20 anos depois, Hoji Fortuna regressa ao teatro com “Polo Norte”

6 de Julho de 2026
hoji fortuna teatro polo norte
Hoji Fortuna | ©Pedro Jafuno

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Após duas décadas afastado dos palcos, Hoji Fortuna regressa ao teatro para integrar o elenco de Polo Norte, a nova criação da companhia Mala Voadora, em cena na Culturgest. Em declarações à BANTUMEN, o ator afirma que o regresso nasceu da vontade de voltar ao processo criativo e coletivo do teatro há dois anos. “Sentia-me estagnado como ator e precisava de expandir as minhas competências. Sentia também saudades do processo criativo do teatro, que difere do cinema e televisão. O trabalho, enquanto ator de cinema e televisão é bastante solitário, ao passo que a construção teatral é mais comunitária.”


A oportunidade surgiu através de um convite de Jorge Andrade, diretor artístico da Mala Voadora. Hoji confessa que a vontade de regressar tinha surgido há dois anos, mas devido a conflitos de agenda por fazer parte de outro projeto televisivo na época, só pôde mergulhar de cabeça agora, em 2026. Antes do convite da Mala Voadora, Fortuna chegou a ser desafiado pelo Teatro Griot para integrar o espetáculo Na Solidão dos Campos de Algodão. Acabou, contudo, por não aceitar o convite devido às gravações da novela A Fazenda, da TVI, projeto que, entretanto, será também exibido em Angola.


Inspirada no livro Paradise Found, The Craddle of Human Race at the North Pole, de William Fairfield Warren, a peça parte da premissa de que o Jardim do Éden permanece preservado sob o gelo do Ártico e poderá tornar-se novamente acessível devido ao degelo provocado pelas alterações climáticas. A partir daí, o espetáculo, que está em cena até 4 de julho no Auditório Rui Vilar, junta ficção, história, religião e ciência para refletir sobre algumas das inquietações do presente.


©Pedro Jafuno


Para Fortuna, o maior desafio foi precisamente confrontar uma teoria de hoje desacreditada com o conhecimento científico contemporâneo. “Foi desafiante lidar com essa premissa e com aquilo que é o conhecimento científico atual. A teoria proposta pelo autor no século dezoito, é bastante apelativa à época. A nível pessoal, o impacto do conteúdo do espetáculo ressoa com o atual momento social em que teorias da conspiração e negação científica proliferam”, explicou.


Além da dimensão artística, destaca o ambiente vivido durante os ensaios e assume que essa dinâmica de trabalho tem sido uma das componentes mais gratificantes deste regresso aos palcos, tanto pela abertura à experimentação como pela cumplicidade criada entre o elenco e a equipa artística. “Estou a trabalhar com uma equipa fantástica e está também a ser um processo super divertido e com bastantes risadas”, revelou.


Hoji Ya Henda Braga Fortuna nasceu em Luanda e mudou-se ainda jovem para Portugal. Ao longo da carreira, tem dividido o seu trabalho entre o teatro, a televisão e o cinema em Portugal e no estrangeiro. Ganhou projeção internacional com o filme Viva Riva! (2010), pelo qual recebeu o prémio de Melhor Ator nos African Movie Academy Awards e, desde então, integrou produções internacionais como “Game of Thrones” (2014) e “Tribes of Europe” (2021), e produções portuguesas como Banzo (2024) e A Fazenda (2025). Antes deste regresso, o último espetáculo em que Hoji Fortuna participou em Portugal foi A Filha Rebelde, apresentado no Teatro Nacional Dona Maria II, em 2007.


Agora em Polo Norte, o ator regressa aos palcos numa produção que utiliza uma teoria histórica incomum para lançar questões sobre o presente, num momento em que a relação entre ciência, crença e desinformação continua a marcar o debate público.

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