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Por trás da Kôdè estão dois cabo-verdianos naturais da ilha do Maio com percursos distintos, mas complementares. Em conversa com a BANTUMEN, Vlad Silva e Carlos recuam ao início do projeto e explicam como o design, a tecnologia e a vontade de construir uma comunidade acabaram por se encontrar na criação da marca. Vlad chegou à Kôdè pelo design, pela arte e pela vontade antiga de criar uma marca. Estudou Engenharia Informática e Multimédia, mas acabou por aproximar o percurso profissional do marketing e do design. Durante anos, acumulou propostas de T-shirts no computador sem chegar a lançá-las. Não era a falta de ideias que o travava, mas a ausência de uma razão suficientemente forte para as colocar no mundo.
“Devia ter perto de cem projetos de design de T-shirts guardados no computador”, recorda. “Olhava para aquilo e pensava: é bonito, mas será que a pessoa se vai identificar com isto? Faltava essência, faltava um conceito.”
Carlos chegou por outro caminho. Saiu do Maio ainda criança, estudou na China e construiu o percurso em torno da tecnologia, da computação e da inovação. Antes da Kôdè, já tinha desenvolvido experiências ligadas a blockchain e a produtos físicos conectados, incluindo uma plataforma através da qual uma comunidade poderia participar em decisões sobre aquilo que seria criado. Algumas dessas ideias nunca chegaram a sair da gaveta.
“Podemos criar o design mais bonito do mundo, mas, se não tivermos essência, identidade própria vai ser muito difícil”
Carlos

© Nuno Silva/BANTUMEN
Vlad tinha os desenhos e Carlos trazia o interesse por tecnologia, comunidade e novas formas de relação com os produtos. Sentados num café, começaram a juntar as duas visões. Vlad regressou a casa, voltou ao computador e, pouco depois, produziram algumas unidades de uma das primeiras T-shirts da marca. A intenção não era vender, mas experimentar a ideia e perceber como funcionava fora do ecrã.
Em 2024, decidiram organizar na Ilha de Maio uma pequena apresentação para amigos, com três propostas entre T-shirts pretas, brancas e cinzentas. Queriam mostrar o conceito e conversar sobre aquilo que estavam a construir, mas, no final, as pessoas queriam saber quanto custavam as peças. “Fizemos tudo para apresentar aos nossos amigos e, quando acabámos, começaram a perguntar: ‘Quanto custa?’”, lembra Vlad. As T-shirts acabaram por ser vendidas, começaram a aparecer fotografias nas redes sociais e chegaram mensagens de pessoas na Praia a perguntar quando poderiam comprar.
Antes mesmo de terem estruturado completamente o negócio, os dois perceberam que se estava a formar uma comunidade em torno da Kôdè. Para Carlos, essa dimensão continua a ser das mais difíceis de construir e, por isso mesmo, das mais valiosas. Num contexto em que ferramentas, plataformas e capacidade tecnológica estão cada vez mais acessíveis, o sentimento de pertença não se produz com a mesma facilidade. “Podemos criar o design mais bonito do mundo, mas, se não tivermos essência, identidade própria e uma comunidade presente, vai ser muito difícil.”
O feedback de quem começou a acompanhar a Kôdè ajudou a testar produtos, validar ideias e perceber até onde poderia chegar uma proposta nascida numa ilha com pouco mais de seis mil habitantes, mas que nunca foi pensada para ficar limitada a esse território. Vlad reconhece essa relação até na forma como as pessoas passaram a falar das peças. “Quando alguém diz ‘vou comprar uma Kôdè para oferecer’ ou ‘esta é a minha Kôdè’, já não está simplesmente a falar de uma T-shirt. Há ali um sentimento.”
Com o crescimento, a espontaneidade dos primeiros momentos começou inevitavelmente a conviver com outra exigência. Se, no início, muitas decisões surgiam de experiências e oportunidades inesperadas, hoje a estratégia tem um peso diferente. Carlos admite que “o business já entra muito mais cedo” no pensamento dos dois, mas isso não significa produzir mais apenas porque existe procura. Lançar com critério, testar e perceber por que razão determinada peça deve existir tornaram-se parte do processo.
