“Onde Está Meu Amor?” Landrick tem algumas respostas. E outras tantas confissões

14 de Outubro de 2026

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Landrick precisou de duas partes para contar uma separação inteira. A 18 de setembro, o músico angolano editou a segunda metade de Onde Está Meu Amor?, o álbum em que acompanha o fim de uma relação até ao momento de seguir em frente. Em entrevista à BANTUMEN, fala do que fica depois de um grande amor, da dependência do telemóvel que reconhece em si e dos erros que aprendeu a corrigir.


A primeira parte chegou às plataformas a 10 de julho e ficou-se pelo momento da rutura, com cinco canções escritas a partir da dor imediata de uma separação. A segunda ocupa-se do tempo que vem depois, o processo mais lento e silencioso em que a reflexão, a cura e a aceitação vão abrindo caminho à decisão de seguir em frente. É nela que estão “Sozinho”, com a participação de Mariana Moreira, “Não Diga Adeus” e “Fogo”. Com ela, Landrick fecha um projeto que diz ter construído sem qualquer pressão, apesar dos palcos que foi pisando enquanto o compunha. Algumas das canções já existiam quando, a 9 de maio de 2025, deu um concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e antes de, a 13 de agosto deste ano, atuar no primeiro dia d’O Sol da Caparica, festival dedicado à música lusófona.


O Coliseu chegou dez anos depois de “Me Agarra Só Uhm”, o tema que em 2015 deu a conhecer Landu Ndombele e que integrou Mr. Confuso, o seu primeiro trabalho. Antes disso, houve a formação recebida na adolescência numa igreja adventista do sétimo dia, em Luanda. Depois vieram Zolana, em 2018, e Rei do Kuyuyu, em 2024, de onde saiu “Babete”, que soma 21 milhões de visualizações no YouTube. Onde Está Meu Amor? mantém a base de kizomba, à qual o cantor junta o R&B, o zouk e o afropop. A inspiração continua a vir, nas suas palavras, de Deus e do quotidiano, “das coisas que acontecem não só comigo como a outras pessoas”.

“Quando o amor é ou foi realmente verdadeiro e intenso, a relação acaba, mas o sentimento fica”

Landrick

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Landrick | ©BANTUMEN/Nuno Silva

Foi a observar as relações à sua volta que chegou à ideia que atravessa as duas partes do álbum e dá título ao tema de abertura, “Grandes Amores Não Acabam Juntos”. O tema passou o milhão de visualizações no YouTube ainda antes da edição do primeiro capítulo. “Quando o amor é ou foi realmente verdadeiro e intenso, a relação acaba, mas o sentimento fica”, explica. Esse sentimento “vem sempre à tona”, às vezes no choque de uma relação nova, quando alguém se surpreende a imaginar a vida que teria ao lado de quem perdeu. Para algumas dessas perdas, Landrick encontra explicação na imaturidade. “Às vezes, no auge da imaturidade, tomamos por garantido o carinho que alguém tem por nós”, diz. “E quando de facto amadurecemos, damos conta de que perdemos ali uma pessoa de grande valor, mas já é tarde demais para recuperar. É como se a água tivesse sido entornada na terra”, acrescenta.


“Sozinho”, um dos temas do segundo capítulo, dá voz a quem tem alguém ao lado e mesmo assim se sente só, a quem raramente recebe carinho e já não se lembra da última vez que fez amor com o parceiro ou a parceira. O cantor conhece esse vazio das fases mais turbulentas das suas relações. Admite que nessas alturas é “um bocadinho orgulhoso”, mas também sabe dar o braço a torcer, através de um exercício de autoavaliação a que chama “reflexão sincera”. “Às vezes apontamos muito o dedo à outra pessoa, mas se nos sentarmos e analisarmos com cuidado, vamos concluir que o nosso comportamento também influencia muito a atitude e o posicionamento da parceira ou do parceiro”, reconhece.


De resto, a reflexão é o que mais quer provocar com um álbum que pensou “para dançar, para amar e refletir, sobretudo”. A canção que escolhe para o explicar é do primeiro capítulo e nasceu dentro de casa, no dia em que a companheira lhe chamou a atenção para o tempo que passava ao telemóvel. “Fui notando que o vício que tenho na tela desconecta-me muito da minha parceira”, conta. O título “Namora Com O Telefone” surgiu quando percebeu que também ela, por vezes, se perdia no ecrã. Segundo o cantor, é uma canção em que quase todos se reveem, casados ou não, numa altura em que as relações mudaram com as redes sociais, os divórcios se acumulam nas notícias e a paciência ficou “muito curta”.


“Tenho que admitir que ando um bocadinho viciado nisso e tenho estado a lutar”, confessa o artista. Conhece bem as três horas passadas ao telemóvel sem ter feito nada de útil e as madrugadas que, na manhã seguinte, lhe roubam o exercício que tinha planeado. O que mais lhe custa perder é o tempo com os seus. É desse tempo que fala quando descreve as semanas entre digressões, que o mantêm meses longe de casa. Leva os filhos às aulas de natação e de jiu-jitsu, acompanha-lhes o crescimento e tenta compensar “com muita intensidade” uma ausência que a filha detesta. Ainda na semana anterior à entrevista, ela se queixou de mais uma viagem. Em casa, os ecrãs obedecem a regras e limites, e os filhos, conta, preferem brincar e criar. A filha já faz pulseiras e Landrick vê nela “uma artista nata”.


Nas redes sociais, houve quem visse em Onde Está Meu Amor? o seu trabalho mais intimista, e o cantor reconhece que mergulhou em desafios que ele próprio enfrenta nas relações. Dos comentários que leu, recorda o de uma ouvinte que julgava ser a única a viver, entre quatro paredes, os problemas que afinal o ouvia cantar. Landrick escreve a partir da sua vida e do que observa na sociedade. Às vezes basta a confidência de um amigo para lhe propor “bora escrever sobre esta situação”. Depois entra tão “profundamente na personagem” que quem ouve acredita no sofrimento do próprio intérprete. Quando a dor é sua, a canção é um desabafo, a forma mais simples de “tirar de dentro para fora”. Das suas histórias, guarda os pormenores. Tem arrependimentos amorosos, mas vive com eles de forma leve, porque já pediu desculpas sinceras à pessoa em causa e acredita que errar faz parte, desde que se reconheça o erro e se procure corrigi-lo.


O segundo capítulo guarda também espaço para quem ainda está apaixonado. “Não Diga Adeus” é, nas palavras de Landrick, “uma poesia que o próprio amor inspira”, uma canção para dedicar à pessoa que não se quer perder, num álbum em que garante ter dado “o melhor de mim” em cada tema. Entre a coragem de viver a dor de uma separação e a de a deixar para trás, diz ser dos que deixam para trás e seguem em frente, sem ignorar que as memórias podem sempre regressar. “O relacionamento termina, mas o sentimento de alguma forma fica. Vou seguir em frente, mas pronto, vou viver com isso. Fazer o quê?”

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