Quinze anos depois de viajar à Guiné-Bissau, Ernesto Mané está na corrida a um dos maiores prémios literários do Brasil

11 de Outubro de 2026
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Ernesto Mané | DR

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Em 2010, Ernesto Mané viajou até à Guiné-Bissau para conhecer, pela primeira vez, a família do pai, e foi escrevendo um diário pelo caminho. Quinze anos depois, esse diário deu origem a Antes do Início, o livro de estreia do físico e diplomata brasileiro e guineense, publicado em 2025 pela Tinta-da-China Brasil. É também com ele que Mané está entre os dez semifinalistas da categoria Escritor Estreante (Romance) da 68.ª edição do Prémio Jabuti, o mais tradicional prémio literário do Brasil.


Nascido em João Pessoa, na Paraíba, em 1983, filho de mãe paraibana e pai guineense, Mané era então investigador em física nuclear no Canadá. O que encontrou do outro lado do Atlântico era difícil de pôr numa equação. Encontrou os avós a viver em condições precárias numa bolanha, um arrozal no interior do país, conheceu tradições, crenças e costumes que até ali lhe eram estranhos e acabou a mediar conflitos familiares. Nas ruas de Bissau, ouviu chamarem-lhe “branco”, por causa da forma como se vestia e se comportava, ele que tinha crescido a enfrentar o racismo no Brasil. É desse desencontro que o livro se alimenta, a meio caminho entre o diário de viagem, a memória e o ensaio.


A partir de uma perspetiva decolonial, o autor pensa o pan-africanismo, a precariedade de muitas sociedades pós-coloniais e o que a palavra “casa” pode significar para quem cresceu na diáspora. Um excerto da obra já tinha chegado aos leitores portugueses na edição portuguesa da revista Granta. Na badana, o escritor e músico angolano Kalaf Epalanga descreve-o como “um livro sobre paternidade, birracialidade e negritude mas, principalmente, sobre o esforço de reconstruir uma identidade estilhaçada pela diáspora”. Hoje, além da nacionalidade brasileira, Mané tem também a guineense.


A lista de semifinalistas foi divulgada a 29 de setembro pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o prémio. Na mesma categoria estão, entre outros, Bruna Dantas Lobato, com Horas Azuis, Fernanda Teixeira Ribeiro, com Cantagalo, Mariana Lobato Botter, com Pitangas Verdes, e Diego Itabira, com Breu de Maré. Este ano a corrida tem uma novidade. Até à edição anterior, o Livro do Ano, a principal distinção do Jabuti, saía apenas das categorias dos eixos Literatura e Não Ficção. A partir de agora, as obras inscritas em Escritor Estreante, tanto em Poesia como em Romance, também concorrem ao título, o que põe Antes do Início entre os elegíveis.


A edição de 2026 recebeu 4675 obras e projetos inscritos, mais do que as 4530 do ano anterior, distribuídos por 23 categorias nos eixos Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Uma das categorias novas é Incentivo à Leitura (Cultura Digital), dedicada a criadores e iniciativas que promovem o livro nas plataformas digitais, cujos semifinalistas foram a votação pública até 9 de outubro. Os cinco finalistas de cada categoria são anunciados a 14 de outubro e os vencedores a 27 de outubro, numa cerimónia para convidados na Sala São Paulo, na capital paulista. Cada vencedor de categoria recebe a estatueta do Jabuti e cinco mil reais. O autor do Livro do Ano leva 70 mil reais e pode escolher participar numa das feiras internacionais do livro de Londres, Bolonha, Frankfurt ou Guadalajara, com as despesas pagas pela CBL.


O prémio foi criado por iniciativa de Edgard Cavalheiro, então presidente da CBL, para distinguir não só escritores mas também editores, livreiros, ilustradores e gráficos. A primeira edição, em 1959, distinguiu Jorge Amado por Gabriela, Cravo e Canela. O nome vem do jabuti, a tartaruga da obra de Monteiro Lobato, associada à paciência e à tenacidade. Desde a reformulação de 2018, cada categoria tem um único vencedor. No ano passado, numa cerimónia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Livro do Ano foi para Ruy Castro, com O Ouvidor do Brasil: 99 Vezes Tom Jobim. O jornalista e escritor volta este ano às semifinais com Trincheira Tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, em Biografia e Reportagem. Noutras categorias aparecem nomes como Itamar Vieira Junior, com Coração sem Medo, Marilene Felinto, com Corsária, e Amanda Julieta, com No Rastro de Estela, os três em Romance Literário, e Michel Alcoforado, com Coisa de Rico, em Biografia e Reportagem.


Antes de chegar às letras, Mané fez carreira longe delas. Doutorou-se em Física Nuclear pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, em 2009, e entre 2009 e 2012 foi investigador pós-doutoral no TRIUMF, o laboratório canadiano de física de partículas e nuclear. Depois da viagem à Guiné-Bissau entrou em 2014 no corpo diplomático brasileiro, através do programa de ação afirmativa para afrodescendentes do Instituto Rio Branco, e tem trabalhado nas áreas do desarmamento e da não proliferação. Em 2018 representou o Brasil no programa de bolsas de desarmamento das Nações Unidas. Entre 2019 e 2020 foi investigador visitante no Program on Science and Global Security da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Serviu na embaixada brasileira em Washington e está atualmente colocado em Buenos Aires.


Em Portugal, Antes do Início está disponível na Livraria da Travessa e pode ainda ser encomendado à Livraria Martins Fontes ou diretamente à Tinta-da-China Brasil.

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