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Hoji Fortuna é uma presença difícil de decifrar à primeira vista. Além de uma carreira carregada de transformações e sucessões de papéis, a sua vida é atravessada por perdas precoces, deslocações, escolhas improváveis e reinvenções sucessivas que se acumulam silenciosamente na forma como ocupa os espaços por onde passa.
Talvez seja por isso que, mais de duas décadas depois de ter surgido como uma das primeiras figuras mediáticas dos reality shows em Portugal, continue a acontecer algo curioso: há quem o reconheça na rua, quem tenha a sensação de já o ter visto em algum lugar, quem procure na memória o momento exato em que o conheceu e, no entanto, nem sempre consiga dizer de onde vem essa familiaridade, como se Hoji fosse ao mesmo tempo lembrança, presença e história ainda por contar.
A trajetória de Hoji não é linear. Nunca foi. Estudou Direito em Angola. Tornou-se órfão de pai muito cedo e logo de seguida de mãe ainda jovem. Entre uma coisa e outra, houve uma guerra civil, deslocações e responsabilidades precoces. “Eu tornei-me chefe de família muito cedo”, recorda. E essa frase, dita sem dramatismo, explica muito do que viria depois.
“Eu digo nãos. Se [o papel] não tiver humanidade, não faço.”
Hoji Fortuna

©BANTUMEN

©BANTUMEN
Nasceu em 1974, em Luanda. Cresceu entre casas de familiares, entre bairros com e sem eletricidade, entre o tanque onde lavava roupa à mão e o pequeno luxo de assistir a novelas na única casa com luz elétrica da zona. Nada daquilo parecia apontar para uma carreira artística. “Na nossa geração, ninguém crescia a querer ser ator. Era médico, engenheiro ou advogado”, diz-nos para explicar o seu percurso académico que enveredou pelo Direito, na Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, e como um dos alunos melhores classificados do país.
Naquela altura, a morte da mãe interrompeu qualquer ideia de percurso previsível. Veio para Portugal, primeiro para estudar administração autárquica em Coimbra, depois para retomar Direito na Universidade Católica do Porto. E foi precisamente nesse intervalo entre o que se esperava que fosse e o que começava a sentir que era, que a fissura surgiu. “Fiz o segundo ano, mas já há algum tempo que alguma coisa me dizia que o caminho não era aquele. Comecei a ficar cada vez mais desiludido, de certa forma, com a trajetória que a minha vida estava a seguir, porque sentia que estava a seguir as pisadas do meu pai - uma figura ausente no plano físico, que existia apenas na memória daquilo que as pessoas me contavam - e havia algo que não estava a ressoar muito bem comigo. Decidi então parar para refletir sobre aquilo que queria verdadeiramente fazer da vida. Entrei em crise, diria até mesmo em depressão. Claro que, naquela altura, não fui diagnosticado.”
Abandonar o curso mais do que mudar de direção, era romper com a ideia de continuidade, com o legado paterno, com a segurança socialmente aceitável. Foi também um mergulho em trabalhos precários: construção civil, armazéns, entregas, etiquetagem de roupa. Experiências que Hoji não romantiza, mas que também não rejeita. “Tudo isso contribuiu para o meu enriquecimento pessoal.” Antes de se assumir ator, foi modelo artístico nu na Faculdade de Belas-Artes do Porto, DJ, estudante de teatro, fez workshops nos Estados Unidos, Londres, entre várias outras coisas. Foi uma construção lenta, consciente e sem saltos mágicos.
A participação no reality show “O Bar da TV”, transmitido pela SIC, em 2001, e do qual se sagrou vencedor, foi uma estratégia. “Usei aquela plataforma para me tornar visível”, explicou. Mas o resultado não foi o imaginado. Não surgiram as oportunidades esperadas, ainda assim, surgiram outras. Na altura, programas como “Os Malucos do Riso” e “Levanta-te e Ri” eram muito populares e Hoji lançou-se na criação de um espetáculo de stand-up comedy num bar de hip-hop em Lisboa, na tentativa de encontrar vozes negras que não estavam a ser representadas no humor televisivo português. “Não existe no mundo pessoas mais cómicas do que nós africanos e sempre achei estranho ligar a televisão e só ver pessoas brancas a fazer stand up”, afirmou.
“Se partilham o guião comigo, já é um sinal de respeito”
Hoji Fortuna

