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Desde muito cedo, a forma como João Paulo Esteves se relaciona com o mundo foi moldada por práticas coletivas que se entranham no quotidiano. Natural de Bissau, nascido nos anos 1990, cresceu numa cidade onde a música atravessava ruas de terra batida, as refeições eram preparadas para muitos e as histórias circulavam ao fim do dia entre vizinhos e familiares. Com experiência em gestão de equipas e em projetos ligados às áreas da cultura, da educação e da agroecologia, João transporta para cada iniciativa essa matriz comunitária que o formou. Em Bissau, aprender implicava observar, escutar e partilhar; implicava perceber que ninguém existe sozinho.
As casas funcionavam quase sempre como espaços de encontro: portas abertas, celebrações frequentes, dança incorporada no ritmo dos dias, comida repartida entre diferentes gerações, respeito pelos mais velhos assumido como regra estruturante. A rua prolongava a aprendizagem doméstica e tornava-se um lugar de socialização e descoberta. Nesse ambiente, a infância foi moldada por uma lógica de pertença em que o indivíduo se afirmava dentro do grupo, e a comunidade assumia-se como eixo de estabilidade.
Em 1998, com oito anos, a guerra civil — conhecida localmente como a revolta dos mais velhos — interrompeu essa cadência. Durante quase um ano, a violência impôs deslocações forçadas, perdas materiais e um clima de instabilidade que marcou uma geração inteira. A experiência deixou cicatrizes, mas também evidenciou a força das redes comunitárias. Mesmo em contexto de ruptura, a vida reorganizou-se em torno da solidariedade e do apoio mútuo, reafirmando a centralidade do coletivo.

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Anos mais tarde, o percurso levou-o ao Brasil. Ali constituiu família, ao lado de uma companheira brasileira, e decidiu fixar-se. Em Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, começou a questionar como poderia traduzir para aquele contexto a forma de viver que o tinha formado. A resposta materializou-se na criação do Centro Cultural Casa Crioula, pensado como extensão dessa experiência africana de convivência e partilha.
A Casa Crioula foi concebida como lugar de encontro, aprendizagem e criação conjunta. Cozinhar em grupo, trabalhar de modo colaborativo, decidir coletivamente, celebrar datas e trajetórias em comunidade são práticas que ali se transformam em método. Nesse espaço, a cultura surge como elemento estruturante da vida social. A gastronomia funciona como arquivo de memórias, a música como linguagem e a oralidade como ferramenta pedagógica.
Dessa dinâmica nasceu o Festival Viva África, que este ano realiza a sua quarta edição no mês de abril. À medida que as conversas sobre o continente se tornavam mais frequentes dentro da Casa — sempre acompanhadas por música, dança e gastronomia — crescia o interesse de quem ali chegava. O que começou como encontro informal evoluiu para uma programação estruturada, capaz de articular diferentes linguagens artísticas e perspectivas críticas. Cinema, debates, oficinas, reflexão filosófica, experiências culinárias e manifestações culturais diversas passaram a integrar um projeto contínuo, tendo o festival como momento de maior visibilidade pública.
A consolidação ganhou novo impulso quando professores e direcções de escolas públicas procuraram o centro cultural em busca de novas abordagens para trabalhar conteúdos relacionados com África. A intenção era ultrapassar visões redutoras e aproximar alunos de experiências concretas. A questão que passou a orientar parte do trabalho era: como planear uma aula transformadora se o educador nunca teve contacto direto com aquela realidade? Em jeito de resposta, o festival assumiu uma dimensão formativa ao criar pontes entre produção cultural e contexto escolar.

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Hoje, o Viva África ultrapassa o calendário cultural e posiciona-se como plataforma de intercâmbio. O objetivo passa por expandir a experiência para outras regiões do Brasil e para diferentes países, reforçar os laços da diáspora e promover circulação de artistas, educadores e investigadores. A permanência recente de dois anos da família em Bissau aprofundou essa ambição. O desenvolvimento das crianças, a intensidade das relações comunitárias e a centralidade das expressões artísticas confirmaram o impacto estruturante daquele ambiente.
No regresso ao Brasil, pequenos gestos do quotidiano evocavam continuamente essa vivência. O festival consolidou-se como ponte entre territórios ligados pela língua portuguesa e por histórias entrecruzadas de resistência cultural, convertendo memória em prática contemporânea. A proposta privilegia a vitalidade das expressões atuais, ao recusar leituras simplificadas ou centradas exclusivamente na dor histórica. Ao exibir produções cinematográficas, preparar pratos tradicionais e promover rodas de conversa, o evento constrói um espaço onde diferentes trajetórias da diáspora se reconhecem e dialogam, num legado de continuidade e transformação.
O projeto desenvolve-se, contudo, num campo de tensões. João admite a persistência de enquadramentos institucionais que proclamam compromisso com a diversidade, mas operam ainda a partir de perspetivas coloniais ou exotizantes, que acolhem África sobretudo quando circunscrita a celebrações pontuais ou narrativas simplificadas. Quando projetos reivindicam complexidade, autonomia e pensamento crítico, o diálogo torna-se mais exigente. A isso soma-se a expectativa da representação de uma identidade homogénea — algo que confronta ao afirmar a pluralidade das experiências negras. Paralelamente, a sustentabilidade financeira impõe negociações constantes: iniciativas nascidas de urgência comunitária precisam disputar recursos e reconhecimento sem abdicar da sua essência.
Mais do que garantir programação regular ou visibilidade pública, João procura criar experiências que ultrapassem o entretenimento ou a fruição artística e possibilitem a abertura de referências e de interrogações que persistam para lá do evento. A transformação de que fala começa em gestos quotidianos que reconfiguram a forma de estar: cozinhar em grupo, escutar atentamente os mais velhos, reconhecer o valor da oralidade, questionar narrativas únicas sobre identidade cultural e compreender que comunidade pode ser escolha consciente.
É nesse plano que identifica o verdadeiro impacto do trabalho que desenvolve. Como resume, “quero que cada pessoa saia dessa experiência com a sensação de que existe um modo mais comunitário, sensível e criativo de viver, porque essa energia segue reinventando a vida e construindo futuros”.
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