Kaya Rodrigues transforma o Alzheimer da avó na curta metragem “Zila”

8 de Julho de 2026
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Still do filme Zila | ©Filmes de Água Doce

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Na medicina ocidental, esquecer é perder. A perda da memória traduz-se na erosão da identidade, das relações e da autonomia, tornando-se um dos traços mais devastadores de doenças como o Alzheimer. Na cosmologia bantu-moçambicana, porém, o esquecimento pode assumir um significado diferente. Sem negar a dor da perda, abre espaço à ideia de travessia, transformação e despedida. É nesse encontro entre duas formas de compreender a memória que se inscreve Zila, a primeira curta-metragem realizada a solo pela cineasta brasileira Kaya Rodrigues, uma obra que parte da experiência íntima do diagnóstico de Alzheimer da avó para construir uma reflexão sobre ancestralidade, negritude e permanência.


O ponto de partida do filme é autobiográfico, mas a realizadora recusa que a narrativa seja lida apenas como um retrato da doença. O diagnóstico foi o acontecimento que desencadeou a necessidade de filmar, não o tema que pretendia explicar. O interesse estava mais nas perguntas que a doença impõe do que propriamente na dimensão clínica do Alzheimer: o que permanece quando a memória desaparece? É possível manter uma relação quando deixam de existir as lembranças que a sustentavam? E haverá outras formas de compreender o esquecimento para lá daquelas que dominam o pensamento ocidental?


"Quando recebi o diagnóstico da minha avó, a minha primeira reação foi negar aquilo que estava a acontecer. Acho que, em parte, porque eu ainda não compreendia completamente a doença, mas também porque era muito doloroso aceitar que as formas de relação que construímos ao longo de uma vida poderiam desaparecer. Sempre acreditei que as relações são feitas do que o nosso inconsciente escolhe lembrar. Então, se as memórias deixassem de existir nela, como seria possível continuarmos a relacionar-nos?"


A resposta foi sendo construída à medida que a doença avançava e obrigava ambas a reaprender a própria relação. Aos poucos, Kaya Rodrigues percebeu que a memória era apenas uma das formas possíveis de reconhecimento. Permaneciam o corpo, o instinto, os gestos e as sensações. A avó podia já não saber o seu nome, mas continuava a encontrar conforto num abraço ou numa massagem entre as sobrancelhas. O vínculo sobrevivia, embora através de uma linguagem diferente. "Com o passar do tempo, percebi que a memória era apenas uma parte. Ela ainda tinha instinto, corpo, cheiro, sensações. Fui aprendendo a construir uma nova forma de me conectar com ela. Talvez ela não soubesse mais o meu nome, mas sentia-se bem quando eu a abraçava ou quando lhe fazia uma massagem entre as sobrancelhas. Assim, fui desenvolvendo uma forma nova de a amar e de trocar afeto."

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Kaya Rodrigues | ©Tom Peres

A descoberta levou a realizadora a questionar uma ideia que até então tomava como adquirida: a de que a memória reside exclusivamente na capacidade de recordar. Ao acompanhar a progressão da doença, começou a perceber que havia outras formas de permanência. O afeto continuava a manifestar-se através do corpo, dos gestos, da presença e de uma intimidade construída muito para além das palavras. A memória deixava, assim, de estar confinada à mente para se tornar também experiência física e relacional.


Antes de encontrar uma linguagem cinematográfica, Kaya Rodrigues procurou compreender esse processo através da escrita. Escreveu cartas dirigidas à avó e pequenas crónicas sobre o quotidiano que partilhavam, numa tentativa de organizar uma experiência que ainda lhe escapava. O cinema surgiria mais tarde, quando percebeu que determinadas sensações dificilmente poderiam ser traduzidas apenas pela palavra.


