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Antes de ser reconhecido como uma das vozes jovens que mais provocam conversas nas redes sociais angolanas, Erik Belo não queria aparecer. Gostava de comunicação, lia as revistas que o pai levava para casa, interessava-se por entrevistas, opiniões e histórias, mas expor-se nunca foi uma ideia confortável.
A entrada na criação de conteúdos aconteceu por estratégia, porque queria lançar um projeto de entrevistas e percebeu que, em Angola, um rosto conhecido ainda pesa muito na forma como o público decide parar, ver, acompanhar e partilhar. “Infelizmente, no nosso país, nós só consumimos coisas de pessoas que conhecemos”, afirma, ao recordar o momento em que percebeu que não bastava ter uma ideia ou vontade de fazer, era preciso criar antes alguma familiaridade com quem estava do outro lado do ecrã. “Só achamos relevante alguma coisa quando aquilo é divulgado ou feito por alguém que conhecemos. Quando é um rosto novo, as pessoas têm uma certa dificuldade em parar para assistir, acompanhar, partilhar.”
Foi assim que começou a fazer vídeos no TikTok, primeiro com comédia, não porque esse fosse o lugar onde se via para sempre, mas porque sabia que o humor circulava mais depressa, era mais fácil de consumir e tinha maior probabilidade de ser partilhado. O objetivo era tornar o rosto minimamente familiar. “Podiam não saber o meu nome, mas iam dizer: ‘Esse é aquele menino que fez aquele vídeo’”, recorda.
“As pessoas querem que tu sejas escravo da tua opinião, de alguma forma. E eu não sou, de forma nenhuma.”
Erik Belo

DR
Durante cerca de um ano, ficou associado aos vídeos de comédia, mas, com o tempo, começou a sentir que aquele formato já não lhe permitia mostrar tudo o que era. Queria falar sobre os assuntos que discutia com amigos, sobre a forma como olhava para o mundo, sobre relações, comportamento, sociedade e escolhas individuais. A certa altura, percebeu que o mesmo humor que lhe tinha aberto caminho também lhe impunha uma fronteira. “Sentia que, por estar a fazer comédia, de alguma forma, me limitava um pouco”, explica. “Não podia trazer a minha opinião séria sobre algum assunto, porque iam dizer: ‘Tu que nos fazes rir agora estás a falar sobre coisas sérias, porquê?’”
Erik receou perder o público, deixar de ser acompanhado e desaparecer na Internet, mas aconteceu exatamente o contrário. Os novos conteúdos, mais reflexivos e provocadores, foram recebidos com interesse e acabaram por aproximá-lo de uma audiência que talvez nem conhecesse a sua fase inicial. “As pessoas começaram a gostar mais ainda, começaram a consumir mais ainda”, diz. “Há pessoas que nem sequer imaginavam que eu fazia comédia, porque só têm a minha imagem a fazer os novos conteúdos.”
Essa mudança ajudou a consolidar uma presença digital que Erik prefere definir pela provocação, e não pelo conselho. Embora muitos o vejam como alguém que orienta, alerta e chama a atenção do público, recusa o lugar de figura exemplar, por saber que essa imagem rapidamente se transforma numa cobrança permanente. “Eu prefiro ser visto como uma pessoa provocativa. Acho melhor”, afirma. “Quando olham para nós como se fôssemos uma pessoa que dá conselhos, como uma pessoa perfeita, é um lugar muito perigoso”, explica.
Para o criador de conteúdo, ser colocado no lugar de quem aconselha cria uma expetativa difícil de sustentar, porque qualquer erro passa a ser lido como contradição e qualquer gesto fora da imagem construída pelo público pode ser usado como prova contra quem fala. É por isso que prefere não ficar preso às frases que diz, nem à versão de si que os outros projetam. “As pessoas querem que tu sejas escravo da tua opinião, de alguma forma. E eu não sou, de forma nenhuma.”
Erik prefere provocar porque acredita que o método permite abrir espaço para conversas que nem sempre chegam ao espaço público. Fala de relações, limites, disponibilidade emocional, amizade, amor, aparência e expetativas sociais, muitas vezes a partir de inquietações pessoais, conversas com amigos ou frases que encontra pelo caminho. Um dos seus vídeos partiu da ideia de que “ninguém valoriza quem está sempre disponível”, e a identificação dos seguidores mostrou-lhe que aquela reflexão tocava numa questão geracional. “É aquela frase: ‘A ânsia de ter e o tédio de possuir.’ Nós queremos muito ter uma coisa ou alguém, mas, quando temos aquilo, não valorizamos da forma certa.” O tema, diz, aplica-se sobretudo às relações amorosas e de amizade, onde muitas vezes se deseja presença, cuidado e disponibilidade, mas se perde o interesse quando isso aparece de forma constante. “Estamos sempre à procura de alguém que nos dá mais ou menos, cobramos mais daquela pessoa que nos dá mais ou menos, e não valorizamos quem nos está a dar mais daquilo que queremos.”
