Guiné-Bissau e Cabo Verde: “Dus kurpu, um korson”, para quando efetivamente?

20 de Janeiro de 2026
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Amílcar Cabral

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Na nossa história coletiva enquanto Povo que se uniu para combater o colonialismo, temos, ao longo do ano, várias datas simbólicas que nos levam a celebrar, a refletir e ao mesmo tempo a questionar o percurso histórico que as nossas jovens nações estão a trilhar. Nessas datas todas, há sempre uma em que, necessariamente, nos juntamos todos para honrar os Antigos Combatentes da Liberdade da Pátria - 20 de janeiro, Dia dos Heróis Nacionais. Essa data é tão importante que, anualmente, devemos encará-la como dia de profunda reflexão, não só a título individual, enquanto seres que se identificam com a gloriosa luta que deu a independência, como também ao nível das macro-estruturas que compõem os dois Estados que, outrora, se uniram para se libertarem do jugo colonial.


Vivemos um tempo que, “o parar” está a tornar-se escasso, ainda para mais, parar para conversar sobre questões profundas, tanto as que dizem respeito a nós mesmos enquanto indivíduos, como aquelas que nos dizem respeito enquanto coletivos, que procuram congregar ideias, reflexões e ações em prol do verdadeiro desenvolvimento dos nossos territórios. Torna-se ainda mais complexo, quando duas nações que nasceram no mesmo mato não criam possibilidades de interagir organicamente, através de diálogo integrador, para o bem dos seus povos.


Por um lado, vemos uma Guiné-Bissau a sangrar mais do que nunca, com uma democracia morta, instituições disfuncionais e o povo feito refém, sem capacidade de mobilização para contornar as manobras de implantação de um regime autoritário. Ainda assim, o povo resiste, embora distante das decisões estruturais que orientam a vida de um País. Por outro lado, um Cabo Verde, estruturalmente funcional, cujas instituições estão em vias de uma verdadeira consolidação, a democracia cada vez mais sólida e o povo a participar das ações que orientam as suas vidas enquanto nação que se quer prosperar.

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“Torna-se ainda mais complexo, quando duas nações que nasceram no mesmo mato não criam possibilidades de interagir”

Mamadu Alimo Djaló

É verdade que, ao longo do percurso, houve questões estruturais que levaram à separação das duas nações, mas é tempo, mais do que urgente, de os líderes políticos, comprometidos com os valores fundacionais das duas Repúblicas, se permitirem refletir a partir da ideia base “Unidade e Luta” para uma construção afirmativa do ideal fundamentado na irmandade.


“Dus kurpu, um korson” é um pensamento que já se vê na realidade, a partir de várias colaborações individuais e coletivas de filhos destes dois territórios, mas que pode ganhar contornos maiores quando assumido por dois Estados como forma de se auto-emanciparem, tornando cada vez mais próximos os dois países. Ambos com meio século de existência. Um, um bocadinho mais do que o outro, mas ainda falta marcar na história coletiva a existência, contínua e sustentada, de um Fórum ou Conferência Binacional, que junte a Guiné e Cabo verde para um diálogo profundo, criando reflexões político-culturais que permitam pensar e agir sobre domínios que, tanto um como outro, sairão beneficiados.


Algumas contribuições e diálogo comum poderiam passar pela: a) educação, através da formação de professores, tanto no ensino básico como universitários. Pois, há, ainda, um grande défice no que toca a qualidade de ensino guineense a partir daquilo que poderia ser, não só o compromisso pedagógico, como também do próprio conhecimento pedagógico dos professores; b) administração pública e toda a funcionalidade do aparelho de Estado, a partir da ideia de reconfiguração de todo o modelo existente atualmente e tornar essa estrutura distante das nomeações político-partidárias, mas também a reorganização das funcionalidades da Segurança Social tanto em Cabo Verde como na Guiné-Bissau; c) institucionalização das autarquias, neste terceiro aspeto, possibilitar diálogo que permita um avanço mais acelerado no contexto guineense. Infelizmente, há um entrave motivado pelo Golpe de Estado, mas não impede que figuras políticas, investigadores e técnicos, comprometidos com os princípios democráticos, ajam com vista à afirmação dessa base de diálogo. Permitindo, assim, criar oportunidades de sinergias para alavancar e/ou fortificação de democracia, das instituições e ao mesmo tempo de afirmações estruturais que possam permitir às duas nações andarem de mãos dadas, colaborando e erguendo juntos.

“É tempo de os líderes políticos se permitirem refletir a partir da ideia base para uma construção afirmativa do ideal fundamentado na irmandade"

Mamadu Alimo Djaló

Pois, se outrora a ideia magna que uniu os dois territórios se baseou muito na irmandade, compaixão, entrega e determinação afincada para a libertação dos povos da Guiné e Cabo Verde, atualmente estamos perante desafios que passam pela afirmação dessa memória coletiva de forma mais efetiva e ao mesmo tempo de manter um diálogo permanente que possibilite reflexões que se traduzam em ações coletivas de transformações das diferentes realidades.


Deste modo, poderemos, continuadamente a orgulhar-nos das nossas ações, frutos de valores e princípios que nortearam a fundação de dois Estados livres do jugo colonial, como também manteremos a irmandade que assumimos existir entre os dois povos. Caso contrário, embora com caminhos diferentes, continuaremos a desvirtuar o que os combatentes ergueram para afirmar. Ainda é tempo de poder amparar um ao outro em diferentes domínios, mas acima de tudo, manter a memória muito viva e transmiti-la de geração em geração. E para que essa memória se mantenha viva é fundamental assumir tudo isto como ato de responsabilidade, longe da alimentação de dinâmicas e narrativas que vão contra os preceitos históricos que levaram os antigos combatentes a entregar-se para que hoje nos tornemos homens e mulheres independentes.

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