A morabeza que nos falta e o que ficou da segunda edição do Festival Morabeza LX

11 de Maio de 2026

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No mesmo dia em que June Freedom subiu ao palco do Jardim do Palácio Pimenta, em Lisboa, para fechar a noite ao som de funaná, e em que Edna Fernandes conquistou 500 euros por aquilo a que um dos jurados chamou, sem hesitação, “a melhor cachupa de Lisboa”, três pessoas sentadas à volta de uma mesa redonda discutiam a palavra que dá nome ao festival e perguntavam-se se ela ainda significa alguma coisa.


“A morabeza que nos falta” foi o título escolhido pela BANTUMEN para a conversa que abriu o programa da tarde. E foi também, talvez, a formulação que melhor condensou o que ficou da segunda edição do Festival Morabeza LX, realizada no sábado, 9 de maio, no Museu de Lisboa.


Entre as 11h e as 22h, o Palácio Pimenta recebeu, com entrada livre, um programa repartido por três espaços em simultâneo, Jardim, Pátio das Tílias e Lagoa, que juntou, segundo estimativas da organização, entre 1.200 e 1.500 pessoas ao longo do dia. Menos do que as cerca de 2.000 da primeira edição, concentradas num único momento, mas distribuídas agora por mais horas, mais formatos e por uma programação mais densa.


A mesa-redonda, moderada por Marisa Rodrigues, partiu de uma provocação simples e incómoda: morabeza, que significa a arte de bem receber, é uma palavra cabo-verdiana amplamente reconhecida, mas nem sempre compreendida e muitas vezes usada sem que isso corresponda a qualquer prática concreta. O que significa acolher numa cidade onde, como lembrou a moderadora Marisa Rodrigues na introdução, “ninguém se olha nos olhos, nas fronteiras onde se pede papel antes de se perguntar o nome, nos ecrãs que decidem quem é visível e quem não é”?

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Edna Fernandes, vencedora do concurso Midjor Cachupa di Lisboa  | ©BANTUMEN/Nuno Silva


À volta da mesa estavam três vozes com percursos e lugares distintos: Neusa Sousa, de origens santomenses, apresentadora de televisão e fundadora do Chá de Beleza; Benilde Matsinhe, professora e jornalista moçambicana, integrante da rede pan-africana Noo’cultures; e Cláudio António Rumal, promotor cultural guineense, coordenador do Grupo Cultural Netos de Bandim e fundador da Tuduticket, primeira plataforma de bilheteira online da Guiné-Bissau, bem como da Casa de Cultura da Guiné-Bissau em Portugal.


A conversa atravessou cinco eixos centrais: a indiferença normalizada nas sociedades democráticas; a diferença entre tolerar e acolher; os muros físicos, burocráticos e algorítmicos que separam quem tem cidade de quem não tem; a posição particular das diásporas dos PALOP, que são, ao mesmo tempo, quem chega e quem recebe; e as práticas concretas de hospitalidade coletiva que continuam a resistir ao desinteresse instalado.


Foi aí que surgiu um dos gestos editoriais mais consistentes desta edição: usar o festival como espaço de diagnóstico, e não apenas de exibição. A diferença entre uma coisa e outra é decisiva. Um festival de “cultura PALOP” que se limita a alinhar batuque e cachupa pode funcionar como vitrine mas um festival que interrompe a música durante uma hora para perguntar o que falta à hospitalidade portuguesa passa a operar como espaço político. O Morabeza LX escolheu esse caminho e essa escolha ajudou a definir tudo o resto.


Noutro ponto do dia e noutro registo, aconteceu o concurso Midjor Cachupa di Lisboa, organizado com o apoio do El Corte Inglés. A vencedora foi Edna Fernandes, distinguida com um prémio de 500 euros. O chef Vladmir Veiga, um dos jurados, justificou a decisão com ao afirmar que “a vencedora foi a que mais arriscou. Utilizou dois produtos, um do mar, outro da montanha. O porco também teve várias texturas interessantes, como torresmos na parte de cima. Utilizou ingredientes bastante típicos de Cabo Verde e o sabor esteve sempre lá.” Segundo explicou, os critérios foram autenticidade, técnica e risco. As restantes concorrentes, sublinhou, “estavam também ao nível, só que arriscaram menos”.


