“Quanto mais simples a mensagem for, mais ela é real e atinge o objetivo”, Hélio Batalha

26 de Abril de 2026

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Ponta d'Água não é o sítio de onde as histórias costumam começar, ou pelo menos não as histórias que chegam onde esta chegou. É um bairro periférico da Cidade da Praia, sem o prestígio do centro nem a visibilidade que os festivais internacionais conferem a outras paragens da ilha de Santiago. Foi lá que Hélio Batalha cresceu, numa família de oito irmãos, e foi lá que perdeu o pai aos nove anos. A partir dos 10 ou 11 começou a trabalhar: vendia pão, mandioca e batata nas zonas circundantes, percorria kms a pé todos os dias e estudava ao mesmo tempo. Quando hoje fala desse período, descreve-o como uma circunstância que o obrigou a perceber cedo o que é ter responsabilidades e que, sem que soubesse, acabaria por torná-lo permeável ao que o rap dizia.


A Praia em que cresceu era uma cidade a expandir-se mais depressa do que as suas infraestruturas conseguiam acompanhar, o que levou a uma urbanização acelerada, desigualdade crescente, e a um processo que acabou por empurrar comunidades para os bairros. O rap nasceu nesse mesmo solo, e a tentação de fazê-lo falar essa linguagem era real. Batalha recusou-a de forma deliberada: para ele, fazer rap consciente num bairro como Ponta d'Água era uma tomada de posição sobre o que a música podia fazer ou desfazer.


Nos versos dos MCs que ouvia reconhecia as mesmas inquietações que o ocupavam: a comunidade, a existência, a urgência de dizer coisas que ninguém estava a dizer com aquele vocabulário. "Foi um casamento à primeira vista", diz. Em 2007 entrou pela primeira vez num estúdio, com uma composição submetida a um concurso radiofónico promovido pelo Ministério da Saúde e a Rádio Praia FM. Venceu. Não parou mais.

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"Imagina o que aconteceria se houvesse nos bairros escolas de música e estúdios comunitários?”

Hélio Batalha

hélio batalha entrevista

© Janeth Tavares

O percurso discográfico que se seguiu tem uma coerência que não é comum, sobretudo num género que o contexto cabo-verdiano nunca tratou como prioritário. As mixtapes Golpe di Stadu I (2010), Golpe di Stadu II (2012) e Selvas de Pedra (2014), gravadas em condições caseiras, foram construindo o mesmo fio temático que atravessaria toda a obra posterior: a comunidade, a ligação ao continente africano, a memória, a urgência coletiva. O álbum de estreia Karta D'Alforia, lançado a 28 de novembro de 2016, confirmou a existência de uma voz que usava o rap como ferramenta de denúncia e de construção identitária, e que essa voz chegava a quem precisava de ouvi-la. A crítica reconheceu-o como um dos melhores álbuns do ano; o single "O Ki Fomi Txiga" ganhou o prémio Melhor Hip Hop nos Cabo Verde Music Awards de 2016 - onde Batalha foi também distinguido como Artista Revelação - e tornou-se um dos momentos mais reconhecíveis da sua discografia. Em 2017, repetiu o feito e voltou a ganhar Melhor Hip Hop e foi distinguido como Personalidade do Ano da Música na gala Somos Cabo Verde. Formado em Serviço Social, chegou  ao rap por uma lógica de intervenção que o curso apenas aprofundou.


Cabo Verde tem a morna como Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. O batuku ressurgiu, o funaná está na moda, a música tradicional circula nos festivais, nas rádios, nas políticas de promoção cultural. O rap cresceu à margem de tudo isso. "A morna, a coladeira, agora o batuku está na moda. Gosto também", diz, "mas o rap claramente sempre fica de fora." Sem apoios, sem estúdios comunitários, sem difusão equivalente nos meios públicos, os MCs cabo-verdianos construíram o que construíram por conta própria. O que Batalha pede ao sistema é um olhar transversal sobre a cultura, assente no setor como pilar económico sem esquecer o lado social, que admite não poder ser dissociado do discurso (e da ação).  "Imagina que havia um estúdio comunitário subsidiado pelo governo, onde um jovem que está a fazer rap pagava uns quinhentos escudos, só para pagar a luz, só para ter um espaço”, exemplifica a propósito de medidas que podem ser tomadas. Em ilha como Fogo ou Brava, conta que o problema é ainda maior: não há estúdio que chegue. Em São Vicente, que tem um polo artístico com densidade rara no arquipélago, "um jovem com talento incrível tem dificuldade de promoção. Tem que vir à Praia para aparecer na televisão e na rádio." 


Festivais como o AME ou o Kriol Jazz Festival, embora sejam iniciativas que aprecia, concentram-se nas zonas históricas da cidade "e muito pouco" além disso. Quando descreve este estado de coisas, admite que o que o incomoda, mais do que a falta de recursos, é a lógica que a sustenta: uma cultura pensada de cima para baixo, que chega aos bairros em formato de evento pontual, mas nunca cria estrutura. Quando se trata de desenhar o que faria diferença, Batalha parte de algo que já construiu para mostrar que o discurso tem aplicabilidade prática. Ele próprio foi cofundador de uma escola de basquetebol em Ponta d'Água e conseguiu o que os programas culturais nem sempre conseguem, tirar jovens da delinquência e da droga, dar-lhes um caminho. Hoje, alguns deles estão na seleção nacional. "É claro que um político ligado ao desporto resolve um problema ou minimiza um problema", diz. "Imagina o que aconteceria se houvesse nos bairros escolas de música e estúdios comunitários?” A pergunta é retórica, mas a lógica nela assente mostra que o modelo existe, funciona noutro domínio, e ninguém está a replicá-lo onde mais faria sentido.

