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"Vergonha é roubar e ser apanhado" é o título do novo EP de Hernâni da Silva Mudanisse, rapper e compositor moçambicano nascido em Maputo em 1989. Lançado em abril de 2026, é o seu primeiro projeto do ano e sucede a quatro obras editadas em 2025 - Cabrito EP, Food & Shelter, Músicas Perdidas 5 e Músicas Perdidas: 2 Goats Edition, este último em parceria com Laylizzy.
O título funciona como tese e descreve uma inversão moral que o artista identifica no quotidiano moçambicano e que o EP desenvolve ao longo das suas faixas. Na sua leitura, o que se alterou não foi a existência do fenómeno, mas a referência que o orienta: o problema deixou de ser o ato de roubar e passou a ser o risco de ser apanhado. É essa transferência que o projeto coloca no centro.
Hernâni não apresenta o fenómeno como novidade, mas sublinha que algo se alterou no modo como é percebido. "Sinto que agora está mais exposto, mas também mais frequente e mais fácil", diz. O que o preocupa não é apenas a frequência, mas a erosão da reação coletiva. "As pessoas que roubam já não têm muito receio e vergonha, e nós que testemunhamos a coisa também já começamos a ver como normal, o que não devia ser."

DR
O EP constrói-se mais em torno das causas do que dos seus efeitos e o rapper liga o comportamento ao contexto, identificando falhas acumuladas "desde a base até ao nível alto", em setores como saúde, educação e habitação. Defende que o crescimento populacional, a estagnação das condições de vida e o aumento da frustração criam o terreno para o que descreve como criatividade forçada. "Isso de certa forma contribui para que as pessoas fiquem 'criativas', para tentar virar o jogo e fazer a vida, simples que seja." A palavra surge entre aspas como reconhecimento de uma lógica adaptativa que não equivale à justificação moral.
Quando o discurso toca na impunidade, mantém o mesmo registo direto que percorre o resto do EP. "Não é nenhum segredo", diz. O que o incomoda é a leveza com que as responsabilidades são tratadas, atitude que descreve através de uma imagem concreta: "Há uma falta de delicadeza no que diz respeito às consequências. Havendo 100% de certeza das intenções, bater três vezes nas costas não pode ser a única punição." A imagem aponta para uma responsabilização que se tornou simbólica, e em que a punição existe como gesto, mas não como consequência efetiva.
Do ponto de vista da produção, o EP resultou de um processo que se expandiu durante a criação. O que estava inicialmente previsto como uma faixa isolada tornou-se um projeto completo através da colaboração com Malz Beatz. "É um producer de mão cheia", resume. A participação de Jay Arghh - com quem partilha faixa em Isso É Um Roubo - é descrita como extensão natural do conceito e não como adição calculada. "Foi o casamento perfeito."
O EP termina sem fechar as questões que o motivaram e o artista admite-o explicitamente - "fiquei com as mesmas questões." A posição é coerente com a intenção declarada do projeto, que é criar condições para que o debate aconteça em vez de propor respostas. "Food for thought. Let's think and talk."
Hernâni iniciou a sua carreira em 2003, aos 14 anos, no grupo 360 Graus, mais tarde reconfigurado como Young Sixties. Desde então, construiu uma discografia extensa no rap moçambicano, que inclui projetos a solo, colaborações e mixtapes. É formado em Engenharia Informática e Telecomunicações em Portugal, e irmão da cantora Dama do Bling.
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