É também nessa lógica que a Kôdè assume uma posição premium. Uma T-shirt pode rondar os cinco mil escudos cabo-verdianos, um valor que os próprios fundadores reconhecem não estar ao alcance de todas as pessoas. A questão do acesso não é ignorada, sobretudo por uma marca que coloca a comunidade no centro da sua construção. Vlad lembra-se de ouvir pessoas dizerem que nunca gastariam mais de três mil escudos numa camisa e, algum tempo depois, vê-las comprar uma ou duas peças. Na própria ilha, onde o poder de compra é inferior ao da Praia, a marca encontrou clientes.
“A ambição foi sempre mostrar aquilo que é possível fazer”
Vlad Silva e Carlos

© Nuno Silva/BANTUMEN
“Queremos que um miúdo possa ter o sonho de ter uma Kôdè”, afirma Vlad, para quem o preço só pode ser defendido se corresponder a uma preocupação real com aquilo que é entregue. “Podemos levar muito tempo para lançar uma T-shirt, mas estudamos muito a qualidade para fazer valer o investimento feito pelo cliente.” Entre qualidade, exclusividade e acesso, o equilíbrio continua a ser construído e poderá passar também por produtos diferentes e outras portas de entrada no universo da marca. A roupa, insiste Carlos, é apenas uma parte daquilo que pretendem desenvolver.
A Global Series marcou o início da expansão da Kôdè para fora de Cabo Verde. Para os fundadores, uma marca criada no arquipélago não precisa de escolher entre ser cabo-verdiana e ser global. Carlos vive fora do país, mas regressa regularmente a Cabo Verde e é essa experiência que atravessa a maneira como olha para o potencial do projeto e para a relação com a diáspora. “A ambição foi sempre mostrar aquilo que é possível fazer.”
No design, os fundadores evitam depender da reprodução direta de símbolos cabo-verdianos. A intenção é trabalhar referências do país dentro de uma linguagem própria. Vlad encontra parte dessa abordagem no trabalho de Virgil Abloh, uma das suas maiores referências na moda e no design. Ficou-lhe sobretudo a ideia de que praticamente tudo parte de algo que já existe e que o trabalho está na transformação e na forma como cada pessoa adapta essas referências ao seu próprio universo. “Não queremos fazer uma replicação. Queremos adaptar a linguagem ao conceito da Kôdè.”
A tecnologia ocupa outra parte central do projeto. Para Carlos, interessa a possibilidade de transformar uma peça num objeto que continua a criar relações depois de sair da loja. Através do NFC integrado nos produtos, a Kôdè procura associar a cada criação uma identidade digital. O utilizador aproxima o telemóvel, autentica a peça e entra numa plataforma onde a relação pode continuar através de conteúdos, lançamentos, experiências e contactos com outros membros da comunidade.
“Acreditamos num futuro em que os objetos não são estáticos.” Carlos imagina marcas em que o objeto físico e a identidade digital deixam de funcionar como duas experiências separadas, mas afasta a tecnologia enquanto simples demonstração de novidade. “Não queremos colocar tecnologia numa peça só para dizer que temos tecnologia.” A ferramenta só interessa se fortalecer a ligação entre o produto, a pessoa que o usa e a comunidade em torno dele.
A 7 de agosto, a Kôdè leva esta discussão ao TechPark Cabo Verde, com o evento Building Connected Products. A conversa será dedicada ao futuro dos produtos e das marcas conectadas e ao impacto do software, da inteligência artificial e da identidade digital na forma como os produtos são desenhados, construídos e experienciados. Partindo da própria Kôdè como caso prático, a sessão vai explorar como um produto físico pode passar a funcionar também como plataforma de experiências, identidade e comunidade, com demonstrações ao vivo e a apresentação da tecnologia desenvolvida pela marca.
A localização de Carlos na China dá também à Kôdè condições para experimentar ao nível da produção. Por conhecer o país, falar a língua e ter acesso direto ao mercado, acompanha de perto o desenvolvimento dos produtos. Contrariamente à associação imediata entre produção chinesa e baixo custo, aponta a concentração de conhecimento, técnicas, fornecedores e capacidade industrial como a principal vantagem. “Se quisermos fazer praticamente qualquer tipo de produto, é possível.”
