Do primeiro golo de Fawzi à estreia dos “tubarões azuis”, a evolução da presença africana nos Mundiais

19 de Junho de 2026
Evolução da presença africana nos Mundiais
Egito, primeira seleção africana numa Copa do Mundo, em 1934 | DR

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Quando o Egito entrou em campo contra a Hungria no Mundial de 1934, tornou-se a primeira seleção africana a participar numa Copa do Mundo. Na altura, a presença do continente na competição resumia-se a apenas uma única equipa. Quase cem anos depois, o cenário é bastante diferente. O Mundial 2026 conta com um número recorde de dez seleções africanas e inclui ainda a estreia de Cabo Verde e Curaçau, bem como o regresso do Haiti após mais de cinquenta anos de ausência.


Ao longo desta trajetória existe uma história que vai muito além dos resultados desportivos. A relação entre o continente africano e a Copa do Mundo acompanhou transformações políticas, sociais e culturais que marcaram o último século. Das reivindicações por representação às campanhas que ficaram na memória dos adeptos, vários episódios ajudam a compreender como o continente se tornou uma presença cada vez mais significativa no maior palco do futebol mundial.


O boicote de 1966 e a consolidação das seleções africanas


A participação do Egito em 1934 abriu um capítulo inédito na história dos Mundiais. Apesar da derrota frente à Hungria, Abdelrahman Fawzi tornou-se o primeiro jogador africano a marcar num Campeonato do Mundo. O momento ficou registrado como a estreia oficial do continente na competição. Durante as décadas seguintes, a presença africana na Copa manteve-se reduzida.


A situação atingiu um ponto de tensão em 1966, quando nenhuma seleção africana participou no torneio realizado em Inglaterra. Na época, as seleções africanas eram obrigadas a disputar uma única vaga contra equipas da Ásia e da Oceania. O episódio sucedeu-se num contexto importante para muitos países africanos: o processo de descolonização. Entre as décadas de 1950 e 1960, países como Gana, Nigéria e Senegal conquistaram a sua independência após longos anos de domínio colonial e, com isso, cresceu também a exigência por uma representação mais equilibrada nas instituições internacionais, incluindo as desportivas. Em protesto contra o modelo de qualificação, quinze federações africanas retiraram-se das eliminatórias para o Mundial. A decisão foi apoiada pela Confederação Africana de Futebol, fundada em 1957, que procurava afirmar-se como representante dos interesses junto da FIFA.


Em 1970, o continente passou a ter uma vaga direta garantida na fase final da Copa do Mundo, que foi estreada por Marrocos e que inaugurou uma nova etapa da presença africana na competição.


A consolidação dos países africanos na Copa também se fez através de momentos que ampliaram a visibilidade das seleções. Em 1978, na Argentina, a Tunísia derrotou o México por 3-1 e tornou-se a primeira seleção africana a vencer um jogo no Mundial. Nas décadas seguintes, outras equipas continuaram a escrever páginas relevantes na história, entre elas destaca-se o Senegal, que protagonizou um dos maiores momentos da competição de 2002. Na estreia da seleção senegalesa, a equipa venceu a França por 1-0 no jogo de abertura. O caso ganhou ainda mais destaque pelo facto de os franceses terem chegado à competição como campeões mundiais e europeus em título. Não ficando por aí, o Senegal alcançou os quartos de final, juntando-se aos Camarões (1990) entre as seleções africanas que mais longe tinham chegado na competição até então.


O primeiro mundial africano e as vuvuzelas


Entre todos os momentos da história africana na Copa do Mundo, o Mundial de 2010 é lembrado até hoje como o momento mais importante desta trajetória. Foi nesse ano que a competição realizou-se pela primeira vez em solo africano. Menos de duas décadas depois do fim do apartheid, a África do Sul recebeu a competição ao som das vuvuzelas. As cornetas de plástico que já eram populares no futebol sul-africano, fizeram-se ainda mais presentes durante os jogos. Apesar das reclamações feitas por alguns jogadores, treinadores, comentadores e até telespectadores de que o barulho dificultava a comunicação dentro de campo e a transmissão televisiva, os sul-africanos defenderam as vuvuzelas como uma expressão legítima da cultura futebolística local.


Na competição do mesmo ano, o Gana esteve a um passo de se tornar a primeira seleção africana a alcançar as meias-finais. Nos últimos segundos do prolongamento dos quartos de final frente ao Uruguai, uma bola que entraria na baliza foi travada deliberadamente com a mão por Luis Suárez. O uruguaio foi expulso e o Gana ganhou um penálti que poderia colocar não apenas a seleção ganesa, mas todo o continente africano, pela primeira vez entre os quatro melhores do mundo. No entanto, Asamoah Gyan falhou a cobrança, o jogo seguiu para os penáltis e o Uruguai acabou por vencer. O episódio continua a ser um dos momentos mais polémicos da história dos Mundiais porque muitos consideram que Suárez impediu um golo certo através de uma infração deliberada, e um dos mais dolorosos para África porque a oportunidade histórica escapou literalmente no último lance do jogo. Doze anos depois, em 2022 os marroquinos eliminaram Espanha e Portugal no Catar e tornaram-se a primeira seleção africana a alcançar as meias-finais.


Cabo Verde, Haiti Curaçau e a nova configuração do Mundial 2026


Noventa e dois anos depois da estreia do Egito, o continente africano chega ao Mundial com um número recorde de representantes. África do Sul, Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Egito, Gana, Marrocos, Nigéria, Senegal e Tunísia qualificaram-se para a competição, refletindo o crescimento da presença africana no futebol mundial. Entre elas, Cabo Verde participa pela primeira vez num Campeonato do Mundo.


A edição de 2026 fica também marcada pela estreia de Curaçau e pelo regresso do Haiti, duas nações que reforçam a diversidade geográfica da competição e demonstram uma maior abertura do futebol internacional a países historicamente menos representados.


Cabo Verde, Haiti e Curaçau têm em comum o facto de serem pequenas nações com populações relativamente reduzidas. Embora estejam localizados em regiões diferentes (Cabo Verde na África Ocidental e Haiti e Curaçau nas Caraíbas) os três países partilham percursos semelhantes de afirmação internacional através do futebol. 


Na Copa do Mundo de 2026, a presença destas seleções tem um significado especial, pois demonstra como o futebol mundial se tornou mais inclusivo e competitivo. Cabo Verde e Curaçau alcançaram a sua primeira participação num Campeonato do Mundo, enquanto o Haiti regressou à competição após mais de cinquenta anos de ausência. 


Para além dos resultados desportivos, estas seleções representam o orgulho de povos historicamente sub-representados no futebol internacional e servem de inspiração para outras nações de pequena dimensão. A sua presença no Mundial de 2026 simboliza a capacidade de superar limitações geográficas, económicas e demográficas. Cabo Verde já entrou para a história ao empatar com a Espanha na sua estreia. Curaçau tornou-se o menor país da história, em população e dimensão territorial, a qualificar-se para um Campeonato do Mundo e o Haiti representa o regresso de uma seleção das Caraíbas após mais de meio século de ausência, o que serve de inspiração para um país que enfrentou inúmeras dificuldades sociais e económicas.


Da estreia do Egito em 1934 ao recorde de dez seleções africanas em 2026, estão décadas de reivindicações, conquistas e episódios que ajudam a explicar como a presença africana deixou de ser excecional para se tornar parte da história dos Mundiais.

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