Como Idio Chichava está a transformar a dança contemporânea em Moçambique

3 de Fevereiro de 2026
idio chichava entrevista
Idio Chichava ©️ Beatrice Borgers

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A dança contemporânea moçambicana tem vindo a afirmar-se como um território de investigação relevante no panorama africano, e o percurso de Idio Chichava ajuda a explicar porquê. O coreógrafo, formado entre práticas tradicionais e um diálogo atento com metodologias internacionais, construiu uma linguagem enraizada no quotidiano, na memória e na experimentação, recusando a estilização folclórica e a adopção acrítica de modelos europeus. O seu trabalho parte da convicção de que o corpo é um arquivo vivo, capaz de guardar memória e produzir pensamento, compreensão que começou a ganhar forma nos rituais e festas de Moçambique, ambientes onde a dança se organiza como leitura direta da comunidade.


Idio fala desses contextos como a base da sua formação: “As danças tradicionais sempre foram a minha igreja e a minha escola.” Nesse espaço, o movimento é uma ferramenta de atenção, um modo de participar na vida coletiva e uma forma de escutar o ambiente. A improvisação surge como consequência natural de estar em relação com o que o rodeia. Foi ali que percebeu que o corpo pensa e que a criação nasce desse diálogo permanente com o mundo imediato.


A intuição encontrou novo fôlego quando coreógrafos estrangeiros passaram por Maputo e trabalharam com bailarinos locais. O encontro com Thomas Albert e David Zambrano, em particular, confirmou-lhe que a sabedoria do corpo podia ser tomada como método. “Eles deixaram espaço para a inteligência do corpo”, recorda. A experiência consolidou a ideia de que a tradição moçambicana contém um repertório contemporâneo em potência, capaz de dialogar com outras cenas internacionais sem perder origem nem autenticidade.

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“Não me interessa a idade do corpo, nem o tamanho do corpo. Interessa-me o treino, a disponibilidade.”

Idio Chichava

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DR

Nas escolas tradicionais, lembra, o corpo não dança sozinho: “Dança-se e canta-se. A voz completa o movimento.” A fusão moldou o seu vocabulário artístico e estruturou a forma como constrói dramaturgia. A fisicalidade coletiva que atravessa os seus projectos, o modo como os corpos se convocam mutuamente e a centralidade do quotidiano moçambicano conferem às suas obras uma coerência que assume como parte incontornável da sua identidade. “É daqui que eu venho. É isto que eu tenho. É por aí que começo a criar.”


A tradição, porém, não dispensa técnica e o coreógrafo insiste que a entrega que procura em palco só se sustenta com preparação. “Não me interessa a idade do corpo, nem o tamanho do corpo. Interessa-me o treino, a disponibilidade.” Defende um trabalho de estúdio disciplinado, atento às possibilidades e limites do corpo, capaz de sustentar uma dança que ambiciona circular globalmente. Para ele, a cena moçambicana tem potencial para ganhar projeção internacional, desde que os artistas disponham de tempo e estrutura para aprofundar métodos e processos.


É nessa lógica que se inscreve a dimensão comunitária do seu trabalho, uma das áreas que mais revela o lugar onde quer situar a dança moçambicana. Os intérpretes que o acompanham participam na criação coreográfica e integram as rotinas diárias da própria estrutura, colaboram na produção, na organização interna e na logística. “Eles estão ao serviço da dança”, diz, não no sentido hierárquico, mas como forma de garantir que a obra se constrói de forma coletiva e consciente. A ideia de que cada bailarino é responsável por mais do que o seu corpo traduz uma visão ampla do que significa dançar em Moçambique, onde muitas vezes falta a rede institucional que noutros contextos assegura a continuidade dos projetos.