Ter essa possibilidade obriga também a saber o que não produzir. Uma peça pode passar por várias amostras até chegar à versão considerada final, e algumas são enviadas para Cabo Verde, onde Vlad testa e avalia o resultado antes de avançar. “Podermos fazer qualquer coisa não significa que devemos fazer qualquer coisa”, resume Carlos.
Na Copa Collection, o design, o NFC e a memória associada a Cabo Verde aparecem no mesmo projeto. Quando o país garantiu a presença no Mundial, Carlos disse ao parceiro que tinham de criar alguma coisa para assinalar o momento. Antes de chegarem às peças, começaram por definir aquilo que queriam comunicar.

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“From the Islands to the World” tornou-se uma das mensagens da coleção. Para Carlos, a frase fala de uma experiência que ultrapassa o futebol. “Sempre fomos um povo que saiu das ilhas para o mundo, não somente fisicamente, mas também em termos de ambição.”
O percurso é próximo daquele que os dois procuram construir com a Kôdè, criada na Ilha de Maio e hoje com presença entre Cabo Verde e os Estados Unidos. Outra das mensagens escolhidas foi “Cabo Verde, The World is Watching”, numa altura em que a marca trabalhava há cerca de quatro ou cinco meses numa coleção pensada para acompanhar a primeira participação cabo-verdiana num Mundial.
A estreia das peças nos Estados Unidos aconteceu durante a festa de despedida dos Tubarões Azuis, perante uma comunidade que se preparava para acompanhar a seleção. Para muitas das pessoas presentes, foi também o primeiro contacto com a Kôdè. A resposta ao lançamento mostrou aos fundadores que a coleção poderia chegar a um público para além daquele que já acompanhava a marca. “É uma oportunidade para mostrar, para além do futebol, que Cabo Verde tem jovens com sonhos e talento”, afirma Carlos.
Durante a competição, repetia aos amigos que cada cabo-verdiano na diáspora carregava também uma parte dessa representação. A exposição da seleção alterou até uma dificuldade básica que acompanha frequentemente quem vem de um pequeno arquipélago atlântico. “Agora o mundo conhece Cabo Verde. Já não tens de começar por explicar onde fica.”
Uma das peças que junta futebol, memória e design foi também uma das mais difíceis de concluir para Vlad. O processo levou-o a um ponto em que chegou a questionar se conseguiria resolver a composição dentro do prazo. “Tive um momento em que duvidei mesmo da minha capacidade criativa.” Depois de várias tentativas, chegou a uma versão que enviou a Carlos. A resposta foi curta. “Estamos aí.”
O design parte de referências às ilhas, à seleção, à paisagem cabo-verdiana e a momentos da história do futebol do país. A versão final foi ainda pensada para incorporar NFC e permitir que, ao aproximar o telemóvel, o utilizador aceda a conteúdos relacionados com a participação de Cabo Verde no Mundial. “Daqui a alguns anos, a pessoa não tem apenas uma peça relacionada com a Copa. Tem um objeto que permite revisitar a história daquele momento”, explica Carlos.
A coleção foi pensada para continuar a guardar a memória do Mundial depois da competição. Para os fundadores, esse princípio pode ser aplicado a outros produtos da marca, através de objetos físicos com identidade digital, experiências associadas à peça e uma comunidade distribuída entre Cabo Verde e a diáspora.
Um ano depois do lançamento oficial, os dois sabem que o projeto continua no início. Há canais de distribuição por melhorar em Cabo Verde, novos mercados para estruturar, produtos a desenvolver e uma relação entre moda e tecnologia que ainda está a ser explorada. Para Vlad, crescer só fará sentido se a Kôdè conseguir conservar a sensação que surgiu naquela pequena apresentação entre amigos, quando ninguém estava verdadeiramente preparado para vender e as pessoas começaram a pedir para levar as peças para casa. “Quero manter aquele sentimento do princípio, uma pessoa vestir uma peça e sentir ‘esta é a minha Kôdè’. Se perdermos isso, perdemos uma parte importante daquilo que fez a marca nascer.”
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