"O cinema veio depois de muito elaborar, sentir e silenciar. Em algum momento algumas imagens surgiram e passei a tentar ver poesia no quotidiano com ela. Mais do que explicar a doença, queria traduzir sensações: a fragmentação do tempo, a coexistência de diferentes camadas de memória e a maneira como uma lembrança pode ser mais real do que o presente."


Ao transformar essa vivência em cinema, a realizadora encontrou também uma forma de preservar aquilo que a doença ameaçava apagar. Parte das filmagens decorreu na casa onde a avó viveu e na cidade onde nasceu, lugares que permanecem inscritos no filme como fragmentos de uma memória familiar que resiste ao tempo. "Acredito que o filme trouxe uma libertação para essa vivência. De certa forma, as memórias da minha avó ficaram guardadas ali de uma maneira única, expressadas de uma forma que só o cinema poderia. Parte das gravações foi feita na casa onde ela morava, na cidade onde ela nasceu… e essas coisas são presentes de conexão eterna com ela."


O diagnóstico explica o impulso inicial, mas não a forma que Zila viria a assumir. A transformação aconteceu através de um episódio aparentemente banal. Um dia, ao regressar a casa, Kaya Rodrigues encontrou a avó a comer batata-doce. Durante toda a vida ouvira-a dizer que detestava aquele alimento. O Alzheimer apagara essa aversão, permitindo-lhe saboreá-lo sem qualquer memória do desgosto que durante décadas lhe estivera associado. A realizadora ficou a observá-la e deu por si a formular uma pergunta que alteraria o rumo do filme: se aquela memória desagradável desaparecera, que outras dores também poderiam ter ficado para trás?


A reflexão levou-a, nessa mesma noite, a recordar uma lenda bantu-moçambicana sobre a árvore do esquecimento. Na tradição evocada pela realizadora, esquecer não significa necessariamente deterioração ou vazio. Pode representar um ritual de passagem, através do qual determinados sofrimentos deixam de acompanhar quem os transporta. A associação foi imediata e deu origem à história de uma mulher idosa que parte em busca desse ritual para abandonar as tristezas que carrega.


"Na mesma noite lembrei-me de uma lenda bantu-moçambicana sobre a árvore do esquecimento e comecei a escrever a história de uma idosa que ia atrás desse ritual para deixar as suas tristezas para trás."

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Still do filme Zila | ©Filmes de Água Doce

Foi nesse momento que Zila deixou de ser um filme inspirado pelo Alzheimer para se tornar uma reflexão sobre diferentes formas de compreender a memória. A cosmologia bantu não surge como contraponto exótico à medicina nem pretende substituir o conhecimento científico por uma leitura espiritual da doença. Funciona, antes, como uma segunda chave de interpretação, capaz de ampliar o olhar sobre uma experiência que, para Kaya Rodrigues, nunca poderia ser reduzida ao diagnóstico.


"Desde o início eu não queria romantizar o Alzheimer. A doença é dura, afeta relações, produz dor para todos os que convivem com ela. Ao mesmo tempo, eu sentia que olhar apenas para a dimensão clínica seria reduzir a experiência. Tudo o que estava a acontecer era maior do que o próprio diagnóstico. Sou uma mulher latina, negra, com uma ancestralidade que me faz ver o mundo através de uma ótica para além do plano físico."


É precisamente nessa convivência entre diferentes formas de conhecimento que assenta a construção de Zila. Enquanto a medicina ocidental tende a interpretar o esquecimento como um processo de deterioração neurológica, a tradição ancestral convocada pela realizadora permite pensá-lo também como transformação, sem que isso atenue a violência da doença ou o sofrimento de quem a vive. Não se trata de opor uma perspetiva à outra, mas de reconhecer que ambas iluminam dimensões distintas da mesma experiência.


À medida que o filme se desenvolve, o esquecimento deixa de dizer respeito apenas à memória de uma pessoa para passar a interrogar aquilo que uma comunidade consegue - ou deixa de conseguir - transmitir às gerações seguintes. O conflito entre Zila e Ana nasce dessa distância, mas aponta para uma questão maior: o que acontece quando se interrompe a circulação de histórias, saberes e modos de compreender o mundo?


