Keyla nunca conseguiu pagar a cirurgia que desejava. Hoje ajuda outras mulheres a recuperar das suas

23 de Outubro de 2026

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Para Keyla, uma cirurgia estética é apenas um passo, que "ajuda um bocadinho, mas não resolve. O que conta de verdade é o que se faz depois", diz. Aos 42 anos, trabalha sobretudo com mulheres que se preparam para ser operadas ou que acabaram de sê-lo, e o acompanhamento pós-operatório é hoje o serviço que mais vende. Nesse depois cabem as drenagens, a alimentação, as despesas que ninguém previu e aquilo que, como foi percebendo com as clientes, não se resolve no corpo.


Muitas chegam-lhe, nas suas palavras, "às cegas", com o dinheiro da operação reunido e sem terem pensado que iriam precisar de cuidados depois dela. Só já operadas ouvem o médico falar em drenagens, e há quem pergunte "Mas para quê, se eu já fiz a cirurgia?". Keyla explica-lhes que uma cirurgia mexe com o corpo todo e que, depois de uma anestesia geral, o organismo faz uma espécie de reset e o sistema imunitário fica fragilizado. A drenagem ajuda a reduzir o inchaço, a recuperar a mobilidade e a recuperar mais depressa, razão pela qual a considera essencial, e ao lado dela coloca a alimentação e os restantes cuidados que a recuperação exige. O inchaço, as nódoas negras e a fibrose, o endurecimento dos tecidos que podem instalar-se depois da operação, estão entre as complicações mais frequentes de lipoaspirações e abdominoplastias, e num pequeno ensaio publicado em 2018 na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, as mulheres acompanhadas desde antes de uma abdominoplastia precisaram em média de cerca de 15 sessões para recuperar, contra 23 nas que só começaram a ser tratadas ao quarto dia, e apenas duas em dez desenvolveram fibrose, quando no outro grupo aconteceu a todas.


Na experiência de Keyla, poucas clientes chegam à cirurgia com esse depois planeado. Na consulta avalia-se a saúde, explica-se o procedimento e acerta-se o preço, e quem sai de lá com um orçamento de seis mil euros, por exemplo, organiza-se para reunir esse valor. Falta, como enumera, "um pré-operatório para te dizer" que a ele se vão somar a cinta, os medicamentos e as drenagens, que no seu caso custam 45 euros por sessão, e muitas pessoas não estão à espera destas despesas. É preciso também ter quem ajude, e quem não tem ninguém que a leve às sessões, marcadas dia sim, dia não, acaba a pagar um Uber para cada uma. "Tudo isto tem um custo", resume.

"Acho que o meu dom sempre foi cuidar"

Keyla

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© Nuno Silva/BANTUMEN

Também a profissional quis, durante muito tempo, mudar o corpo com o qual nunca se sentiu confortável. Foi mãe aos 18 anos, tem hoje duas filhas, e o dinheiro nunca chegou para isso, nem para as massagens que começavam então a aparecer e que gostava de experimentar. Trabalhou em vários sítios, o mais longo dos quais numa empresa de retalho, onde maquilhava as colegas antes de saírem juntas, como desde criança maquilhara as tias, penteara as primas e preparara as amigas para as noites fora. "Acho que o meu dom sempre foi cuidar. Aliás, acho que é a minha forma de dar amor aos outros", diz, e considera-se sortuda pelo facto de a família e os amigos nunca terem desvalorizado esse jeito. Com o tempo, foi conhecendo pessoas ligadas à área, as "pessoas-ponte" de que fala, e a ideia foi ganhando forma. "Eu não pude fazer, mas posso ajudar outras pessoas a fazer."


Sem dinheiro para uma formação completa, formou-se por módulos, da massagem de relaxamento à modeladora, do lifting de glúteos à drenagem linfática e, por fim, à drenagem direcionada para cirurgias. É isso que hoje oferece, a preços que vão dos 35 euros de uma limpeza de pele aos 50 de uma massagem modeladora com radiofrequência, com o lifting de glúteos, não invasivo e feito com eletroestimulação e massagem, a 37,5 euros.


