Marcas por escrever
Contactos
Pesquisa
Pesquisar
Pesquisa

Partilhar
X
No primeiro domingo de março, quando o sol finalmente decidiu devolver alguma leveza a uma Lisboa cansada de chuva, a Rua Cor de Rosa - zona boémia do Cais do Sodré - encheu-se de passos apressados, abraços demorados e uma expectativa silenciosa. Na exígua Livraria Menina e Moça mais de 90 pessoas comprimiram-se entre estantes e livros para assistir ao nascimento público de A Girafa do Noah, o primeiro livro infantil de Wilds Gomes.
Há algo profundamente transformador quando um livro infantil permite aos adultos revisitarem as suas próprias feridas. Este lançamento é também um marco para a BANTUMEN. A Girafa do Noah é o primeiro livro com selo editorial BANTUMEN. Há quatro anos, Wilds partilhou connosco o desejo de criar uma série de livros infantis. Desde o início, sabíamos que queríamos fazer parte desse processo. Porque acreditamos que investir nos nossos autores e artistas é uma forma concreta de construir futuro. É isso que entendemos por sentido de oportunidade: reconhecer o momento em que uma ideia precisa de estrutura e financiamento para ganhar corpo.
O mesmo espaço que, há poucos meses, acolheu Lázaro Ramos para a divulgação de Na Nossa Pele e do livro infantil Caixa Mágica, voltava agora a provar que a dimensão física nunca foi medida justa para a dimensão simbólica do que ali acontece. A livraria tornou-se insuficiente para tantas pessoas, mas perfeita para o que se viveu: proximidade, escuta e partilha.
À primeira vista, a história que dá vida à A Girafa do Noah parece simples: Noah perde a sua Girafa Amarela, o brinquedo que o acompanhava para todo o lado e que lhe dava segurança e constância. De repente, desaparece. Mas quem já perdeu alguma coisa sabe que a simplicidade é apenas a superfície. A girafa, simbolicamente, pode ser um brinquedo, pode ser a infância, pode ser alguém. Pode ser a morte, essa palavra que muitos adultos ainda evitam pronunciar, quanto mais explicar a uma criança.

©BANTUMEN

©BANTUMEN
Foi justamente o que se sentiu na apresentação, porque não se estava a falar simplesmente de um livro infantil. A Girafa do Noah é sobre como lidamos com a ausência, com o vazio, com aquilo que não volta.
Wilds Gomes e Ana Marta Huffstot, a ilustradora, conversaram sobre o processo criativo de uma obra que, além de técnica, exigiu vulnerabilidade, coragem e uma escuta atenta entre autor e ilustradora. As imagens, inspiradas no filho de Wilds, dão corpo e delicadeza a uma narrativa que não infantiliza a dor nem a reduz a uma metáfora simplista. Antes, reconhece a sua existência com honestidade, coloca-a à altura do olhar de uma criança e acompanha-a com cuidado, como quem segura a mão de alguém pequeno diante de algo que ainda não sabe nomear, mas já sente.
Ana Marta partilhou um momento particularmente honesto. Quando foi convidada para participar neste projeto, questionou-se se teria a sensibilidade necessária para ilustrar uma história cuja centralidade está numa família negra, sendo ela própria uma mulher branca. Esse questionamento não foi um obstáculo, mas uma condição essencial para que o trabalho pudesse acontecer com o cuidado e a consciência necessários - sobretudo num processo construído em diálogo constante com o próprio Wilds Gomes, que acompanhou de perto cada escolha estética e narrativa.

©BANTUMEN
Moderada pela educadora Georgina Angélica, a conversa trouxe uma conclusão que ecoou pela sala: quando existe consciência e vontade de fazer bem, existe também espaço para construir sensibilidade. E este foi um processo profundamente colaborativo, guiado pela visão e experiência de Wilds.
A sala escutava. E, em vários momentos, emocionava-se. Num desses momentos, Ângela Almeida, fundadora da plataforma de parentalidade Colo di Mama, partilhou como o livro a levou imediatamente à memória da perda da sua avó. Falou da dificuldade de explicar à própria filha o que significa a morte e como esta história “empresta” ferramentas para atravessar essa conversa com mais delicadeza e menos medo. Outros testemunhos surgiram, espontâneos, carregados de memórias pessoais. O livro abriu um espaço de partilha que ultrapassou o objeto físico.
A edição deste livro foi trabalhada por Vanessa Sanches, fundadora da BANTUMEN, que também assina o prefácio - uma mensagem dirigida aos mais pequenos sobre o amor e as suas múltiplas formas de existir e transformar-se dentro de nós. Porque, no fundo, este livro não é apenas sobre perda. É sobre amor. E sobre como o amor continua, mesmo quando aquilo que amamos já não está presente.
A BANTUMEN tem-se afirmado como plataforma cultural, arquivo vivo e espaço de criação. Com este selo editorial, damos mais um passo: não apenas contar histórias, mas produzi-las, sustentá-las e colocá-las no mundo com intenção. Outros livros se seguirão. Esta é apenas a primeira girafa.
A Girafa do Noah está disponível em todas as livrarias online e promete encontrar lugar nas casas onde as conversas difíceis precisam de começar com delicadeza.
Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.
Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.
Recomendações
Marcas por escrever
Contactos