muito menos quando acontecem nas tabancas de Gabú ou nos bairros periféricos de Safim. São essas histórias que quero trazer aqui, não como casos isolados de mérito individual, mas como sintoma de uma resistência mais larga, construída do chão para cima.


Em Tompen, tabanca da região de Gabú, Ansu Buaró é responsável pela micro-empresa Wali Povo , «ajudar o povo», em fula. Ansu vive com uma deficiência motora e cresceu na própria aldeia onde hoje gere uma mercearia de produtos de primeira necessidade. Foi uma escolha deliberada, e o seu efeito é concreto: quem vive em Tompen deixou de percorrer quilómetros à procura de açúcar, pão ou sabão. É uma forma de empreender que é, antes de tudo, um gesto de responsabilidade comunitária.


Em Cuntum Madina, bairro periférico de Bissau, Fernanda Gomes Pereira beneficiou de uma bolsa do projeto «Djuntu para Construir o Nosso Futuro», implementado pela Mani Tese em parceria com a ENGIM e a AIFO. As formações em literacia digital permitiram-lhe consolidar competências que hoje, ela própria, ensina a outras meninas. Passou de formanda a formadora numa trajetória que vale por si, mas que vale ainda mais quando se lembra de quantas raparigas em Bissau não chegam sequer a tocar num computador.


Os dois exemplos seguintes ergueram-se sem qualquer apoio externo. Em Safim, na periferia da capital, Cadidjatu Bah usou o salário de enfermeira para abrir uma loja de tratamento de beleza dedicada ao cabelo natural, sem produtos químicos agressivos, aberta a clientes de qualquer idade e sem qualquer distinção. Na mesma zona, Mama Djue Djaló começou a lavar carros com baldes e esponjas e tem hoje uma equipa de cinco jovens, com equipamento próprio e mais sofisticado. Chamou ao negócio “Brilho Total - seu carro, nosso compromisso”. Não esperou pelo Estado, não esperou por crédito, não esperou por nenhum programa de apoio, fez acontecer com o que tinha à mão e com a determinação de quem decide não ficar à espera.


Estes quatro nomes, e tantos outros que ficam por contar, são exemplos das muitas valências e dos talentos escondidos no país, com enorme potencial de crescimento pela diversidade de ações e pelas temáticas que mobilizam, da responsabilidade comunitária à literacia digital, da autoestima ao acesso à higiene nos recursos de mobilidade. Não são exceções confortáveis que permitam ao Estado guineense ficar descansado, são, pelo contrário, a prova de que o talento e a vontade existem em abundância e de que o que falta são as condições para que se multipliquem.


É pela coragem de tornar prático tudo o que é idealizado que muitos jovens vincam as suas crenças num amanhã melhor, com práticas transformadoras a partir da realidade que confrontam hoje. Os sonhos não podem permanecer apenas no imaginário, merecem tornar-se algo prático e visível, seja com apoio de outros, seja por iniciativa própria, mas sempre vincados com determinação e com o entusiasmo de quem procura o melhor para o seu futuro.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile