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O que significa estar em casa quando a vida nos leva por países, culturas e experiências diferentes? É a partir desta pergunta que a cantora e compositora moçambicana Isabel Novella constrói NKATI, o seu terceiro álbum de originais, editado na sexta-feira, 9 de outubro. O disco reúne 11 temas e propõe uma viagem pela memória individual e coletiva, cruzando a tradição musical de Moçambique com o jazz, a afro-soul e outras linguagens contemporâneas.
A palavra “nkati” pertence à língua chope, falada no sul de Moçambique, e significa “dentro” ou “no interior”. O título é o ponto de partida de um projeto que entende a casa não só como espaço geográfico, mas também como lugar emocional, construído com memórias, relações e experiências acumuladas ao longo da vida. “A casa não é apenas um lugar físico, mas também um espaço interior que transportamos ao longo da vida, um lugar onde permanecem memórias, medos, sonhos, feridas e esperança”, explica a artista no comunicado de apresentação.
A ideia atravessa um disco que liga experiências pessoais a questões sociais mais amplas, da migração à violência de género, passando pela preservação ambiental e pela transmissão de conhecimento entre gerações. A memória aparece aqui como um território partilhado, onde histórias individuais diferentes podem encontrar pontos de contacto.
A dimensão familiar do projeto vai além das letras. A produção ficou a cargo de Isildo Novella, baixista, compositor e irmão da cantora, com quem Isabel tem uma relação artística anterior a este lançamento. Em Metamorfose, o segundo álbum, lançado em 2019, Isildo foi baixista e coprodutor de vários temas. Em NKATI, assume a produção do disco inteiro. O processo criativo partiu de histórias, vivências e referências culturais partilhadas pelos dois, com a intenção de as transformar numa linguagem que ultrapassasse o contexto familiar. “Recorremos a memórias, histórias, vivências e experiências para criar uma obra particular, mas capaz de dialogar com experiências universais”, afirma a cantora.
Musicalmente, o álbum mantém a ligação às tradições rítmicas moçambicanas sem as tratar como peças de museu. O cruzamento com o jazz, a soul e a música contemporânea põe essas referências num espaço de experimentação.
As 11 faixas de NKATI olham para diferentes dimensões da experiência humana. Em “Karingana”, apresentada antes do lançamento do álbum, Isabel Novella recupera a tradição de contar histórias à volta da fogueira, um momento de encontro e de passagem de saberes entre gerações, para falar da importância de ouvir e de preservar as narrativas comunitárias. Em “Boneca de Pano”, regressa às memórias de infância e à capacidade de transformar objetos simples em mundos inteiros de imaginação.
“Ingisa” fala da necessidade de criar espaços seguros onde as pessoas possam ser ouvidas, e “Massikine” confronta a violência de género e o feminicídio. Em “Heal The Earth”, a ideia de casa alarga-se ao planeta e à responsabilidade coletiva de o preservar. O tema conta com a cantora dinamarquesa Rikke Lie e com o baterista e compositor francês de ascendência marfinense Manu Katché. O rapper moçambicano SGee junta-se em “Gira Sol” e traz outra linguagem ao conjunto.
Nascida em Maputo, Isabel Novella construiu parte do seu percurso entre Moçambique, a África do Sul e os Países Baixos. A relação com a música começou na infância e, desde a adolescência, integrou vários projetos musicais. A carreira a solo ganhou projeção com o álbum homónimo Isabel Novella, lançado em 2013 pela Native Rhythms Productions, em parceria com a Sony Music Africa, que incluiu uma colaboração com o pianista norte-americano Bob James, conhecido pelo trabalho com os Fourplay. No mesmo ano, foi nomeada para o Prémio Découvertes RFI, e a canção “Moya” foi nomeada para os AFRIMMA de 2014.
Seis anos depois, lançou Metamorfose, que lhe valeu uma nomeação para os South African Music Awards em 2020. Depois disso, afastou-se temporariamente dos discos e dedicou-se também a projetos internacionais de teatro e performance. NKATI marca o regresso à edição discográfica, sete anos depois de Metamorfose.
A edição internacional do álbum está a cargo da editora independente dinamarquesa Nice One Music, com licença exclusiva. O disco está disponível em formato digital e em CD, e há uma edição em vinil prevista para novembro. O concerto de apresentação foi na sexta-feira, dia do lançamento, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.
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