Uma das clientes que acompanhou antes e depois da cirurgia dizia-lhe sempre, nas sessões de massagem que antecederam a operação, que precisava de ser operada, que aquela intervenção lhe ia mudar a vida, torná-la mais feliz e mais realizada. A cirurgia correu bem, a cliente ficou, nas palavras de Keyla, maravilhosa, e o pós-operatório, que fizeram juntas, seguiu sem complicações. Três meses depois, confessou-lhe que não estava feliz, que continuava a sentir dor e um vazio dentro dela. "Acho que me vai marcar para a vida toda." Foi a partir desse momento que começou a perceber que aquilo não era só estética.


Desde então, as sessões passaram a ter muito de conversa. Quando uma mulher lhe aparece com vontade de mudar o corpo, procura como foi a infância dela, o que está a atravessar, por que se sente como se sente, e muitas vezes ouve-a criticar-se e, como diz, mutilar-se com palavras horríveis. Grande parte dessas mágoas vem da infância, do que se ouviu da boca dos pais, de familiares, de pessoas próximas. "Nós sabemos que a educação do africano é rígida", observa. Diz-se "suspeita", porque vai sempre apoiar as clientes naquilo que considera bom para elas, e quando uma está decidida a avançar, apoia a decisão, mas não sem antes lhe pedir que se olhe ao espelho "com olhos de ver".


Muitas vezes coloca-a mesmo diante dele, diz-lhe que é linda, pergunta-lhe o que está à procura, pede-lhe que se veja por dentro. Como conhece bem as clientes, muitas das quais vê como amigas, lembra-as da necessidade de serem mais empáticas consigo próprias e reconherem outros atributos além dos físicos. Entende que, enquanto profissional, tem de ter liberdade para fazer esta chamada à consciência, desde que da forma certa e sem deixar ninguém pior do que estava, e é franca quanto ao resultado.


A sociedade, considera, ainda não está preparada para essa conversa, porque a maioria das mulheres procura no exterior aquilo que acha que tem de mudar e raramente admite ter algo a curar. A terapia é hoje mais valorizada, depois de ter sido durante muito tempo desvalorizada, e considera-a importante. "Todas nós, mulheres, principalmente mulheres negras, temos coisas para curar por dentro." Na literatura médica, estima-se que cerca de 15% das pessoas que procuram cirurgia plástica tenham perturbação dismórfica corporal, uma preocupação persistente e penosa com um defeito físico real ou mínimo, e os autores de uma meta-análise publicada em 2017 recomendam que estes casos sejam encaminhados para acompanhamento multidisciplinar.

"Quando não estás curada por dentro, a cirurgia não é nada"

Keyla

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© Nuno Silva/BANTUMEN

Mesmo depois da cirurgia, Keyla vê muito poucas mulheres cumprirem o pós-operatório. A maioria volta aos mesmos hábitos, quando uma operação obriga a mudar a rotina para a vida toda e a manter uma alimentação regrada, sobretudo para quem tem tendência para engordar. "Quando não estás curada por dentro, a cirurgia não é nada", afirma, lembrando quem come muito por ansiedade ou por nervos. A isto junta-se, em muitos casos, a falta de apoio. Depois de uma intervenção é preciso descansar e não carregar pesos, "precisas de ajuda para quase tudo", e uma mãe sem suporte continua a fazer tudo sozinha, incluindo levar os filhos à escola. Há quem fique bem e feliz, e há quem, sem essa mudança, queira fazer mais.


A maioria das clientes chega-lhe com uma imagem e com a certeza de que quer ficar assim. A esteticista lembra-lhes que não têm a mesma fisionomia, a mesma altura nem a mesma vida, e que o resultado nunca será igual. A referência vem muitas vezes das redes sociais, que, no seu entender, exigem às mulheres algo que nem quem exige sabe o que é, e onde se mostra uma realidade que não existe. Uma mulher acompanha outra com a barriga lisa, gostava de ser como ela, faz a cirurgia e não fica igual, e daí nasce a frustração. "A rede social não te vai dizer 'eu fiz três cirurgias, por isso é que a minha barriga está assim'", afirma. Há quem admita apenas uma intervenção e quem garanta que não fez nenhuma, e o tema continua a ser tabu.