©BANTUMEN
Essa inquietação acompanha-o até hoje. Entre papéis e recusas, nunca foi um ator que aceitasse qualquer coisa e isso tem custo. “Eu digo nãos”, exclama. Diz não a personagens que reforçam estereótipos e a narrativas que reduzem homens negros à violência ou à subalternidade. Diz não mesmo sabendo que isso pode significar menos trabalho. “Se não tiver humanidade, não faço.”
Há uma consciência política no percurso de Hoji que ressalta em quase tudo o que o artista aborda. Fala da necessidade de dignificar as pessoas que representa, de não perpetuar imagens que “podem ser letais”. Há uma tensão constante entre querer trabalhar e querer trabalhar com sentido. Essa tensão atravessa também a sua relação com o cinema internacional. Em 2010, protagonizou Viva Riva!, rodado em Kinshasa, que lhe valeu reconhecimento na Academia Africana de Cinema. Foi um regresso simbólico ao continente depois de 14 anos sem pisar Angola. Fazer este filme no Congo “foi resultado das preces que já andava a fazer. Senti-me como se estivesse em casa. Foi uma experiência fantástica”, confessou o artista, explicando que o Congo é um reino ancestral da nossa identidade africana e não é um caso que ali sejamos invadidos por um sentimento de pertença. “Há alguma coisa naquela terra, que nos faz sentir automaticamente de lá. Nunca me senti estrangeiro em Kinshasa”, acrescentou.
Falando de projetos que de alguma forma foram especiais no seu currículo, já nos Estados Unidos, participou em In the Morning, um drama independente, renascentista negro, passado em Brooklyn, centrado em personagens negras complexas, vulneráveis e afetivas. “Foi a primeira vez que senti que não estávamos a ser representados como estereótipos”.
Quando recebeu o guião de Banzo, de Margarida Cardoso, pediu para ler o texto completo antes de aceitar. É um hábito seu. “Se partilham o guião comigo, já é um sinal de respeito.” O filme - escolhido por Portugal para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, e que lhe valeu uma nomeação à shortlist dos Prémios Platino Del Cinema, na categoria de Melhor Ator Secundário - aborda o período pós-escravatura em São Tomé. Para Hoji, a relevância estava na possibilidade de confrontar uma narrativa histórica ainda romantizada em Portugal. Mas ver o filme não foi fácil. “Senti-me desconfortável. É como reviver um trauma.” Mesmo sabendo que era ficção, o autor e realizador reconhece que há memórias que atravessam gerações. “A memória não é só biológica ou cultural. Há outras dimensões.”
Hoji não romantiza o desconforto nem transforma a dor em slogan fácil de consumo. Não há ali tentativa de embelezar aquilo que é estruturalmente duro ou de converter feridas históricas em narrativa conveniente. O que há é a consciência de que o cinema, quando feito com honestidade, pode abrir fissuras necessárias - no silêncio, na amnésia coletiva, nas versões simplificadas do passado. Ao mesmo tempo, não deixa de questionar o investimento reduzido na promoção internacional do filme, sobretudo quando comparado com campanhas robustas que outros países mobilizam para posicionar as suas obras no circuito global. “Pergunto-me se há constrangimento por abordar esse período da história”, diz, deixando no ar uma reflexão que ultrapassa o próprio filme e toca na forma como escolhemos - ou evitamos - contar certas histórias.
O ator evita falar em teorias ou em grandes abstrações que, muitas vezes, servem apenas para suavizar realidades difíceis de nomear. Prefere falar daquilo que se vê, daquilo que se sente no terreno e que qualquer pessoa que trabalhe na área reconhece sem grande esforço: as discrepâncias visíveis entre oportunidades, os papéis que existem para uns e raramente para outros, os caminhos que parecem sempre depender da decisão de alguém que está fora da sala.
É nesse registo direto, quase desarmante, que surge uma das frases mais inesperadas da conversa. “Eu não aconselho os meus filhos a serem atores”, diz, sem dramatismo, mas com a serenidade de quem conhece bem as estruturas que sustentam esta profissão.
“Se eu não contar as nossas histórias, alguém vai contá-las por mim”
Hoji Fortuna

©BANTUMEN
Não se trata de desprezo pela arte nem de uma visão amarga do ofício. Pelo contrário, a afirmação nasce de um respeito profundo pelo que significa viver do trabalho artístico. A atuação, lembra, depende muitas vezes de decisões que estão fora do controlo de quem está em palco ou diante da câmara. Depende de escolhas de realizadores, produtores, programadores, de ciclos de financiamento, de tendências de mercado. É uma profissão marcada por instabilidade, por períodos longos de espera e pela escassez de papéis que permitam explorar verdadeiramente a complexidade de certas personagens. “É uma ratoeira se for para depender disso para viver”, explica, como quem prefere não alimentar fantasias.
Ainda assim, não existe na posição qualquer tentativa de fechar portas ou de impedir que os filhos descubram o mundo artístico por si próprios. Hoji acredita no valor da experiência, na importância de experimentar caminhos diferentes e na aprendizagem que nasce também do erro. O que recusa é a ideia de que a paixão, por si só, basta para sustentar uma vida inteira de trabalho num setor tão irregular. Entre o entusiasmo e a realidade, prefere que exista lucidez. Não para matar sonhos, mas para que, caso decidam segui-los, o façam sabendo exatamente o terreno que pisam.
Foi talvez dessa inquietação que nasceu a vontade de realizar, como necessidade de autoria, o desejo de passar de intérprete a alguém que também decide o que é contado e de que forma. “Se eu não contar as nossas histórias, alguém vai contá-las por mim”, sublinha.
A primeira curta-metragem, Elise Bonafé, financiada com meios próprios, acabou nomeada aos Prémios da Academia Portuguesa de Cinema, um feito significativo para um realizador estreante sem apoio institucional. Agora, prepara a segunda: Cinderela de Lisboa - que tal como em Lisbon Affair, é uma história de amor protagonizada por pessoas negras e passada na cidade onde vive há décadas.
Para Hoji, que é “fascinado pelo amor”, a desumanização histórica passou também pela negação da capacidade de amar. Criar narrativas em que homens e mulheres negros vivem relações complexas e íntimas é, para si, uma forma de devolver humanidade às personagens que, durante muito tempo, foram reduzidas a papéis estreitos.
O filme está em fase de candidatura a financiamentos e, desta vez, quer fazê-lo com outra estrutura, com parceiros, condições e sustentabilidade, sem repetir o modelo de sobrevivência da primeira curta.
Ao longo da conversa, uma ideia regressa várias vezes. Hoji não quer ser objeto nas mãos de ninguém. “Eu sou sempre co-criador.” Talvez essa seja a melhor forma de entendê-lo. Não só como ator ou realizador, mas alguém que atravessou diferentes sistemas e escolheu não se deixar reduzir a um único papel.
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