Confrontado com a hipótese de uma cachupa gourmet chegar aos restaurantes de Lisboa, Vladmir Veiga admitiu que esse movimento está no horizonte: “Eu, como chef, acabo por trabalhar essas receitas mais tradicionais e dar-lhes algo mais contemporâneo, mais moderno. É algo que eu mesmo vou desafiar-me no futuro. Vou precisar de algum tempo para apresentar algo autêntico, mas com outra visualidade e estética.” O comentário importa porque sinaliza um processo que já se vai insinuando fora do perímetro do festival: a entrada da cozinha cabo-verdiana nas cartas da restauração portuguesa contemporânea. E importa também porque o faz com cautela, sem cair numa lógica de apropriação fácil.


Edna Fernandes respondeu à vitória com serenidade. Tem um pequeno negócio de bolos personalizados, em paralelo com uma profissão na área administrativa, e a abertura de um restaurante não está, para já, no horizonte. “Eu tenho já um negócio ligado à gastronomia. Faço bolos personalizados em paralelo com outra atividade administrativa, que não tem nada a ver com cozinha nem com criação, mas em ambas as esferas tento sempre ser o meu melhor.” A frase poderia soar a fórmula, não fosse a convicção com que Edna a sustenta. “Mesmo nas coisas simples, o nosso cunho pessoal, a nossa excelência, mesmo que não fique perfeito, diz muito de quem somos,” afirmou a vencedora do concurso gastronómico.


À volta destes dois momentos foi circulando o resto do festival. No Jardim, a programação musical reuniu June Freedom, a fechar, e Memé Landim, com os sets de DJ Berlok e DJ Radio Cacheu a assegurarem a transição entre blocos. As Batucadeiras Bandeirinha Panafrikanistas e as Batucadeiras das Olaias garantiram a presença do batuku, um género que em Lisboa continua a sobreviver sobretudo nos bairros municipais e nas associações de mulheres cabo-verdianas, e que merece esta visibilidade. A meio da tarde, Talentos do Bairro, em parceria com a Gebalis, levou ao palco aquilo que os programas culturais municipais raramente assumem com frontalidade: que a cultura cabo-verdiana em Lisboa nasce, em larga medida, dos bairros públicos.


No Pátio das Tílias, a oficina de cerâmica do O Barro Atelier, orientada por oleiras cabo-verdianas residentes em Lisboa, desviou o festival da lógica de palco para um gesto mais manual e demorado. Foi também ali que decorreu o concurso de cachupa.


Na Lagoa, o ambiente foi mais introspetivo. Passaram dois documentários incontornáveis quando se fala de cinema cabo-verdiano contemporâneo: Hora di Bai, de Samira Vera-Cruz, e Maio, de João Paulo Araújo. Mais cedo, Adriano Reis e Flôr Porto conduziram Stórias di Cabo Verde, momento dedicado à oralidade e à literatura das ilhas, esse património narrativo que continua a circular, sobretudo, fora dos circuitos formais.


A segunda edição do Morabeza LX confirma duas coisas. A primeira é evidente: há público, há programação e há infraestrutura e a diáspora cabo-verdiana em Lisboa tem hoje quem a programe, documente, alimente e discuta. A segunda é mais incómoda e foi largada por Marisa Rodrigues à entrada da mesa-redonda: “o que falta para haver uma hospitalidade coletiva?”. É exatamente a pergunta que a cidade precisa ouvir e que, por norma, não escuta. Que ela tenha sido colocada dentro do Museu de Lisboa, num sábado, perante centenas de pessoas, é o tipo de acontecimento que justifica a continuidade deste festival.


Fica agora a expectativa em torno da terceira edição. E fica também a dúvida sobre se a infraestrutura institucional que sustenta o Morabeza LX - Câmara Municipal, Embaixada de Cabo Verde, AIMA, Gebalis, entre outros parceiros mediáticos, continuará a fazê-lo com a mesma abertura, ou se o festival acabará absorvido por uma lógica de “evento de comunidade” que esvazia precisamente aquilo que esta edição mostrou ser capaz de pensar e discutir. Para já, a morabeza aguentou-se e encheu o Palácio Pimenta.

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