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O Kafuka African Film Festival (KAFF) regressa à cidade da Praia de 15 a 18 de outubro para uma segunda edição dedicada ao pensamento de Amílcar Cabral. O festival decorre no Tech Park Cabo Verde e abre com a exibição de Amílcar. Entre os nomes da competição estão Pocas Pascoal, com Time to Change, e Aoaní Salvaterra, com Abismo. A programação reúne longas e curtas-metragens documentais em competição, uma Kafukinha com cerca de 20 filmes para o público infantil, aproximadamente oito realizadores convidados e quatro mentores para as atividades de formação.
A sessão de abertura conta com o realizador Miguel Eek, a argumentista Alba Lombardía e parte da equipa de produção, que apresentam Amílcar e ficam para o encontro com o público. Para a equipa, estrear o filme em Cabo Verde, a terra de Cabral, dá um significado especial a este momento. A expectativa é que a passagem pelo festival seja o início de um percurso pelas ilhas.
As longas-metragens documentais em competição são avaliadas por um júri presidido pela produtora e realizadora sul-africana Tiny Mungwe. Fazem ainda parte do júri Éthel Oliveira e Jusciele Oliveira, do Brasil, Samuel Tebandele, do Uganda, e Cristina Morais, diretora e coordenadora editorial do Balai, em Cabo Verde. Do lado cabo-verdiano, quem está a concurso é Nós, Povo das Ilhas, de Elson Santos e Lara Sousa, uma produção nacional sobre as histórias, as lutas e a cultura de quem vive nas ilhas.
Do Senegal chega Afrikki, da realizadora franco-senegalesa Gaelle Le Roy. O filme acompanha os movimentos cívicos do país e a geração que saiu à rua para influenciar o rumo político durante a era de Macky Sall. A sul-africana Mmabatho Montsho assina Marxism & Period Pains, que cruza género, economia e saúde reprodutiva para questionar o custo físico, emocional e financeiro das dores menstruais nas mulheres trabalhadoras.
O brasileiro Henrique Dantas apresenta Anti-Heróis do Udigrudi Baiano, que recupera a memória dos artistas da cena underground da Bahia que desafiaram a censura. Já o tunisino Dhia Jerbi põe-se diante da câmara em Behind the Sun. Parte do medo de passar a gaguez ao filho para refletir sobre o exílio e o eco das revoluções, num percurso entre a Tunísia e França que inclui a dificuldade de explicar a pátria a quem nasce longe dela.
A lista fecha com Variations on a Theme, dos sul-africanos Jason Jacobs e Devon Delmar, que chega à Praia já com percurso internacional. Falado em afrikaans e com 65 minutos, o filme retrata a matriarca de uma aldeia da província do Cabo Norte, na África do Sul. Venceu o Tiger Award do Festival de Roterdão e foi escolhido pela National Film and Video Foundation para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
É na competição de curtas-metragens documentais que entram Pocas Pascoal e Aoaní Salvaterra, dois dos nomes em destaque desta edição. Em Time to Change, a realizadora reflete sobre o impacto da colonização na relação entre os seres humanos e a natureza. Parte da exploração da terra e das populações no período colonial para falar da devastação dos territórios, da subjugação da fauna e da flora e das consequências dessa lógica no presente, aproximando memória colonial, exploração de recursos e justiça ambiental.
Abismo acompanha, durante seis a sete meses, a recuperação do irmão gémeo de Salvaterra, esfaqueado no dia em que ambos faziam anos. O filme ouve os amigos que estavam presentes, segue a investigação policial e o impacto na família e procura ainda, segundo a sinopse, lançar luz sobre a violência sistémica nas periferias de Lisboa.
