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O coletivo Kriativu assina, a 20 de setembro, uma das noites do Festival Iminente 2026 com uma curadoria inteiramente dedicada ao funaná. A proposta chega depois da participação no Festival Morabeza LX e reúne em palco nomes que atravessam três décadas da história do género, ao lado de uma geração mais nova que o está a reinventar através do cotxi po.
O funaná é parte do ADN do Kriativu, coletivo de Chelas/Marvila fundado em 2022 por Nuno Varela através do programa BipZip da Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a associação Rimas ao Minuto. Para Varela, a proposta nasce de uma relação pessoal com o género. Filho de cabo-verdianos e ele próprio cabo-verdiano, cresceu a ouvi-lo, e sublinha que a história do estilo carrega um peso particular, já que este "chegou a ser proibido em Cabo Verde, e surge muito ligado a forças e movimentos de resistência". No Kriativu, diz, é normal encontrar alguém a ouvir funaná a qualquer hora, e a curadoria de setembro é apenas uma entre várias ideias que tem para o género, que incluem ainda um álbum ou um documentário, sempre com o objetivo de homenagear artistas que dedicam há mais de três décadas a uma expressão cultural que, para Varela, define a identidade cabo-verdiana. "Esta é apenas uma ideia que tive ligada ao funana, mas existem muitas mais , como a criação de um álbum ou um documentário, e sempre com o intuito de homenagear estes artistas que se dedicam há mais de 30 anos à expressão cultural que é a cara de Cabo Verde. Não digo uma das caras; quero mesmo afirmar como a cara de Cabo Verde", diz. O coletivo mantém também ligação ao hip-hop, com uma curadoria de rap com artistas dos Açores no mesmo festival, através da Associação Chelas é o Sítio, mas foi pela escala e pelo impacto do Iminente que decidiu levar o funaná a este palco.
O dia 20 de setembro junta em palco Meme Landim e Katuta Branca, artistas com mais de 30 anos de carreira dedicados à afirmação e à dignificação do funaná, e Bob Valentino e Myka Kutubelada, representantes do cotxi po, a vertente mais urbana e mais próxima das gerações mais jovens que o género tem vindo a ganhar, sem se afastar das suas raízes. Varela descreve a escolha como um encontro entre duas fases do mesmo género. Meme Landim e Katuta Branca representam "um estilo mais puro e original do funaná", enquanto Bob Valentino e Myka Kutubelada são hoje "uma das caras do cotxi po", subgénero que descreve como "filho do funaná" e que traz um show mais enérgico, apresentando ao público uma vertente diferente do estilo.
Sobre o que espera desta noite, Varela aponta primeiro para o corpo. "Quero que sintam a vibração e a força que o estilo tem, e o que faz ao teu corpo", diz, na expectativa de que o interesse do público se traduza depois em mais atuações e maior valorização dos artistas. Considera, no entanto, que essa afirmação tem sido lenta face à procura já existente, e cita atuações de cotxi po em cafés na Kova da Moura que somam mais de sete milhões de visualizações no YouTube, defendendo que falta sobretudo criar estruturas de maior visibilidade e oportunidades para os artistas e para o género. "Acho que ,de alguma forma, é uma porta que se abre para mais atuações e uma maior valorização desta arte e destes artistas . Vejo uma afirmação um pouco lenta, podíamos estar a fazer isto em outros festivais", defende.
A curadoria presta também homenagem a Antonito Sanches, artista que integrava inicialmente o projeto e que morreu a 11 de outubro de 2025, na Praia, aos 79 anos. Cantor, compositor e tocador de ferrinho natural da ilha de Santiago, Sanches gravou ao longo da carreira discos como "Buli Povo!" e "Alegria", com uma discografia que remonta ao primeiro álbum, editado em 1983. Varela nunca chegou a conhecê-lo pessoalmente, "apesar de querer muito", e contava com ele na curadoria desde a proposta inicial. Com a sua morte, essa participação deixou de ser possível, e o Kriativu vai por isso incluir um DJ set com temas de Sanches durante as atuações, como forma de homenagem, deixando ainda o convite para que o público procure a sua obra no Spotify ou no YouTube.
O Festival Iminente 2026 decorre entre 17 e 20 de setembro, na antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, e marca os dez anos do festival. O espaço, encerrado há 15 anos, será a casa do Iminente até 2027. Ao Kriativu juntam-se outras curadorias como Chelas é o Sítio, Príncipe, Versus, Precárias, Planeta Manas e Talentos do Bairro, num programa que reúne mais de cem atuações, instalações e exposições.
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