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Depois de conquistar o Botão Dourado na semifinal do Got Talent Portugal e garantir um lugar na final do concurso, Huba tornou-se um dos nomes mais comentados da poesia falada em Portugal. Por trás da atuação que comoveu público e júri está um percurso construído entre o slam, o teatro, a performance e o audiovisual, mas também uma forma muito própria de olhar para a arte, não como ornamento, mas como ferramenta de transformação.
Natural de Angola e atualmente a viver em Lisboa, Huba apresenta-se como um artista multidisciplinar que acredita “fortemente na arte como forma de manifestação, como forma de cura e de impacto social”. A afirmação resume a linha de pensamento que atravessa todo o seu trabalho e ajuda a perceber o que levou ao palco do programa, onde a palavra surgiu sem música e sem distrações, sustentada apenas pela força do texto e da interpretação.
Embora o momento televisivo tenha ampliado a sua visibilidade, Huba prefere definir-se de forma menos contemplativa e mais concreta. “Enquanto artista, defino-me como realizador”, diz. “Sempre acreditei que mais do que sonharmos, é preciso levantarmo-nos para realizar, porque só desejos não mudam nada. É preciso acreditarmos nos nossos sonhos e correr atrás para fazê-los acontecer.” Num tempo em que a narrativa em torno dos artistas passa muito pelo talento e pela sensibilidade, Huba insiste no fazer: construir, dar forma, tornar real o que antes era só intenção.

Huba no Got Talent Portugal
Foi precisamente essa ética de realização que chegou ao Got Talent Portugal sob a forma de um poema híbrido, denso e íntimo. O texto apresentado na semifinal não nasceu para televisão. Segundo o próprio, começou a ganhar forma durante o processo de construção de uma peça de teatro. Era uma matéria que já trazia no peito há algum tempo, alimentada por vivências pessoais e por relatos de pessoas próximas. “Sempre quis trazer isso para fora”, explica. Mais tarde, esse material desprendeu-se do contexto teatral e encontrou no spoken word a forma certa para existir por si.
Antes de ser um texto dirigido ao público, à família ou ao mundo, o poema foi uma conversa interior. “Quando escrevi esse texto, na verdade estava a falar comigo”, afirma. “Tudo o que faço parte primeiro de mim e só depois é que chega às outras pessoas.” A frase ajuda a compreender por que é que a sua poesia, mesmo quando se torna coletiva no impacto, continua a partir de um lugar profundamente pessoal.
A relação entre experiência individual e identificação coletiva é uma das chaves do trabalho do poeta. O próprio reconhece que quando escreve espera que o texto possa tocar tanto quem está diretamente ligado à temática como quem a encontra pela primeira vez através da performance.
Quando questionado sobre a ideia de escolher palavras em vez de armas, Huba propõe uma reformulação. Prefere pensar essas “armas” como dificuldades, tensões, caminhos destrutivos ou energias negativas que se impõem ao longo da vida. “Sempre escolhi a arte como solução, como escape”, admite.
“Na vida vamos ter sempre momentos bons e maus, vamos ter sempre pensamentos bons e maus. Cabe a nós decidir onde queremos canalizar a nossa energia”, diz. No seu caso, essa energia foi sendo sistematicamente empurrada para a criação. “Usei a arte como forma de escape, como forma de solução, como forma de mudança de pensamento, tanto meu como daquelas pessoas que me escutam.”
No caso da participação no Got Talent, Huba acredita que o impacto foi além da história contada e da identificação emocional que o texto produziu. “É o bolo todo”, resume. Para o poeta, o texto, a construção das palavras, a métrica, a interpretação e a forma como o corpo ocupa o palco são elementos determinantes para o efeito final. “Cada elemento tem a sua importância dentro do puzzle todo”, explica.
A passagem pelo programa trouxe-lhe notoriedade e também “uma responsabilidade muito grande” por saber que há pessoas que se inspiram em si e que ouvem atentamente aquilo que faz. A partir daí, a ideia de que cada um faz o que quer da sua vida deixa de lhe parecer suficiente. Huba acredita que a arte tem consequências e, por isso, exige consciência: o que se diz, o que se representa e a forma como se ocupa o espaço público não são neutros, porque, dentro e fora do palco, aquilo que se associa ao seu nome acaba sempre por influenciar ou marcar os outros de alguma forma.
Essa perspetiva ajuda a entender a forma como fala daquilo a que chama “marca Huba”. Não se trata de uma marca no sentido comercial ou vaidoso da expressão, é antes ver reconhecidos os valores que procura ligar ao seu trabalho. “Eu acredito muito no respeito, no amor, na empatia, na humanidade no geral”, diz. “Quando sinto que as pessoas estão a conhecer a marca Huba e, consequentemente, os valores associados a ela, para mim é a realização de um sonho.”
O Botão Dourado, neste contexto, surge como mais um passo dentro de uma caminhada, que o próprio recusa ver reduzida a um instante televisivo, por mais forte e simbólico que ele tenha sido. O Got Talent, como conta, alargou a audiência, mas não mudou o centro daquilo que o move.
“Amem-se uns aos outros”, afirma, em jeito de conclusão, ao mesmo tempo que aproveita para retomar a ideia de amor como princípio orientador e resposta possível à violência, à desumanização e aos males do mundo. Para Huba, é nessa palavra, pequena e cheia de significado, que continua a estar a base da vida, da criação e da forma como escolhe permanecer inteiro.
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