A secção tem júri próprio, composto por Ivandro Cabral, Marilene Pereira e Matilde Dias. Além destes dois filmes, inclui Entre Nós e o Silêncio, de Brenda Jorde e David Simon, e Devagarim, de Grace Ribeiro. Guentis Fonte Lima, de Ricardo Leote, retrata o dia a dia de uma zona rural da ilha de Santiago, onde as mulheres moldam o barro de Fonte Lima para manter viva a identidade da comunidade. O realizador já esteve na primeira edição, onde Marina venceu o prémio de Melhor Documentário.
Concrete Move, de Fagamou Faga Ndiaye, parte de uma memória de infância: o medo de uma serpente durante uma visita de estudo aos Faróis das Mamelles, em Dakar. Décadas depois, o realizador volta à colina e encontra um litoral transformado pela urbanização. Com dança e imagens de arquivo, o filme usa a serpente e a cidade que muda de pele como metáforas de um espaço onde o betão vai sufocando a memória e a natureza. A secção termina com Si ka badu, ka ta birado, de Josiana Cardoso, em que estudantes cabo-verdianos falam de viver longe de casa para estudar em Portugal, da saudade à solidão dos primeiros tempos.
O público mais novo tem programação própria na Kafukinha, que também chega à segunda edição e decorre a 17 e 18 de outubro, sábado e domingo, com sessões de manhã e à tarde. São cerca de 20 curtas de animação e de imagem real, de Cabo Verde, Angola, Costa do Marfim, Moçambique e Brasil, com workshops pelo meio. A secção exibe ainda as duas curtas vencedoras do Filma Kabu Verdi, um concurso de filmes feitos com telemóvel por jovens dos 12 aos 16 anos, e recebe a respetiva entrega de prémios. O concurso é promovido pelo jornal Voz do Arquipélago, em parceria com o Kuletivu Nhanha, a EME Marketing e o Kafuka. Este ano teve como tema a participação de Cabo Verde no Mundial de Futebol e incluiu uma oficina de formação de 27 a 31 de julho.
A aposta na formação inclui uma segunda iniciativa. O FilmLab Cabo Verde 2026 decorre na Praia até 16 de outubro e junta seis jovens cineastas e profissionais em início de carreira, dos PALOP e da diáspora cabo-verdiana, que depois vão acompanhar o festival e participar nele.
A segunda edição continua o trabalho que a organização começou em 2025. A primeira decorreu de 16 a 19 de outubro e exibiu cerca de 40 filmes, 24 deles em competição pelo Kafuka de Ouro e de Prata, de 15 países africanos. Juntou realizadores do continente e da diáspora, debates, workshops e masterclasses, teve sessões infantis na Kafukinha e fechou com uma cerimónia de entrega de prémios. Em declarações ao Balai, a diretora artística e curadora Natasha Craveiro fez um balanço “super positivo”: “Havia quatro salas a transmitir em simultâneo e todas praticamente lotadas.” Apontou a questão financeira como o principal desafio da organização.
O KAFF estreou-se em outubro de 2025 e, segundo a imprensa cabo-verdiana da altura, foi o primeiro festival do país dedicado ao cinema africano e à sua diáspora. Nasceu para dar a conhecer, através do cinema, a diversidade das narrativas africanas e para promover o intercâmbio cultural entre países e comunidades, com foco em Cabo Verde, em África e na diáspora. A organização apresenta-o como um ponto de encontro dos cinemas africanos, que aproveita a localização do arquipélago para juntar o continente, as ilhas e as diásporas em torno da sétima arte. Quer também contribuir para o desenvolvimento de um ecossistema cinematográfico em Cabo Verde, dar visibilidade à produção nacional e abrir portas ao diálogo entre cinemas africanos a partir da capital.
O nome vem da kafuka, um utensílio doméstico tradicional de Cabo Verde, usado quando o acesso à eletricidade era limitado. A organização associa-o à ideia de luz e, através dela, à esperança, à resiliência e à importância da luz na criação cinematográfica. O festival é promovido pelo Kuletivu Nhanha, um coletivo dedicado à promoção das mulheres cabo-verdianas no cinema e no audiovisual.

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