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De onde vem a criatividade? O que nos move a tocar no que já existe e a moldá‑lo até que se torne outra coisa? Um grande amigo meu chama‑lhe o espírito da coisa - essa força invisível que nos atravessa quando algo pede para ser criado. No passado dia 31, acordei cedo e fui até à Fundação Calouste Gulbenkian, não à procura de respostas, mas atrás da curiosidade de criar uma paisagem onírica.
Esse é o ponto de partida da residência artística da austríaca Katharina Lackner, no CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian: um convite para que crianças e adultos recolhessem vestígios da natureza - folhas, ramos, memórias, sonhos - e, com tintas e tecidos, lhes dessem uma nova forma.
O trabalho de Katharina nasce desse impulso de brincar e usar as mãos. “Experimentar e tentar. Exatamente. Divertir‑se, especialmente divertir‑se”, disse‑me a artista, acrescentando: “nem sempre temos de trabalhar para um produto. Às vezes é tão bom apreciar o processo.” E era precisamente esse o desafio escondido no convite.
Mas ser adulto, em 2026, é viver sob a exigência de alcançar mais, ir mais longe, corresponder ao que vemos nas redes sociais e ao que a tão celebrada Inteligência Artificial nos promete. Como é que me dispo dessa pressão e mergulho apenas no processo?
Talvez por isso Katharina prefira trabalhar com crianças: “eu só tenho de criar um ambiente em que elas possam… não sei… expandir ou crescer.” Elas não ficam muito tempo presas a questões, elas abraçam o desafio.
E foi exatamente isso que aconteceu naquela sala inundada de luz, numa manhã solarenga de domingo, em Lisboa. As crianças expandiram.
O espaço encheu‑se de olhos - tímidos no início - como se carregassem um leve desconforto e perguntassem: “porque me trouxeram para aqui?” Mas rapidamente encontraram objetos que reconheciam desde sempre: folhas, ramos, tintas… E tinham as suas ferramentas favoritas - as próprias mãos. Só havia uma coisa a fazer: experimentar, misturar, tocar, usar o que lhes foi explicado e, claro, fazer ao contrário do que lhes foi pedido. Não havia medo de errar, porque ali nada podia ser errado.
“Pai, olha o que eu fiz, faz tu agora.”
“Que cor é esta que eu inventei?”
“Podemos fazer isto em casa?”
A sala estava cheia de vozes e sorrisos de quem vive o momento. Foi então que larguei a câmara e fui sujar as mãos. Usei folhas como stencils, outras como carimbos, misturei cores e perdi‑me no meio daquelas ferramentas analógicas, como quem regressa a um sonho antigo dentro de si. É-nos tão natural brincar com as mão sujas, é voltar a ser o que já fomos um dia.
Talvez aquela oficina workshop não tivesse apenas o propósito de fazer arte, mas de lembrar aos adultos como eu, como é ser criança - e, assim, reacender a criatividade que ainda vive em nós.
Katharina contou‑me um estudo que a NASA fez nos anos 60: testaram crianças de cinco anos e descobriram que 99% delas tinham potencial criativo ao nível de génios.
Cinco anos depois, esse número caiu para 30%. Aos 21, restavam 3%.
E aos 47… que percentagem me resta?
A verdade é que não interessa. Hoje não preciso de respostas. Hoje escolho o que aprendi com a Katharina - e com todas as crianças daquela sala - e volto a entregar‑me ao processo.
Sobre a instalação de Katharina Lackner
Segundo o CAM: Os públicos são convidados a brincar, a intervir e a transformar o espaço, deixando marcas que mais tarde são absorvidas de novo pela própria instalação. Assente numa investigação sobre a criatividade na infância, o projeto celebra o processo – aquilo que é impermanente, invisível, quase sempre esquecido.
Estabelece uma ponte entre a experiência íntima de cada participante e uma perspetiva mais ampla, quase cósmica, enquanto desafia as ideias capitalistas de produtividade e de valor, lembrando-nos que criar é, antes de tudo, um gesto de liberdade.
A residência da artista estará no Espaço Engawa, no, até ao proóximo dia 10 de agosto.
Veja aqui para mais informações.
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