Parte das suas clientes operou-se na Turquia, que recebe todos os anos mais de um milhão de estrangeiros para tratamentos médicos e onde, garante, há muito bons profissionais e os preços são mais baixos, porque o material cirúrgico é praticamente oferecido, quando comparado com Portugal. Ninguém está livre de apanhar um mau profissional, lembra, nem lá nem cá, onde a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) recebeu desde 2022 queixas sobre 476 estabelecimentos de estética e fez 223 ações de fiscalização entre 2023 e junho de 2026, e por isso pede pesquisa e uma clínica de referência. Muitas mulheres vão também porque foram recusadas em Portugal, onde os cirurgiões pedem a quem está acima do peso que emagreça antes de ser operado, regra com que concorda, por considerar que a maioria das pessoas que morrem nestas cirurgias tem excesso de peso. Na Turquia são operadas, mas só lhes é retirada a gordura que a lei permite, e como o resultado nunca fica como imaginavam, voltam para fazer mais.


Para a profissional de estética, quando um médico recusa operar, há sempre uma razão. Conta que já aconteceu muitas vezes uma cliente ouvir a médica recusar a cirurgia por causa de uma anemia ou de uma tensão demasiado alta e, sem querer voltar para casa sem tê-la feito, procurar outra clínica no mesmo hotel, já que a maioria das clínicas tem acordos com unidades hoteleiras. Aí aparece um médico disposto a operar se a paciente fizer uma transfusão de sangue. "Se acontecer alguma coisa e aquela cliente vier a óbito, quem é que se pôs a jeito?" As clínicas perguntam por problemas cardíacos, tromboses ou pela toma da pílula, e tudo depende da sinceridade de quem responde. "A maioria das pessoas, posso dizer, não é sincera", diz Keyla, que fala de quem omite uma predisposição para embolias diante de um cirurgião num país onde não vive e cuja língua não fala, mesmo sabendo, porque o termo de responsabilidade o diz, que pode morrer. Na abdominoplastia, uma das cirurgias mais procuradas pelas suas clientes, a maior parte das mortes resulta de tromboses venosas e de embolias pulmonares.

"Sempre fomos postas para baixo. E carregamos isso, ainda que de uma forma inconsciente"

Keyla

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© Nuno Silva/BANTUMEN

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© Nuno Silva/BANTUMEN

No Reino Unido, de onde saem cerca de 150 mil pessoas por ano para se operarem na Turquia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros registou 28 mortes de cidadãos britânicos depois de cirurgias programadas naquele país entre 2019 e 2024. Entre os portugueses, um dos casos que chegaram à imprensa foi o de Aida Alexandre Oliveira, de 22 anos, que vivia na Suíça e morreu em março de 2024, cinco dias depois de uma lipoaspiração com injeção de gordura nas ancas numa clínica de Istambul. Segundo a autópsia citada pela imprensa, a causa foi uma hemorragia interna provocada pela rutura de um vaso sanguíneo durante a operação, e em fevereiro de 2026 o processo continuava sem julgamento.


No regresso, quem se operou fora fica sem o acompanhamento que teria cá, onde, segundo Keyla, o médico assume as complicações por inteiro. Cada problema passa a ser mais um custo, e, pelo que vê, é frequente os médicos em Portugal recusarem-se a mexer em cirurgias feitas no estrangeiro. Conhece clientes que foram ao centro de saúde e não foram atendidas por esse motivo, e não acha justo. "Se nós pagamos impostos, temos direito à saúde." Em fevereiro de 2025, a ERS afirmou à Lusa que os utentes têm direito a ser tratados no Serviço Nacional de Saúde (SNS) nestas situações, e o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, reconheceu que os médicos trabalham muitas vezes sem acesso ao historial do que foi feito lá fora. No Reino Unido, onde a Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos (BAAPS) acompanha estes casos, o número de pessoas tratadas nos hospitais do país por complicações de cirurgias estéticas feitas no estrangeiro aumentou 94% nos três anos até novembro de 2023, com um custo médio estimado de 15 mil libras por doente para o serviço público de saúde. Defende que as pessoas têm de lutar pelos seus direitos, mas lembra que quem acaba de ser operada está fragilizada e que é importante ter ao lado alguém com força para bater o pé.


Keyla não é contra a cirurgia estética, desde que se faça com consciência, e lembra que durante muito tempo ela não esteve ao alcance de todas. A cirurgia sempre existiu, diz, só que não era para toda a gente. "Eram só os brancos que faziam." Faltava informação, porque ninguém falava, por exemplo, da possibilidade de pedir um crédito para uma operação, e faltava dinheiro. Lembra-se de ouvir a mãe dizer que aquilo era coisa de ricos. Hoje, quem se empenhar e trabalhar consegue juntar o valor para fazer algo que a faça sentir-se bem.