"Muitas vezes pensamos a transmissão de conhecimento como algo automático dentro das famílias, mas ela depende de escuta e de disponibilidade mútua. Quando essas pontes se rompem, perdemos modos de compreender o mundo. Memórias e conhecimentos ancestrais podem desaparecer, principalmente porque muito da sabedoria africana se passa através da oralidade." Na experiência das comunidades negras em diáspora, essa interrupção é também consequência de séculos de violência e políticas de assimilação que procuraram romper a continuidade entre gerações. O desaparecimento de uma memória íntima dialoga, por isso, com outras perdas impostas coletivamente.


"Esse quadro ganha uma dimensão ainda mais profunda porque muitos desses saberes já passaram por processos históricos de apagamento. A cultura negra em diáspora é uma relíquia e a sua necessária conservação, infelizmente, encontra grandes obstáculos." É essa reflexão que explica a presença, em Zila, de imagens de trabalhadores negros nas lavouras do Rio Grande do Sul. Longe de funcionarem como simples enquadramento, essas sequências introduzem outra camada narrativa, recordando que a memória também pode ser apagada ao nível dos territórios e das histórias oficiais.


Durante décadas, o Rio Grande do Sul consolidou uma identidade fortemente associada à imigração europeia, alimentando a imagem de uma "Europa brasileira". Para Kaya Rodrigues, essa narrativa deixou à margem a participação decisiva das populações negras e indígenas na construção económica, social e cultural do estado. "O Brasil vive um grande conflito. Se por um lado é conhecido pela riqueza da cultura construída a partir da africanidade diaspórica, por outro subjuga e secundariza a negritude. Quando voltamos os olhos para o Sul do país, esse quadro agrava-se. Estados como o Rio Grande do Sul construíram uma imagem fictícia de 'Europa brasileira' e custam a reverenciar a sua evidente cultura negra e indígena."


Ao devolver essas presenças ao ecrã, a realizadora procura contrariar um esquecimento que não é biológico nem individual, mas histórico. "Existem pessoas negras, como a minha avó e tantas outras, sustentando esses territórios, construindo essas paisagens e produzindo riqueza há gerações."


A protagonista de Zila é uma mulher negra idosa, uma escolha que ultrapassa a dimensão autobiográfica e responde também à escassa representação desse perfil no cinema contemporâneo. Para Kaya Rodrigues, essa invisibilidade elimina do espaço público mulheres que, em muitas culturas africanas, ocupam precisamente o lugar de guardiãs da memória e da transmissão do conhecimento.


"Ser mulher numa sociedade que tenta subjugar o feminino é uma tarefa difícil. No Brasil, a cada seis horas uma mulher é assassinada. É um quadro alarmante, que evidencia o crescimento do discurso de ódio contra as mulheres. Se não lutarmos hoje pela manutenção dos direitos conquistados pelos movimentos feministas, corremos sérios riscos de perdê-los."


A realizadora recorda um estudo recente que analisou as cem maiores bilheteiras do cinema e concluiu que apenas cinco filmes apresentavam personagens femininas relevantes com mais de sessenta anos. Para a realizadora, esta ausência contrasta com a forma como muitas tradições africanas entendem o envelhecimento, associando-o à experiência, ao conhecimento e à autoridade moral.


"Em muitas culturas africanas que chegaram ao Brasil, envelhecer é um privilégio dos sábios e os mais velhos são respeitados. Acredito que o tempo é um amigo, um aliado, algo que nos amadurece. Tenho a certeza de que o meu pensamento é mais rico hoje do que quando tinha vinte anos. O envelhecimento feminino ser visto de maneira pejorativa, e a falta de representação da mulher mais velha nas telas, no cinema e na arte, também é uma forma de matar a sabedoria feminina no seu ápice."


Se a memória depende da possibilidade de ser transmitida, invisibilizar precisamente quem tradicionalmente ocupa esse lugar significa interromper uma cadeia de conhecimento construída ao longo de gerações. O esquecimento deixa, assim, de ser apenas uma condição clínica ou uma metáfora espiritual para revelar também uma dimensão política.


Ao longo da última década, Kaya participou na criação do Criadoras Negras-RS e do Macumba Lab, dois coletivos que nasceram para responder à reduzida presença de mulheres negras nos lugares de decisão do cinema produzido no Rio Grande do Sul. Os dois coletivos surgiram num contexto em que mulheres negras continuavam praticamente ausentes dos cargos de chefia no audiovisual gaúcho e encontravam poucas oportunidades para desenvolver projetos autorais. A resposta passou pela criação de redes de apoio, formação e produção que permitissem alterar, a partir da base, um setor profundamente desigual.


Mais de uma década depois, Kaya Rodrigues reconhece que o cenário começou a mudar, embora considere que as transformações continuam aquém do necessário. "Hoje percebemos que há uma alteração positiva desse quadro, mesmo que ele ainda esteja distante do ideal. Isso alegra-me, mas também me dá mais vontade de agir. Há muito a ser feito." Curadora-geral do Festival Cinema Negro em Ação, desde 2023, parte do seu trabalho passa por garantir que essas obras encontram espaços de circulação, encontro e debate.


A própria trajetória de Zila confirma a importância desses circuitos. Embora o Brasil seja internacionalmente reconhecido pela força da sua produção cultural negra, Kaya Rodrigues considera que o cinema realizado no sul do país continua a ocupar uma posição periférica, muitas vezes eclipsado por outras regiões. A realizadora acredita, no entanto, que a especificidade do território nunca constitui um obstáculo à circulação internacional das obras. Pelo contrário, é precisamente a partir dessa experiência localizada que se tornam possíveis diálogos mais amplos sobre memória, envelhecimento, ancestralidade e pertença.


Atualmente em fase de finalização, Ialode, documentário realizado em codireção com Gabriel Faccini, desloca o olhar para a música negra produzida no Rio Grande do Sul através das trajetórias de quatro compositoras. Se em Zila o ponto de partida é a memória íntima de uma família, em Ialode a realizadora procura preservar outra herança frequentemente relegada para segundo plano: a contribuição das mulheres negras para a construção da identidade musical gaúcha.


Apesar das diferenças formais entre os dois filmes, Kaya Rodrigues reconhece que ambos nascem das mesmas inquietações e da mesma necessidade de contrariar os processos de invisibilização que atravessam a história da população negra no Brasil. "Memória, ancestralidade, território, negritude e a experiência das mulheres negras fazem parte da minha própria trajetória e da forma como observo o mundo. Talvez por isso reapareçam continuamente, não como estratégia, mas como uma necessidade artística e política."


Vista em conjunto, a obra da cineasta revela uma coerência que ultrapassa cada projeto individual. Em Zila, procura compreender o que permanece quando a memória individual começa a falhar; em Ialode, preserva o legado de compositoras cuja contribuição raramente ocupa o lugar que lhe pertence; nos coletivos que ajudou a fundar e no festival que hoje dirige, trabalha para que cineastas negros encontrem condições para produzir, circular e permanecer. Em diferentes escalas, a pergunta mantém-se a mesma: o que acontece quando uma comunidade deixa de transmitir aquilo que sabe?


Partindo de uma cosmologia bantu que entende o esquecimento como perda e também como travessia, Kaya Rodrigues constrói uma obra que desafia as formas dominantes de pensar a memória e recorda que aquilo que sobrevive nem sempre depende da capacidade de recordar. Sobrevive também no corpo, na oralidade, na criação artística e nas comunidades que insistem em preservar histórias que durante demasiado tempo foram empurradas para o silêncio.

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