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A edição de 2025 do Festival Canjala, realizada a 27 de dezembro, voltou a confirmar aquilo que sete edições consecutivas já vinham a revelar: a Canjala é hoje um fenómeno cultural, social e organizacional que desafia os modelos convencionais de festivais, dentro e fora de Angola.
Num panorama internacional onde o sucesso é frequentemente medido pela dimensão das multidões, a Canjala afirma uma lógica distinta. Com cerca de 5.000 participantes, o festival assume deliberadamente uma escala humana, pensada para garantir permanência, segurança e qualidade da experiência individual. Mais do que consumo rápido, propõe envolvimento: um espaço onde é possível permanecer durante 12 horas, reconhecer o outro como igual e sentir-se parte ativa do acontecimento.
O evento voltou a esgotar, mantendo um percurso raro no setor: sete edições, sete lotações completas. Cerca de 67% do público regressa edição após edição, um indicador claro de fidelização e sentido de pertença.
O perfil dos participantes reflete uma Angola jovem, diversa e em movimento. Mais de 73% do público tinha entre 20 e 35 anos, com uma distribuição equilibrada entre géneros (54% feminino e 46% masculino). A edição reuniu público proveniente de 15 províncias angolanas e de 16 nacionalidades, reforçando a Canjala como ponto de encontro entre o local e o global.

Uma experiência imersiva pensada ao detalhe
Desde a chegada, a experiência é cuidadosamente desenhada. O acesso ao recinto passa por um labirinto onde o público se pode perder, sendo cada erro recompensado com cervejas frescas, num gesto lúdico que quebra o gelo logo à entrada. Um túnel iluminado conduz ao espaço principal, revelando um palco inspirado no tema “O Jogo da Vida”, concebido como uma Game Boy gigante, reforçando a dimensão simbólica e interativa do festival.
A vivência do recinto privilegia fluidez e conforto. Comida e bebida estão totalmente incluídas no bilhete e distribuídas por várias bancas bem sinalizadas, evitando filas e deslocações desnecessárias. Zonas mais intimistas - com pinturas faciais, massagens e até uma discreta “barraquinha do beijo” - oferecem pausas fora do centro da multidão.
Ao longo da noite, 10 DJs e artistas conduziram uma viagem sonora por mais de 12 géneros musicais, sem hierarquias nem segmentações. Não existem zonas VIP nem experiências diferenciadas: na Canjala, há um só espaço e um só público.
A identidade cultural é assumida de forma consciente. Produtos tradicionalmente associados ao consumo local, como o maruvo, a kapuka, o cabrité ou as canecas de lata, são integrados como afirmação cultural, contribuindo para a valorização de práticas angolanas num contexto contemporâneo.
O amanhecer como manifesto cultural
Um dos momentos mais simbólicos desta edição aconteceu às 5h30 da madrugada, precisamente quando o sol começava a erguer-se no horizonte. No palco, uma banda de música com 16 elementos assumiu os comandos e transformou o amanhecer numa celebração coletiva da identidade angolana. O semba genuíno tomou conta do espaço, marcando a transição da noite para o dia como um ritual de pertença, memória e continuidade cultural — um gesto raro em festivais contemporâneos e profundamente enraizado na tradição local.

Organização, segurança e visão de futuro
A realização do festival envolveu cinco meses de preparação, 20 dias de montagem e uma equipa de cerca de 150 profissionais locais, distribuídos por mais de 4.000 m² de espaço imersivo. A operação incluiu uma resposta logística e alimentar contínua, pensada para funcionar sem interrupções ao longo de toda a noite.
A segurança foi tratada como prioridade estrutural, com cerca de 500 profissionais envolvidos, incluindo segurança privada, bombeiros, Polícia Nacional, equipas de baixa visibilidade e um sistema de videovigilância com 25 câmaras. O modelo garante que nenhum participante esteja a mais de 10 passos de um agente de segurança, um padrão afinado ao longo das edições.
Criada em 2017 a partir de uma celebração informal entre amigos, a Canjala evoluiu para um projeto estruturado sob a liderança do coletivo Team Arrogância, mantendo uma filosofia próxima do princípio Ubuntu - “eu sou porque nós somos”. Cada edição é tratada como um processo de aprendizagem contínua, onde fragilidades se transformam em estrutura.
A Canjala não replica modelos importados. Constrói, a partir de Angola, uma proposta original com ambição internacional. Num calendário global saturado de grandes festivais, afirma-se como um caso de estudo sobre como cultura, comunidade, tecnologia e organização podem coexistir num mesmo espaço - não como espetáculo isolado, mas como processo vivo e contínuo.
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