Apesar da imagem segura que construiu online, Erik insiste que a exposição continua a ser um desafio. Define-se como tímido, ansioso e gago, três características que, à partida, poderiam parecer incompatíveis com a rotina de gravar, entrevistar, apresentar conteúdos e trabalhar com marcas, mas é precisamente nesse confronto que o seu percurso se tem feito. “Sou uma pessoa muito tímida, sou ansioso, sou gago. Mas como é que é gago e fala? Fala. Eu sou gago”, diz, reconhecendo que gravar com outras pessoas ou fazer publicidade em público continua a ser difícil. Ainda assim, acrescenta, “independentemente disso, vou estar lá a fazer”.
A dualidade acompanha a forma como o comunicador se descreve fora da Internet. Uma amiga chamou-o “sunshine”, palavra que Erik associa à mistura entre a timidez e o brilho, entre a reserva e a exposição, entre o nervosismo e a vontade de comunicar. “Sou muito animado, muito divertido, mas, ao mesmo tempo, também sou muito tímido”, conta.
Nascido e criado em Luanda, Erik lembra-se das revistas que o pai levava para casa, como a Caras e a Lux, e da curiosidade com que lia as notícias. Mais tarde, decidiu profissionalizar esse interesse e formou-se como técnico médio de Comunicação Social, embora defenda que a aprendizagem real acontece sobretudo na prática, no exercício diário de perguntar, escrever, errar, corrigir e tentar novamente. “Mesmo que tenhas as teorias, a prática vem fazendo. É a cada entrevista, a cada trabalho, a cada texto, que vais aperfeiçoando as tuas técnicas e melhorando.”
Antes de se tornar Erik Belo, criador de conteúdos, já produzia para o AngoPortal. Durante a pandemia, criou um projeto de entrevistas digitais e conseguiu chegar a nomes como Maria Borges, Ferrugem, Bianca Andrade, Carol Conká, Micaela Reis, Anitta, Pabllo, Iza e Roberta Miranda. Tinha apenas 15 ou 16 anos, não havia um plano estruturado de carreira, apenas curiosidade e vontade de fazer. “Eu não tinha objetivo. Era mesmo só um jovem sonhador que queria fazer alguma coisa”, recorda. “Na altura, não olhava muito para o futuro. Era mesmo só aquilo que eu tinha curiosidade de fazer. E fiz.”
Só mais tarde percebeu que aquela experiência, feita quase sem cálculo, ajudou a construir o caminho que percorre hoje. “De alguma forma, olho para aquilo e digo: ‘Fogo, acho que aquilo, sem eu pensar, me trouxe até onde estou hoje.’” O Instagram do AngoPortal acabou por ser suspenso e Erik perdeu o registo das entrevistas, mas guarda o processo como parte fundamental da sua construção. “Perdi tudo aquilo que fiz, mas está aqui na memória e acho que isso também é mais importante.”
Hoje, a sua produção atravessa diferentes formatos. Há vídeos mais reflexivos, projetos de entretenimento, conversas com figuras públicas e experiências como o “Desafio Picante”, criado para quebrar a imagem de jovem demasiado sério que sentia estar a ser construída à sua volta. Para esse projeto, Erik pintou o cabelo e assumiu uma estética mais provocadora, não apenas por escolha visual, mas como forma de lembrar que uma pessoa pode falar de assuntos sérios e, ainda assim, divertir-se, mudar a aparência, experimentar e contrariar expetativas.
Ao falar dessa fase, Erik reconhece que o lugar de jovem sempre sério também o inquietava. “Esse lugar é um pouco perigoso, não quero estar aí”, diz. Pintar o cabelo foi uma forma de recusar essa prisão simbólica, de mostrar que a reflexão não precisa de vir sempre acompanhada de uma imagem rígida ou previsível. “Posso falar de assuntos sérios, posso trazer uma reflexão, posso dar conselho, mas também posso pintar o cabelo, e isso não vai mudar quem sou. Isso não vai mudar a forma como penso.”
