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Há uma certa ironia no percurso de José Acácio. Um homem que passou anos a ajudar mulheres a reconciliarem-se com o próprio corpo aprendeu, antes disso, a ser demasiado duro com o seu. Mas essa é uma das histórias para mais tarde. A que importa contar agora começa numa cidade rural do estado do Rio de Janeiro, com 60 000 habitantes e poucas saídas visíveis, onde um rapaz imaginava que um dia iria ajudar muita gente.
Hoje, com 38 anos, José Acácio vive em Lisboa e acompanha mulheres em mais de meia dúzia de países. O programa que criou com a esposa, o Lipo Metabólica, é dedicado sobretudo a mães acima dos 30 anos que querem perder peso e recuperar a relação com o próprio corpo - não por vaidade, sublinha, mas por exaustão. “A maior parte das mulheres chega com a autoestima devastada, e não é só por se olharem ao espelho e não gostarem do que veem. É o cansaço mental, a carga emocional do trabalho, da casa, das exigências que têm consigo próprias. O peso que carregam vai muito além do peso da barriga.”
José Acácio licenciou-se em Educação Física por identificação genuína com o desporto - jogou futebol quando era mais novo - e fez uma pós-graduação em Ciências da Performance Humana. Pelo meio, trabalhou como modelo, experiência que o confrontou com exigências físicas que contrariavam tudo aquilo em que acreditava. Foi esse atrito que o levou a perceber o que queria fazer: unir o conhecimento académico à transformação real de pessoas reais.

©Nuno Silva/BANTUMEN
O programa que desenvolveu assenta em três fases ao longo de três meses. A primeira, chamada choque metabólico, trabalha a eficiência do metabolismo, que em mulheres após os 30 anos e a maternidade sofre uma pressão hormonal considerável. A segunda fase incide na recuperação abdominal, incluindo a diástase, comum no pós-parto, e é aqui que a esposa de José Acácio, formada em pilates, entra com um trabalho mais específico. A terceira fase combina tonificação e definição. Um dos pontos em que insiste mais é talvez o menos óbvio: a transformação não exige privação. “Muitas delas chegam a comer muito pouco, convencidas de que é esse o caminho. Ao longo do acompanhamento percebem que é exatamente o contrário.”
É uma ideia que, curiosamente, também descreve a forma como José Acácio foi construindo o próprio percurso profissional: menos por subtração do que por acumulação de coragem. A ideia existia muito antes da pandemia, mas foi o período pós-pandémico que tornou evidente o que a procura já sugeria: havia cada vez mais mulheres e mães à procura desse tipo de acompanhamento.
A decisão de se especializar surgiu dessa leitura, mas nem isso o impediu de se comparar com outros, de se questionar, de parar a si próprio com uma exigência que hoje reconhece como injusta. “Disse coisas horríveis a mim mesmo que me paralisaram. Pegava pesado comigo em momentos em que deveria simplesmente ter respirado e continuado.”
É com essa distância - e com a leve que o tempo e a maturidade permitem - que fala agora sobre esses períodos. O conselho que daria ao José Acácio mais novo é o mesmo que deixa a quem queira seguir um caminho parecido: acreditar em si mais do que em qualquer outra pessoa. Ele próprio aprendeu a custo que depositar os sonhos nas promessas dos outros é uma forma subtil de adiá-los. “Muita das vezes essas vozes trabalham o nosso ego e paralisam-nos. O que queremos alcançar, só nós sabemos o que nos dá, o sorriso que gera.”
Quanto a sonhar, tem uma teoria que aplica a si mesmo: sonhar dentro das possibilidades do momento é um erro. Prefere imaginar muito além do que os pés conseguem alcançar, convicto de que é precisamente esse excesso que abre portas. Antes de dormir, em silêncio, visualiza a casa, as viagens, os momentos com a família.
E o sucesso? É a filha a brincar livremente. É poder sentar-se com a esposa e rir de coisas sem importância. É visitar a mãe no Brasil, já a partir de Lisboa, e reconhecer nas pessoas com quem cresceu uma parte de quem é. “Essa”, diz, “é a maior riqueza da vida.”
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