Gustavo Ciríaco ocupou a Gulbenkian com um "bloco de Carnaval gradual" e participativo

17 de Fevereiro de 2026
gustavo ciriaco carnaval entrevista
Gustavo Ciríaco | ©Diana Tinoco

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Entre tecidos, esboços e estruturas de cartão, Gustavo Ciríaco, artista com formação em Ciência Política convertida em dança e coreografia, transformou o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian num estaleiro à vista dos visitantes. Nascido no Rio de Janeiro, em 1969, Ciríaco é um coreógrafo e artista transdisciplinar que atua entre a dança e as artes visuais, desenvolvendo obras de carácter site-specific que exploram relações entre espaço, geografia, arquitetura e ficção. O projeto consiste na construção de um “bloco de Carnaval gradual”, uma estrutura performativa e festiva que dialoga diretamente com a memória familiar do artista e com o conceito de espaço público. Ao longo das semanas, o espaço foi atravessado por ensaios, objetos em construção, oficinas e conversas informais, num ritmo que privilegiou a presença e a relação direta em detrimento da preparação silenciosa de um resultado final.

Caravanserá — nome dado ao projeto — culminou num bloco de Carnaval que saiu à rua a 14 de fevereiro, no Jardim Sul, mas o seu alcance estende-se para além do momento do desfile. O título remete para os caravanserás, postos de descanso seculares da Rota da Seda, situados nos desertos entre o Médio Oriente e a Ásia, que funcionavam como portos seguros para viajantes de longo curso. Essa ideia de abrigo temporário e de pausa em movimento atravessa todo o projeto, que se afirma como um processo prolongado, feito de camadas sucessivas que se acumulam no tempo: cenografia construída manualmente, figurinos criados coletivamente, música ensaiada em contacto com o espaço e com os corpos que o atravessam. “O que me interessa é que o trabalho seja visto enquanto está a acontecer”, explica Ciríaco. “As pessoas entram, observam, fazem perguntas, às vezes participam, outras vezes seguem caminho. Tudo isso passa a integrar a própria obra.”

No centro da residência artística está a obra da mãe do artista, a poeta e artista plástica Maria José de Figueiredo Ciríaco (1939–2020), cuja presença se manifesta através de objetos, vídeos e referências conceptuais que atravessam todo o espaço. A escultura assume aqui um papel central no diálogo entre mãe e filho, pela sua dimensão tátil, instável e aberta à transformação, convidando o visitante a interagir e a tornar-se parte ativa do processo criativo. Maria José definia o seu trabalho como “arte detergente”, uma expressão que, segundo o filho, traduzia uma forma de criação assente na partilha e na ausência de medo face ao que pudesse surgir. “Ela dizia que fazia arte detergente, uma arte de ter gente”, recorda. “Era uma prática muito ligada à convivência, ao gesto simples, à ideia de que a arte acontece quando é partilhada.”

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“O que me interessa é que o trabalho seja visto enquanto está a acontecer”

Gustavo Ciríaco

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©Diana Tinoco

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Entre os elementos recuperados estão os chamados porta-trovas, pequenas esculturas onde a artista guardava poemas para serem desdobrados por quem os recebia, e os “bons ecos”, bonecos feitos de papel de jornal, frequentemente associados a notícias que a própria selecionava. “Ela escolhia sempre notícias auspiciosas”, conta. “Dizia que más notícias já bastavam as do mundo.” A lógica de seleção, transformação e devolução ao coletivo estrutura agora um projeto que amplia esses gestos à escala do corpo, do espaço e da festa.


Um dos aspetos mais visíveis da residência é o trabalho de costura coletiva, desenvolvido em parceria com um projeto intergeracional que envolve avós enquanto transmissoras de saber. No ateliê, aprende-se desde os gestos mais básicos — enfiar a linha na agulha, dar o nó inicial — até à construção de trajes que integrarão o bloco. O ponto de partida é um sistema criado por Maria José, no qual cada bandeira corresponde a uma letra, permitindo codificar palavras, poemas ou homenagens pessoais. “Não se trata de reproduzir um figurino”, sublinha, “é uma base comum que cada pessoa leva para onde quiser.”