A crítica à sociedade angolana aparece aqui de forma direta. Para Erik, a aparência continua a ser usada como medida de valor, sobretudo em relação aos jovens, como se uma escolha estética pudesse anular inteligência, caráter ou capacidade de reflexão. “Infelizmente, estamos num país onde as pessoas julgam muito pela aparência”, afirma. “Se és homem e tens cabelo grande, já não prestas. Se és homem e pintas o cabelo, também está errado.” O jovem é contra essa leitura limitada que constrói parte do seu trabalho, porque acredita que cada formato mostra uma faceta diferente e não uma contradição. Os vídeos de reflexão mostram uma parte, os projetos de entretenimento revelam outra, as conversas com convidados abrem ainda mais possibilidades. “Nós não somos só uma coisa”, defende. “Tudo o que somos é como se fosse uma flor: cada pétala é uma parte de nós.”

DR
A rotina de criação é intensa e acompanha essa multiplicidade. Erik diz que, muitas vezes, escreve, grava, edita e publica no mesmo dia, num processo que pode durar entre 20 minutos e uma hora. As ideias surgem de conversas com amigos, músicas, livros, frases soltas, artigos e temas que encontra ao longo do dia. Aponta tudo no telemóvel e, quando acorda, decide sobre o que quer falar, depois lê, pesquisa, consulta artigos, organiza a opinião e também recorre à inteligência artificial para melhorar textos e discursos, sem esconder essa etapa do processo. Prepara o cenário, grava, edita e publica, quase sempre com uma disciplina assumida. “Se for gravar às 8 ou às 9 horas, não importa, mas às 10 horas tem de haver conteúdo. Aí vou ter de me virar.”
Ainda assim, Erik reconhece que a produção diária pode tornar-se uma armadilha. Não sente que publique por pressão direta do público, mas percebe que o descanso também faz parte da criação e que estar sempre a produzir pode limitar o surgimento de novas ideias. “Acho que a arte depende muito do descanso do artista, ou de quem faz a arte. Quando estás sempre a fazer, a fazer, a fazer, não terás tempo para novas ideias.”
O problema é que, quando surge um assunto, sente necessidade de o trabalhar no momento. Se deixa para depois, perde a ligação emocional com o tema e já não consegue desenvolvê-lo da mesma forma. “Trabalho muito com o que estou a sentir”, explica.
A criação digital, em Angola, já pode ser uma fonte de rendimento, mas Erik evita romantizar o processo. Diz que é possível viver da internet, embora essa não seja a realidade de todos. O mercado continua instável, com períodos longos sem campanhas ou publicidade, e quem começa agora dificilmente consegue transformar a criação de conteúdos em sustento imediato. “Quem está a começar hoje não é daqui a três, quatro meses ou um ano que vai viver já da internet. Não é”, alerta.
Começou a ganhar dinheiro com conteúdos depois de cerca de quatro anos. Hoje tem trabalhos fixos, mantém marcas com quem já trabalhava antes de entrar para uma agência e viu novas oportunidades surgirem com o crescimento da sua presença digital. Ainda assim, sublinha a importância de saber gerir o dinheiro, porque a visibilidade não garante rendimento contínuo. “Podes ficar dois meses sem trabalho, sem publicidade. Então logo não te traz dinheiro.”
O maior valor que recebeu por um trabalho pontual foi de aproximadamente dois milhões de kwanzas. Erik fala do momento sem triunfalismo, consciente de que conquistas dessa dimensão não acontecem todos os dias. “Fico feliz com tudo”, diz. “Não olho para as coisas tipo: ‘Essa é só uma coisinha.’ Olho tipo: ‘Consegui fazer isso.’” Ao mesmo tempo, sabe que valores assim exigem responsabilidade. “Tenho de cuidar bem desse dinheiro, porque esse dinheiro também não vai vir tão cedo.”
A relação da família com o seu percurso tem sido de apoio, Erik conta que a mãe partilha os seus vídeos, os familiares acompanham os conteúdos e, quando recebe convidados conhecidos, por vezes avisa primos ou sobrinhos para os conhecerem. Essa validação doméstica ajuda a contrariar a forma menor como, por vezes, o trabalho digital ainda é visto.
No fim, quando pensa nos criadores que estão agora a começar, Erik deixa um conselho que resume a forma como olha para o digital, não transformar os números numa obsessão, nem fazer da comparação uma medida de valor. Para ele, visualizações e seguidores podem trazer visibilidade, mas não garantem respeito, consistência ou impacto. “Números não são tudo. Credibilidade é muito melhor do que fama”, afirma. Ainda assim, reconhece que esse equilíbrio é difícil de manter num ambiente onde todos se observam, se medem e se comparam o tempo inteiro. “Não comparar o nosso trabalho com o dos outros, não comparar a nossa estrada com a do outro. É muito fácil falar isso, mas na prática é muito difícil, porque somos humanos e estamos em constante comparação”, termina.
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