Festival MED arranca com Lura, Vitorino e Asian Dub Foundation

26 de Junho de 2026
Festival MED  Lura Vitorino Asian Dub Foundation
©BANTUMEN

Partilhar

A 25 de junho, o Festival MED abriu as portas da sua 22ª edição no centro histórico de Loulé. A programação estende-se até sábado, dia 27, com um dia extra de acesso gratuito no domingo, o Open Day, iniciativa que a organização mantém como forma de alargar o festival à cidade.


Criado em 2004 pelo município algarvio, o MED nasceu com a intenção de devolver vida àquele núcleo medieval e fazer da multiculturalidade a sua identidade. Duas décadas depois, tornou-se uma referência europeia da world music pela forma como usa a cidade como palco: os concertos acontecem no castelo, na Igreja Matriz, nos largos e nas ruelas, e quem assiste percorre Loulé enquanto ouve. Ao longo da sua história, já passaram pelo festival artistas de mais de 70 países.


A edição de 2026 chega sob nova direção artística - Paulo Silva assumiu a programação - e com uma decisão editorial que marca uma viragem: depois de ter realizado a última edição com um país convidado, sendo Cabo Verde o destaque da edição anterior, o festival regressa à diversidade plural que esteve na sua génese, com 30 países representados em mais de 50 concertos e a Bielorrússia a estrear presença, através do acordeonista Yegor Zabelov. O recinto cresceu na Praça da República e na Rua Martim Moniz, o Mercado Municipal entrou pela primeira vez na programação com concertos diários, a zona kids ganhou um espaço maior e mais equipado, e o MED Lounge, instalado atrás da Igreja Matriz, estreou-se como zona intimista com DJ sets de world music eletrónica. O conceito Cidade MED levou a música para além do recinto - pelas colunas instaladas nos edifícios, pela decoração temática espalhada pela cidade, pelo envolvimento do comércio local - como forma de tornar o festival numa presença que começa muito antes de as portagens abrirem.


Ainda antes dos primeiros concertos, as bancas de gastronomia e artesanato, todas de produtores e comerciantes locais, estavam abertas e movimentadas. No Mercado Municipal, integrado pela primeira vez no recinto, Amar Guitarra atuava enquanto o público chegava e se distribuía pelo espaço. O retrato de quem percorria as ruas refletia a proposta do festival: várias gerações e várias procedências, festivaleiros habituais e visitantes que descobriam o recinto pela primeira vez, todos a circular entre bancas, palcos secundários e ruas onde a música chegava pelas colunas instaladas nos edifícios.


Um dos principais concertos da noite ficou a cargo de Vitorino, no Palco Cerca, em substituição de Sérgio Godinho, que cancelou por razões de saúde. Vitorino levou ao palco uma seleção de temas construídos a partir de poemas de autores portugueses, com viola, baixo, piano e passagens de cante alentejano. Cantou Zeca Afonso, interpretou "Menina Estás à Janela" e homenageou José Saramago com "Circo", poema incluído em Os Poemas Possíveis, publicado em 1966. Recitou ainda "Fado da Prostituta", de António Lobo Antunes. O concerto afirmou, com o rigor discreto que caracteriza o artista, que a música portuguesa também tem lugar no mapa que o MED desenha todos os anos.


No Palco Matriz, os Asian Dub Foundation comandaram uma das atuações mais intensas da noite. Formados em Londres em 1993, numa oficina de música comunitária em Farringdon, os ADF construíram ao longo de mais de três décadas um som que combina rap, dub, dancehall, rock alternativo e música tradicional sul-asiática - as linhas de baixo com ressonâncias de sitar, o ritmo do bhangra acelerado, a voz combativa dos MCs. Em Enemy of the Enemy (2003), o seu álbum mais vendido, ficou estabelecida a reputação da banda como projeto de causas, com temas como "Naxalite" e "Fortress Europe" a marcar a relação entre música e direitos civis. Em Loulé, a guitarra elétrica cortou sobre bases de drill enquanto Nathan "Flutebox" Lee - virtuoso da flauta travessa que em simultâneo faz beatbox - atravessou toda a atuação. O público acompanhou e devolveu a mesma energia que a banda projetava para a plateia.


A fechar o mesmo palco, os Groundation trouxeram outro registo: formados em 1998 no programa de jazz da Sonoma State University, na Califórnia, o coletivo funde roots reggae com jazz, funk e dub num som marcado pelas trompas improvisadas e pela percussão polirrítmica, uma proposta construída ao longo de mais de duas décadas de digressões por 35 países.


Às 23h30, o Palco Cerca encheu-se para receber Lura, que pisou o MED pela terceira vez, depois das passagens em 2009 e 2017. Trinta anos de carreira dão a Maria de Lurdes Assunção Pina uma relação com o repertório que é antes uma sedimentação, a forma como cada tema carrega o peso do que foi e do que continua a ser. O alinhamento percorreu esse território com precisão: "Oh Náia", tema em que a narradora parte para Lisboa e regressa de mãos a abanar, abriu caminho para "Na Ri Na", uma das suas músicas mais conhecidas  composta por Orlando Pantera, figura que transformou o funaná e o batuque e que moldou o som cabo-verdiano para as gerações seguintes. "Vasulina", também de Pantera, e "Feitiço di Funaná" aprofundaram esse diálogo com as raízes. "Fomi 47" e "Aguenta" - tema que a juntou a Mário Marta, cantor cabo-verdiano que faleceu em abril deste ano aos 53 anos - completaram um alinhamento que equilibrou celebração e memória. O concerto encerrou com "Sabi Dimas" ao som do batuque, ritmo de Santiago percussivo e coletivo em que o corpo é instrumento, com Lura a dançar em palco.


Pelos restantes palcos, a programação seguiu alinhada com o espírito do evento: alinhamento musical que traz a Portugal os melhores nomes da chamada indústria das músicas do mundo.



O festival prossegue hoje, 26, com destaque para Mário Lúcio & The Pan African Band, no Palco Cerca às 23h30.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile