Lara Amado, a mulher que está a desfazer os tabus da menstruação em Cabo Verde

29 de Outubro de 2026
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Lara Amado, fundadora da Nha Pumbinha | DR

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Pouco depois de lançar a Nha Pumbinha, Lara Amado começou a ser abordada na rua por mulheres que nunca tinha visto. Aproximavam-se e, em voz baixa, contavam-lhe os constrangimentos mais íntimos que viviam durante o período. “Naquele instante compreendi que a solução que criei para mim não era só minha”, recorda.


A solução tinha nascido meses antes, durante a quarentena de 2020, quando Lara começou a fazer pensos higiénicos reutilizáveis para responder a uma necessidade sua. Testou os primeiros com pessoas próximas até os considerar prontos para o mercado e, em dezembro desse ano, apresentou oficialmente a marca em São Vicente. Diz ter sido a primeira cabo-verdiana a fabricar pensos reutilizáveis. O nome nasceu, nas suas palavras, “de um lugar de soberania, liberdade e amor próprio”, para chamar as coisas pelo nome, sem rodeios nem vergonha. Os mais velhos recebem-no como um atrevimento que roça o escândalo e as mais novas deixam-se levar pela confiança que transmite. “Para mim, é precisamente essa tensão que prova que o nome cumpre o seu papel”, diz Lara, para quem a Nha Pumbinha lembra a todas as mulheres “que o seu corpo não é um tabu, é um motivo de orgulho”.


O tabu que o nome desafia tem raízes antigas. Em março de 2020, meses antes do lançamento da marca, o Expresso das Ilhas publicou uma reportagem em que mulheres de várias gerações recordavam a primeira menstruação. Sulan Sequeira contou que, quando viu o sangue pela primeira vez, pensou que se tinha ferido a brincar na rua e teve medo de voltar para casa, porque a mãe nunca lhe falara do assunto. Quando finalmente lho contou, a mãe não disse nada. Teresa Neto, mais velha, lembrava-se do tempo do “pano bidé”, um pano dobrado que se lavava, secava e voltava a usar, e da avó que lhe exigia que ninguém soubesse que estava menstruada e que nunca despejasse a água da lavagem num caminho por onde passassem pessoas. Dicla Pereira, então com 25 anos, dizia que entre raparigas e rapazes da sua idade se falava do período com naturalidade, mas admitia ter precisado de mais de meia hora para ganhar coragem e pedir à mãe dinheiro para pensos.

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Lara encontrou esse mesmo retrato nas formações que passou a dar em várias ilhas. A maioria das mulheres vive a menstruação com tranquilidade, mas a desinformação e o estigma persistem, como já tinha assinalado a diretora da Associação Cabo-verdiana para a Proteção da Família (Verdefam). Aprendeu a não tomar nada como garantido, porque cada mulher “é um universo único”, e a reconhecer as soluções que cada uma inventa quando falta o essencial. Em Santo Antão, há mulheres que compram um único penso, retirado de um pacote de dez. Nos meios rurais de Santiago, há quem recorra ao que encontra na natureza. Na Boa Vista, encontrou mulheres a usar o cartão do rolo de papel higiénico. “Muito do que importa continua por dizer”, resume. As realidades podem ser “abissais de ilha para ilha, e dentro da mesma ilha”, explica, e as situações “misturam-se e repetem-se por todo o país”.

Uma das histórias ficou-lhe gravada. Numa formação em que ensinava as participantes a fazer os seus próprios pensos, uma mulher contou-lhe que chegava a usar pedaços de colchão. “Ficámos as duas em silêncio. Agradeci-lhe por se ter aberto assim comigo e, durante o resto da formação, procurei proporcionar-lhe momentos felizes e de reconexão consigo mesma”, recorda.


Enquanto ouvia as outras, Lara carregava um desconforto por resolver. Usava o copo menstrual de uma marca muito conhecida, feito de um material duro que a magoava numa zona sensível, “onde não devia nem tinha de magoar”. Quando perguntou às mulheres próximas que usavam o mesmo modelo, todas lhe descreveram a mesma dor. Em vez de a aceitar como inevitável, pôs-se a estudar os hábitos das clientes, e foi desse estudo que criou o copo menstrual Pumbinha.

Levá-lo às formações foi enfrentar a resistência mais teimosa de todas. Há mulheres convencidas de que o copo obriga a mais contacto com o sangue, mas a objeção que chega primeiro é quase sempre a mesma, e Lara repete-a entre risos: “Não cabe!” A educadora menstrual portuguesa Bárbara Neves, que viveu em Santiago, descreveu no site Mulheres em Viagem como, entre as mulheres com quem falou na ilha, os coletores e os tampões carregavam mitos sem fundamento por implicarem penetração. “É aí que o meu trabalho começa, a desfazer mitos com informação, com paciência e, sempre que possível, com humor”, diz Lara. A resposta chega-lhe quase todas as semanas, em mensagens longas de mulheres que lhe agradecem por lhes ter mudado a vida e que contam que agora se sentem “em cima, cheias de vida, mesmo quando menstruadas”. Para Lara, essa evolução “tem sido o maior presente” da sua vida.

“Conversar abertamente com outras mulheres é uma forma de cura, e é reparador a nível psicológico, emocional e espiritual”

Lara Amado

Nas formações, Lara aprendeu também a fazer contas. Um copo dura anos, mas exige um investimento inicial que a inflação tornou maior, e por isso senta-se com as participantes até chegarem juntas a um valor possível. O preço é só uma parte do problema. Uma reportagem do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) sobre mulheres com deficiência em Cabo Verde lembra que os pensos não são baratos e que, para quem vive de uma pensão social de cerca de 48 dólares, a comida vem primeiro. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a pobreza absoluta desceu de 35,5% em 2015 para 24,75% em 2023, mas ainda atinge um quarto da população.


Nas zonas rurais, lavar um copo ou um penso esbarra noutra falta. No Censo de 2021, só 57,1% dos alojamentos rurais tinham água canalizada, um terço dos agregados rurais não tinha sanita nem latrina e quase metade dos alojamentos do país não tinha banho nem duche. Na escola, muitas raparigas faltam às aulas por não terem pensos, alertou o movimento Womenise.it quando lançou a campanha #NhaMenstruação para levar pensos às estudantes.


Para que o preço não fosse uma barreira, Lara foi à procura de quem tivesse presença e confiança nos lugares onde ela sozinha não chegaria. Com a Câmara Municipal da Praia, distribui gratuitamente copos, pensos e cuecas menstruais nas comunidades, “para que a sustentabilidade da marca nunca seja uma barreira para quem mais precisa”. Com a Fundação Dretu, ligada à primeira-dama de Cabo Verde, Débora Katisa Carvalho, a colaboração começou numa conversa espontânea. Foi Katisa Carvalho quem propôs lançá-la na Conferência Década do Oceano, por cada copo reutilizado afastar do mar resíduos que levam décadas a decompor-se. A 24 de julho, na Boa Vista, a primeira-dama juntou uma feira de saúde, com cem consultas médicas gratuitas, a uma conversa sobre saúde menstrual com as jovens da ilha, que saíram de uma conferência sobre o oceano com um copo menstrual nas mãos.


Somadas, estas distribuições, incluindo a campanha da Verdefam com o UNFPA Cabo Verde, chegaram, segundo Lara, a mais de 20 mil meninas e mulheres. Mas o que mais a orgulha é o que já não depende dela. Em São Vicente, a Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) produz e distribui por conta própria desde a formação que ali deu. Em Angola, onde formou jovens em Luanda e na Lunda Sul com o apoio do UNFPA, a AfriYan forma agora outras raparigas e a Mwana Pwo distribui em Saurimo. “Hoje há espaços que aprenderam a produzir e a distribuir a nível nacional e internacional, e esse número é bem superior ao que conseguimos contar”, diz. “Para mim, o maior impacto não está só nos produtos entregues, mas em cada lugar que passou a caminhar sem nós”, acrescenta. Na Guiné-Bissau, o caminho ainda não se abriu. O projeto que diz ter anunciado em 2021 com a cantora Fattú Djakité continua no papel, à espera de um enquadramento institucional.