Entre as mulheres negras que a procuram, as cirurgias mais pedidas são reconstrutivas, sobretudo depois da maternidade, como a abdominoplastia ou a cirurgia ao peito. Seguem-se os preenchimentos de glúteos, de que, diz, ninguém fala, e que Keyla associa ao que a sociedade africana impõe às mulheres. "A mulher africana tem de ter rabo. As brancas não precisam de ter, mas nós temos de ter" é uma das afirmações que ouve com frequência. Essa pressão leva, segundo ela, a muitas loucuras, incluindo preenchimentos absurdos que já terminaram em morte. Também ela clica quando lhe aparece, na página profissional, uma publicação de preenchimento com um bom resultado, e acredita que qualquer mulher faria o mesmo. Nos comentários, porém, repara que as pessoas perguntam o preço, querem saber quanto custa para irem logo, e quase ninguém pergunta que produto foi injetado. Em Portugal, onde só médicos e médicos dentistas estão habilitados a fazer preenchimentos e onde a Ordem dos Médicos criou em 2024 uma competência em medicina estética para responder à falta de regulação de uma área com cada vez mais profissionais não médicos, a falta de rastreabilidade dos produtos foi uma das falhas apontadas pelo Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde), pela ERS, pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e pela Direção-Geral do Consumidor quando lançaram, em abril de 2026, a campanha "Não é só estética. É saúde.", depois de receberem cerca de mil denúncias em nove anos contra pessoas sem habilitação.


As mortes chegam aos jornais e fala-se muito delas, nota Keyla, e mesmo assim as pessoas continuam a fazer. "As pessoas não querem saber." Entre os casos de que fala estão os associados ao polimetilmetacrilato (PMMA) no Brasil, o país que mais cirurgias estéticas faz no mundo, com 2,3 milhões em 2025, segundo o inquérito anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), e onde o Conselho Federal de Medicina proibiu em maio de 2026 o uso desta substância sintética em preenchimentos estéticos, depois de mortes como a da influenciadora Aline Ferreira, que morreu em 2024, aos 33 anos, após um preenchimento de glúteos. Também quando o volume é dado com gordura da própria paciente, na intervenção conhecida como "Brazilian butt lift", o risco foi durante anos o mais alto da cirurgia estética. Em 2017, um grupo de trabalho de sociedades internacionais de cirurgia plástica estimou uma morte por cada três mil operações, todas associadas a gordura injetada no músculo ou por baixo dele, e passou a recomendar que fosse colocada apenas sob a pele. Inquéritos posteriores entre cirurgiões certificados apontam para cerca de uma morte em cada 15 mil, mas um estudo publicado em 2024 no Aesthetic Surgery Journal continua a descrevê-la como o procedimento estético mais mortal nos Estados Unidos.


Para Keyla, a maioria das pessoas usa a estética como um escape, como forma de preencher um vazio interior, e ela inclui-se. "Eu já senti esse vazio. Aliás, acho que ainda tenho." Acredita que esse vazio pesa mais sobre as mulheres negras, por causa da forma como foram educadas, das crenças e de tudo o que vem de trás. "Sempre fomos postas para baixo. A realidade é essa, e nós carregamos isso, ainda que de uma forma inconsciente. É estranho eu dizer isso, mas é verdade." Um dos episódios mais documentados desse olhar sobre o corpo das mulheres negras é o de Sarah Baartman, mulher khoikhoi levada da região do Cabo para Londres em 1810 e depois para Paris, onde foi exibida como atração de feira sob o nome de "Vénus Hotentote", e cujos restos, expostos num museu parisiense depois da sua morte, em 1815, só foram devolvidos à África do Sul em 2002.


Quando compara a mulher que é hoje com a que foi, Keyla diz-se uma pessoa completamente diferente. Admite que continua a ter coisas para curar, como acredita que todas têm, mas consegue olhar para si e gostar do que vê. Tem orgulho de si, sabe que faz um bom trabalho e que se entrega a ele, e o que mais a orgulha é ser recomendada pelos cirurgiões. Daqui a cinco anos, gostaria que, ao ouvirem o seu nome, as pessoas dissessem dela aquilo que imagina na voz de uma cliente. "A Keyla foi uma pessoa que me ajudou a olhar para mim de uma forma completamente diferente, sem ter de fazer uma cirurgia."

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