Isabel Zuaa e a história silenciada que chegou à corrida aos Óscares

27 de Janeiro de 2026
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Isabel Zuaa | © Elite Lisbon

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Isabel Zuaa é a única atriz portuguesa a integrar o elenco de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que entra na corrida aos Óscares com quatro nomeações – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco. No filme, protagonizado por Wagner Moura, Zuaa interpreta Tereza Vitória, uma refugiada política angolana cuja presença, construída a partir do silêncio e da contenção, amplia o alcance político de uma narrativa centrada no Brasil dos anos 70.


A participação em O Agente Secreto inscreve-se numa fase de trabalho continuado da atriz no cinema e na televisão, em produções de diferentes geografias. Para além do filme agora nomeado para quatro Óscares, a atriz integra também o elenco da série Reencarne, da plataforma Globoplay, reforçando uma presença regular no audiovisual brasileiro, em paralelo com o seu percurso no cinema europeu e no teatro.


Para Isabel Zuaa, o reconhecimento explica-se pelo tema ou pelo contexto histórico retratado, mas também pela forma como o filme articula passado e presente sem recorrer a fórmulas evidentes. “Assim como outros filmes chegam até nós, vindos de realidades distantes, o contexto Pernambuco–Brasil dos anos 70 chega de forma lúdica e potente ao circuito internacional”, afirma. Ainda durante as filmagens, recorda, tornou-se claro que o filme teria um percurso sólido. “O guião revê essa época específica da história, mas traz também questões contemporâneas, através de convenções cinematográficas ousadas. Pelo ambiente no set e pela força do texto, não tive dúvidas de que o filme teria este alcance. É mais que merecido.”

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"Pelo ambiente no set e pela força do texto, não tive dúvidas de que o filme teria este alcance. É mais que merecido"

Isabel Zuaa

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DR

Tereza Vitória surge no filme como parte de um grupo de angolanos perseguidos politicamente e funciona como pano de fundo humano e político da narrativa principal. A personagem não ocupa o centro da ação, mas é determinante para a forma como o filme introduz a experiência do exílio e da deslocação forçada, expandindo o seu campo de leitura para além do território brasileiro. Isabel Zuaa explica que a construção da personagem partiu de referências muito concretas, algumas diretamente ligadas à história pessoal do realizador. “A Tereza participou na vida do Kleber. Viveu circunstâncias muito parecidas às da personagem”, refere. Ao mesmo tempo, acrescenta que o seu trabalho se apoiou também na memória de mulheres angolanas que estudaram e viveram em Portugal, muitas delas ligadas à Casa dos Estudantes do Império.


Entre essas referências, destaca-se Deolinda Rodrigues, figura central das lutas de libertação angolanas, que informa a dimensão política e simbólica da personagem. No filme, essa herança traduz-se numa presença marcada pelo peso da desilusão política, pela tensão de ser uma mulher negra exilada no Recife e, em simultâneo, pela possibilidade de acolhimento num espaço partilhado com outros que vivem a mesma condição. “A Tereza encontra alguma alegria nesse acolhimento, junto de pessoas na mesma circunstância que ela e o marido, António”, personagem interpretada por Licínio Januário. Apesar de O Agente Secreto assumir um protagonista forte, a atriz sublinha a densidade do trabalho coletivo. “Todas as personagens são profundas, trazem camadas, contradições e humanidade. Cada uma acaba por ser protagonista das suas próprias cenas.”


A condição de refugiada política angolana atravessa o filme de forma estrutural e encontra eco direto na relação de Isabel Zuaa com a ideia de deslocamento. Para além da referência histórica de Deolinda Rodrigues, a atriz convoca a sua própria história familiar como elemento de aproximação à personagem. “O exemplo mais próximo da Tereza é a minha mãe. O meu avô foi assassinado em 1961, perto de Banga, no norte de Angola, o que mudou o rumo geográfico da minha família.” O exílio, explica, não se fixa num território específico, mas nas circunstâncias vividas. “A Tereza tem um trauma não só com Angola, mas também com Portugal. Não tem a ver com os países em si, mas com o que foi vivido nesses lugares.”

“Todas as personagens são profundas, trazem camadas, contradições e humanidade. Cada uma acaba por ser protagonista das suas próprias cenas.”

Isabel Zuaa

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©Helena Cooper


Essa fratura interior manifesta-se em pequenos gestos que o filme nunca sublinha em excesso, mas que se tornam reveladores. Num dos momentos, enquanto a cidade se entrega à celebração do carnaval, Tereza isola-se, tentando curar uma dor de cabeça. Um detalhe que traduz um deslocamento simultaneamente físico e emocional e que reforça a lógica narrativa do filme, onde o silêncio e o não-dito têm tanto peso quanto a ação explícita.


Integrada num elenco que inclui nomes como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Udo Kier e Carlos Francisco, Zuaa descreve o processo de trabalho como marcado pela escuta e pela organicidade. O preparador de elenco Leonardo Lacca e a equipa de realização colocavam os atores “na circunstância da cena com uma tranquilidade quase documental”. Num filme atravessado pela vigilância e pelo medo, essa abordagem reforça a tensão política do que permanece implícito. “Há palavras que refletem esse clima, mas é no silêncio que essa atmosfera se torna mais presente.”


Cronologicamente situado nos anos 70, O Agente Secreto cruza-se de forma direta com a investigação artística que Isabel Zuaa tem vindo a desenvolver ao longo do seu percurso. A atriz tem procurado personagens negras africanas e diaspóricas que vivam esse período violento nas suas subjetividades, aprofundando as camadas históricas da herança colonial tanto no continente africano como em território português. Esse trabalho prolonga-se também na sua experiência com o coletivo Aurora Negra, onde, no espetáculo Missão da Missão, foi desenvolvido um levantamento de mulheres essenciais às lutas de libertação dos países africanos sob domínio português.


A carreira de Isabel Zuaa estende-se por mais de uma década e combina trabalho em cinema, televisão, teatro e performance, em produções de diferentes geografias e contextos. Nascida em Lisboa em 1987, com raízes familiares angolanas e guineenses, Zuaa formou-se em teatro e desenvolveu parte da sua formação no Brasil, onde tem colaborado regularmente com realizadores e produções locais desde 2010. No cinema, destacou-se em títulos como As Boas Maneiras, Um Animal Amarelo — pelo qual recebeu o prémio de Melhor Atriz no Festival de Gramado em 2020 —, Doutor Gama e A Viagem de Pedro. 


Em paralelo, o seu trabalho em teatro, nomeadamente no âmbito do coletivo Aurora Negra, tem sido central para a reinterpretação de narrativas históricas a partir de perspetivas negras e contemporâneas, afirmando uma prática artística consistente entre palco e ecrã. A corrida aos Óscares surge como amplificação desse caminho, num trabalho que continua a afirmar-se pela densidade, pela contenção e pela recusa de leituras simplificadas.

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