Nada disto foi simples. “A continuidade deve-se à minha resiliência e à ousadia de fazer o que nunca tinha sido feito antes”, afirma. Os obstáculos que mais lhe custaram foram os próprios receios. Os outros têm a forma do arquipélago: nos primeiros tempos, a matéria-prima vinha de Portugal, e fazer chegar produtos e informação a ilhas tão diferentes nunca foi fácil.


Lara considera a pobreza menstrual um problema de saúde pública que os decisores continuam a subestimar por o arrumarem como “assunto de mulher”. Insiste que a questão “não cabe numa só gaveta”, porque é legal, social, sanitária e de infraestruturas, e que “só uma resposta intersetorial pode transformar um silêncio histórico num compromisso nacional”.


Em setembro de 2025, a discussão chegou à política. Num workshop sobre Saúde e Dignidade Menstrual organizado pela Câmara Municipal da Praia com a Associação Cabo-verdiana de Luta Contra a Violência Baseada no Género (ACLCVBG) e com Lara, o então presidente da autarquia, Francisco Carvalho, comprometeu-se a criar uma licença menstrual para as trabalhadoras municipais. Pessoas próximas do Movimento para a Democracia (MpD), o partido então no Governo, classificaram a proposta como inconstitucional. Houve advogados a defendê-la, lembrando que o Japão legisla sobre o tema desde 1947, mas a avisar que os empregadores poderiam hesitar em contratar mulheres. A advogada Andyra Lima sustentou que só uma lei da Assembleia Nacional a poderia criar.


Com a saída de Francisco Carvalho da câmara, em junho, para assumir o cargo de primeiro-ministro, a medida ficou suspensa. Lara continua a defendê-la, mas sabe que uma medida que depende de quem preside à câmara pode cair a cada eleição. Quer vê-la consagrada em lei, desenhada para não gerar discriminação na contratação nem exigir justificações que reforcem o estigma, e testada primeiro num projeto-piloto. Defende ainda a distribuição universal de produtos menstruais como bem público, mais espaço para o tema na rádio e na televisão e benefícios fiscais para as empresas que concedam a licença, sem esquecer as pequenas empresas e a economia informal.


Muitas das mulheres que a procuravam queriam mais do que um produto e procuravam, nas palavras dela, um caminho de trabalho interior. É para elas que Lara prepara uma aplicação e a ILLĒA by Lumia, que descreve como o culminar de seis anos a ouvir o que as mulheres precisam, sentem e expressam. Junta-lhe o que aprendeu com o sheLEADS, programa de desenvolvimento para empreendedoras africanas da Djassi Africa, uma venture builder sediada em Londres.


O percurso obrigou-a a desaprender convicções e mudou também a relação com o próprio corpo. “Conversar abertamente com outras mulheres é uma forma de cura, e é reparador a nível psicológico, emocional e espiritual”, diz. Se pudesse voltar a 2020, procuraria estar mais presente nos meios de comunicação, “porque falar do tema em voz alta cedo teria acelerado tudo o resto”. Daqui a cinco anos, imagina ter ajudado “muitas mulheres guerreiras a entrarem na sua era soft girl”, aquela em que deixam de lutar para sobreviver e passam a receber, sem culpa, o que lhes é devido, num país onde a licença menstrual e os produtos menstruais sejam direitos e não favores. “Isso significa mulheres que se sentem merecedoras de privilégios e benefícios, e não apenas de resistência”, diz.

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