Dessa prática nasce a Converge+, plataforma que descreve como “ponto de colaboração artística, de encontro e de laboratório”. O espaço funciona como estrutura de criação e convivência, onde os intérpretes são incentivados a pensar criticamente o próprio processo, a experimentar leituras, a partilhar dúvidas e soluções. Idio sublinha frequentemente que “cada bailarino é uma instituição”, reforçando a importância da autonomia e da responsabilidade individual dentro de uma inteligência coletiva. A Converge+ cumpre assim um papel duplo: sustenta os projetos artísticos e forma uma geração de intérpretes habituada a pensar a dança para além da execução técnica, integrando produção, crítica, gestão e relação com o público.

“Todo o mundo tem um corpo e é a partir dele que lembramos a nossa humanidade”

Idio Chichava

idio chichava entrevista

Vagabundus, de Idio Chichava | DR

O entendimento alarga-se ao modo como concebe a circulação das obras. Para o bailarino formar artistas é inseparável de formar público. Aproximar a periferia e o centro é, por isso, condição fundamental para evitar que a dança se torne elitista. A obra deve regressar aos lugares onde foi imaginada, aos contextos que lhe dão matéria. “A dança tem de estar ao serviço das pessoas. Não pode ficar presa a códigos que afastam”, afirma, sintetizando uma posição que emerge de forma particularmente clara em “Vagabundus”.


A peça, uma das suas criações recentes, constitui um ponto de inflexão no modo como pensa o corpo dançante em Moçambique. “Temos de começar a fazer com que as pessoas leiam dança a partir do que nós dançamos aqui, da forma como pensamos”, explica. “Vagabundus” parte precisamente dessa urgência: desafia a perceção dominante sobre quais são os corpos autorizados a ocupar o palco contemporâneo e qual estética é legitimada. Idio coloca em cena corpos que carregam quotidiano, ritmo, cicatrizes e memória, numa recusa perante a expectativa de neutralidade frequentemente associada à dança contemporânea ocidental. “Todo mundo tem um corpo, todo mundo sente dores”, diz, sublinhando que a obra convoca essa humanidade partilhada para desmontar fronteiras simbólicas e geográficas. A peça insiste que não há lugar onde um corpo moçambicano não possa estar — “somos seres do mundo” — e torna visível uma ética de presença que atravessa todo o seu trabalho.


Foi nesse horizonte que o Prémio SEDA, atribuído pela Fundação Gulbenkian, assumiu um papel determinante e representou uma viragem ao permitir avançar com a criação de um estúdio de trabalho na periferia de Maputo, um projeto há muito desejado. “Não temos espaços onde a obra possa ser acompanhada, onde se possa testar, errar, refazer. Falta um lugar intermédio entre a ideia e o palco.” O estúdio procura ocupar esse espaço de maturação e funcionar como laboratório onde processos podem ganhar tempo e contexto. A construção, pensada em diálogo com o bairro, avança apesar dos constrangimentos financeiros: terreno adquirido, licenças tratadas, projeto arquitectónico fechado e paredes a erguerem-se. “Está feito cerca de 45% do caminho”, resume. Mais do que obra física, Idio vê ali um gesto transformador: “Só o facto de começar já muda tudo.”


Para além da criação, o estúdio quer ser espaço de formação contínua, onde jovens bailarinos experimentem metodologias, testem fisicalidades e aprendam produção. “Temos de criar condições para que os artistas moçambicanos preparem obras prontas para o mercado”, afirma, ao defender um modelo que produza a partir de Moçambique e não para responder a expectativas externas. Essa ambição inclui repensar modelos de produção: “Não me interessa copiar um estúdio europeu. Quero pensar como é uma produção moçambicana, com os nossos ritmos, as nossas formas de resolver as coisas.”


A visibilidade internacional traz responsabilidades, mas Idio resiste à ideia de moldar o trabalho a narrativas que encaixam artistas africanos em categorias pré-fabricadas. “Temos de trabalhar como moçambicanos com o que Moçambique oferece. O mundo há-de receber isso pelo que é.” Ao projetar o futuro, descreve-o como algo que já se insinua no presente: Moçambique com potencial para afirmar-se como plataforma da dança contemporânea africana. “Imagino o país como uma janela para onde todo mundo vai querer vir aprender connosco.”

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