"A finalidade é ser um grande mensageiro"

Hélio Batalha

hélio batalha entrevista

© Janeth Tavares

É dessa convicção - de que a mensagem tem de chegar onde é necessária, e não onde é cómodo entregá-la - que parte a sua definição de rap consciente, etiqueta que usa sem hesitar. "O rap consciente é aquele rap que realmente busca emancipação, busca educação, busca a promoção da nossa cultura e da nossa identidade", diz, remetendo para Afrika Bambaataa e a Zulu Nation como referência fundadora: o rap como coesão comunitária, não como demonstração de virtuosismo. A distinção em relação ao rap gangsta é, na sua opinião, uma questão de responsabilidade. Num bairro como Ponta d'Água, onde a violência juvenil era uma realidade presente e o rap chegava aos jovens com uma autoridade que outras linguagens não tinham, o que um MC escolhia cantar tinha consequências. Glorificar a rua ou fazer apologia ao crime era alimentar algo que podia virar-se contra si. Recusá-lo era fazer uma escolha sobre o papel que a música podia ter. "Quanto mais simples a mensagem for, mais ela é real e atinge o objetivo", diz. Não rejeita o lirismo - nos primeiros trabalhos, diz ele próprio, havia lirismo a mais - mas subordina sempre a elaboração técnica à função. "A finalidade é ser um grande mensageiro." E quando canta em crioulo para os cabo-verdianos da diáspora em Lisboa, não é para conquistar o mercado português, é para que “os jovens cabo-verdianos em Lisboa entendam a mensagem e comecem a ocupar os espaços que são necessários."


O alargamento do "nós" - de Ponta d'Água para Lisboa, de Santiago para o continente - está no centro do segundo álbum. Di Cairo a Cabo (2023) atravessa África de norte a sul ao juntar 13 ritmos e 13 personalidades históricas, e ao propor uma leitura do rap crioulo que recusa a insularidade geográfica ou cultural. "Quando falo 'nós', não é Cabo Verde, é África. Quando falo 'o meu people', não são só os cabo-verdianos, é todo o continente." Amílcar Cabral - “a nossa maior referência", nas suas palavras - é o ponto de ligação entre esta visão pan-africana e a tradição político-cultural que moldou o próprio arquipélago. A colaboração com o moçambicano Azagaia em "Imortal" materializou esse argumento: dois rappers de países diferentes a partilharem a tese de que a cultura africana sobrevive quando é praticada, falada, preservada. A morte de Azagaia, em março de 2023, transformou a música no que o título já anunciava.


Ao longo de quase vinte anos, Batalha atuou em todas as ilhas habitadas do arquipélago, partilhou palco com Mayra Andrade, Fattú Djakité, Elida Almeida, Loony Johnson, Azagaia e Os Tubarões, e foi um dos primeiros rappers de Santiago a atuar no festival Baía das Gatas, em São Vicente, com boa receção. Karlon, fundador dos Nigga Poison e figura de referência do rap lusófono, resumiu o que sentiu ao ouvi-lo: "Sentes na música que ele não é de Santiago. É de Cabo Verde." O single "Dexam Bua" ultrapassou os 4,6 milhões de visualizações no YouTube, um número que, no contexto do rap crioulo, diz algo sobre a escala que uma mensagem pode atingir sem depender do sistema para circular. Em 2025, o single "Só Deus", em colaboração com Paulinha, valeu-lhe os prémios Música do Ano, Melhor Colaboração e Melhor Hip Hop nos Cabo Verde Music Awards. Nesse mesmo ano, foi também reconhecido como uma das 100 Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia na Powerlist BANTUMEN 100.


A criação da Immortal Recordz, label e produtora musical independente que fundou após romper com a Harmonia Música, formalizou o que já tinha para si como prática: produzir, distribuir e promover fora das lógicas que o excluíam. Lançada a 4 de julho de 2025 - véspera das comemorações dos 50 anos da independência de Cabo Verde - com o single "Pirigrinu", a label nasce com o propósito de dar voz, estrutura e visibilidade às criações artísticas das periferias.


O terceiro álbum, Testamentu, representa uma inflexão deliberada que decorre naturalmente de tudo o que veio antes. Depois da viagem continental de Di Cairo a Cabo, Batalha regressa ao particular com temas como “Karta Pa Nha Mai” e “Karta Pa Nha Filha”, duas  músicas “mais internas, mais pessoais, mas que ao fim e ao cabo acabam por refletir-se na comunidade inteira." Sobre a continuidade do projeto, não descarta a possibilidade de "fazer Testamentu 1, Testamentu 2, 3, 4 com o mesmo enfoque na mensagem." O álbum será apresentado ao vivo pela primeira vez em Portugal a 9 de maio, no Lisboa ao Vivo, num concerto que descreve como "uma viagem por toda a discografia" e que, na sua visão, deve ser "um concerto de confraternização que une, que passa a mensagem, que junta antiga e nova geração." Entre os convidados confirmados estão Mark Delman, Lura, Raziel e Loony Johnson; no palco estarão também jovens da comunidade de Ponta d'Água, alguns a fazer rap há menos de um ano, a quem Hélio cedeu espaço. "Não só cabo-verdianos, mas toda a malta dos PALOP, todos os portugueses", diz sobre quem espera ver na plateia. É o mesmo gesto da escola de basquetebol, da Immortal Recordz e daquilo que entende que a cultura deve fazer: dar lugar, criar estrutura, incluir numa lógica horizontal em que as margens são em si mesmas o centro.

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