A dimensão pedagógica do projeto ultrapassa o trabalho manual e estende-se também às oficinas abertas de dança, música, costura e cenografia, para as quais o artista convida todas as pessoas a participar. O corpo é ativado tanto na costura como na dança, na escuta e na atenção ao outro, e a aprendizagem acontece no tempo do fazer e da convivência, num modelo que ecoa a Paulo Freire — educador brasileiro, autor da Pedagogia do Oprimido e referência assumida pelo artista — que incentiva a aprendizagem a partir da realidade. “Interessa-me criar situações em que o conhecimento se constrói a partir da experiência partilhada”, explica. “Ninguém chega vazio.”


Embora atravesse temas como migração, território e transformação urbana, Ciríaco recusa uma abordagem declarativa da política. No projeto, essa dimensão surge na forma como as pessoas se relacionam com o espaço e com os objetos. “Venho da ciência política e aprendi a olhar para os contratos invisíveis que regulam a vida em comum”, afirma. “Quando alguém interage com um objeto e percebe que precisa de ajustar o corpo para continuar a agir, isso já é uma experiência política. Não é um slogan, é algo que acontece.”

“Interessa-me criar situações em que o conhecimento se constrói a partir da experiência partilhada”

Gustavo Ciríaco

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©Diana Tinoco

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©Diana Tinoco

Num contexto habitualmente associado à contemplação e à contenção do corpo, Caravanserá introduz som, movimento e contacto direto. Durante a residência, o artista canta, ensaia, testa percursos e observa as reações de quem passa. “Quando começo a cantar uma marchinha e alguém sorri, isso já me diz muito sobre como o bloco vai funcionar na rua”, observa. O espaço transforma-se num território em constante ativação, onde o corpo revela camadas que normalmente permanecem latentes.


O contacto diário com públicos diversos faz parte do próprio método de trabalho. Pessoas curiosas, tímidas ou distantes entram no espaço e determinam, pelo seu comportamento, o grau de aproximação. “Aprendo todos os dias a perceber quando explicar, quando convidar, quando simplesmente deixar espaço”, diz. Para o artista, o Carnaval funciona como uma tecnologia sofisticada de convivência e “fora das estruturas mais formais, o bloco é uma negociação permanente” em que “há músicos, bailarinos, pessoas que protegem o som, outras que chegam e partem. Tudo acontece em movimento.”


No bloco de Caravanserá, marchinhas conhecidas misturam-se com um samba-enredo criado a partir de textos de Maria José, permitindo que qualquer pessoa possa cantar e acompanhar. A composição original é assinada por Dado Amaral, com direção musical de Juninho Ibituruna, e conta com músicos como Kito Siqueira (saxofone), Ygor Rajão (trompete), Claire Haas (trombone) e Mayara Baptista (voz). A participação na dinâmica de dia 14 de fevereiro “depende mais de estar” do que do domínio técnico.

“Fora das estruturas mais formais, o bloco [de carnaval] é uma negociação permanente”

Gustavo Ciríaco

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Caravanserá, bloco de carnaval, no jardim do CAM, 2026. | ©️ Ricardo Lopes Photo/Instagram: @camgulbenkian

Após o desfile, a cenografia e os vídeos permanecem expostos durante duas semanas no Espaço Engawa, permitindo novas interações. O projeto seguirá depois para outros contextos, com adaptações à escala e ao território, mantendo a lógica de ativação coletiva. A equipa envolve, entre outros, João Gonçalo Lopes na cenografia e projeto expositivo, Romeu Delmar e Francisco Lopes como ajudantes de cenografia, e um conjunto de performers composto por Abel Rojo, Emily da Silva, Esther Kasenda e Sara Zita Correia. A produção é assegurada por Luís Filipe Fernandes, Mariana Pimentel e Rita Maia, da And Lab, com administração e a gestão financeira a cargo da Missanga – Per Form Ativa.


Paralelamente, o artista convidou Antônio Frederico Lasalvia e Maša Tomšič a refletirem sobre a sua prática artística, através de textos encomendados que dialogam com o projeto, a par de contributos de Chương-Đài Võ, Laura Erber e do próprio Ciríaco. A curadoria é assinada por Rita Fabiana, com conceito e direção artística de Gustavo Ciríaco, e inclui ainda uma conversa com a artista convidada Vera Mantero.


Questionado sobre o que gostaria que permanecesse depois de tudo terminar, Ciríaco responde com a expressão que atravessa todo o projeto: “alegria lúcida”. Uma alegria consciente, atenta, capaz de perceber as múltiplas camadas da realidade sem abdicar da ação. “A minha mãe dizia que um ser feliz é um ser brincante, dançante, em movimento”, recorda. “Se algo ficar, que seja essa tensão alegre, capaz de desdobrar o olhar e o gesto.”

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