A investigação de Laura Correia sobre desigualdades na reabilitação cardíaca

13 de Janeiro de 2026
laura correia entrevista
Laura Correia na conferência ACTLIFE

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O percurso de Laura Correia tem sido orientado pela preocupação central de compreender quem fica excluído quando se fala de acesso aos cuidados de saúde. Investigadora, com raízes cabo-verdianas, tem vindo a construir um trabalho académico que atravessa a ciência, a saúde pública e a justiça social, colocando no centro da investigação questões sobre desigualdades no acesso e na adesão aos cuidados de saúde.


Doutorada em Fisiologia do Exercício e Desporto, Laura Correia é a primeira mulher negra a exercer como Fisiologista Clínica do Exercício e Mestre em Reabilitação Cardiovascular a investiga as disparidades na adesão a programas de reabilitação cardíaca no Reino Unido. Grande parte da sua investigação incide sobre o facto de a reabilitação cardíaca ser amplamente reconhecida como essencial após eventos cardiovasculares, mas apenas cerca de metade das pessoas elegíveis participa nesses programas, sendo as mulheres e os grupos étnicos minoritários os mais excluídos.


A relevância deste trabalho levou à publicação de um artigo no Journal of Racial and Ethnic Health Disparities, uma das principais revistas internacionais dedicadas ao estudo das desigualdades raciais e étnicas na saúde. Em 2025, o percurso da investigadora foi também distinguido com o prémio de Melhor Resumo de Póster na conferência ACTLIFE, sublinhando a pertinência e a atualidade do tema no contexto europeu.


Em entrevista à BANTUMEN, Laura Correia reflete sobre as conclusões da sua investigação, o impacto da identidade no olhar científico, os paralelos entre o Reino Unido e os países africanos de língua portuguesa, e a importância de uma ciência orientada para a escuta, a inclusão e a transformação social.

DR

Apesar de a reabilitação cardíaca ser reconhecida como essencial após eventos cardiovasculares, o seu estudo revela que mulheres e minorias étnicas continuam sub-representadas nestes programas. O que mais a surpreendeu nas conclusões da investigação?


O que mais me surpreendeu foi perceber que a sub-representação de mulheres e de minorias étnicas na reabilitação cardíaca não resulta de um único fator, mas de um conjunto de camadas que se reforçam mutuamente. Existem encaminhamentos tardios ou inexistentes, modelos de programas pouco flexíveis face às realidades sociais e familiares, e uma comunicação clínica que nem sempre reconhece diferenças culturais, linguísticas ou de género. O mais inquietante foi constatar a normalização destas exclusões. Muitas são encaradas como inevitáveis, quando na realidade refletem escolhas institucionais concretas que podem, e devem, ser revistas.


Ao identificar lacunas de formação, práticas clínicas pouco inclusivas e barreiras estruturais no sistema de saúde, onde acredita que deve começar uma mudança efetiva: na formação dos profissionais, nas políticas públicas ou na escuta ativa dos doentes?


A mudança precisa de acontecer em todos esses níveis, mas acredito firmemente que a escuta ativa dos doentes deve ser o ponto de partida. Quando colocamos as experiências vividas no centro da investigação e da prática clínica, torna-se evidente onde a formação falha e quais políticas continuam a perpetuar desigualdades.


Essa convicção reflete-se num terceiro estudo, atualmente em revisão para publicação, no qual centrei as vozes de 19 mulheres de diferentes origens étnicas, através de grupos focais. As suas narrativas informaram diretamente a análise e as conclusões.


De forma muito clara, estas mulheres apelaram a uma reimaginação dos serviços de reabilitação cardíaca: programas mais sensíveis ao género, verdadeiramente inclusivos das experiências femininas e enraizados nas comunidades onde vivem. Falaram da necessidade de espaços seguros, de horários e formatos flexíveis, de maior representação feminina e cultural entre profissionais e de uma abordagem que reconheça o papel da família, do cuidado informal e do contexto social na recuperação.


Sendo a primeira mulher negra a investigar estas disparidades no contexto da reabilitação cardíaca no Reino Unido, de que forma a identidade influenciou as perguntas que decidiu fazer enquanto investigadora?


Não é apenas um dado biográfico, é uma lente através da qual observo o sistema de saúde. A minha identidade permitiu-me reconhecer silêncios, ausências e padrões de exclusão que talvez passassem despercebidos a outros olhares.


As perguntas que decidi fazer nasceram de uma inquietação profunda, construída tanto a partir do meu percurso pessoal como da minha experiência profissional. Ao longo do meu trabalho em reabilitação cardíaca, acompanhei muitos doentes de forma próxima, mas raramente via mulheres negras ou asiáticas a chegar a estes programas. Essa ausência repetida levantou uma questão incontornável: por que razão certos corpos continuam sistematicamente à margem de cuidados que sabemos salvar vidas?


Investigar estas disparidades é também um exercício de visibilização e de responsabilidade. Recuso reduzir histórias de exclusão a simples variáveis estatísticas.


Enquanto investigadora luso-descendente com raízes cabo-verdianas, consegue estabelecer paralelos entre as desigualdades observadas no Reino Unido e os desafios enfrentados por comunidades dos PALOP e das suas diásporas na Europa?


Sim, de forma muito clara. Apesar de os contextos serem distintos, existem paralelos evidentes: desigualdades socioeconómicas, heranças coloniais que continuam a moldar os sistemas de saúde e uma menor priorização da prevenção cardiovascular em comunidades racializadas.

Nas diásporas dos PALOP na Europa observam-se barreiras semelhantes, desde o acesso limitado a cuidados especializados até à desconfiança no sistema. A isto soma-se o que chamo de “silêncio cultural em saúde”: a normalização da dor, a ausência de linguagem para falar sobre doença e a ideia de que certos sofrimentos devem ser suportados em silêncio. É uma barreira invisível, mas profundamente eficaz, e uma das que sinto maior urgência em quebrar.

Para além da ciência, quem é a Laura fora do meio académico? Que experiências marcaram o interesse pela saúde, pelo cuidado e pela justiça social?


Fora do meio académico, sou alguém profundamente enraizada na família, na memória e na comunidade. Cresci num ambiente onde a doença e a deficiência faziam parte do quotidiano, não como exceção, mas como realidade constante. Isso ensinou-me muito cedo que a saúde nunca é apenas biológica, é também social, emocional, cultural e política.


Sempre tive uma ligação forte ao desporto e ao exercício físico. Foi aí que encontrei equilíbrio, força e pertença, e mais tarde compreendi o potencial do movimento como ferramenta de cuidado, recuperação e justiça social, sobretudo para quem tem sido historicamente excluído.


Que mensagem gostaria de deixar às novas gerações de profissionais de saúde e investigadores afrodescendentes?


A vossa presença nestes espaços é, por si só, transformadora. Não subestimem o valor das vossas perguntas, mesmo quando desafiam o status quo. A ciência precisa da vossa diversidade de experiências, referências e coragem.


Procurem mentores, construam redes solidárias e lembrem-se de que o rigor científico e o compromisso com a justiça social não são opostos, reforçam-se mutuamente. Há lugar para vocês, e esse lugar pode, e deve, ser reinventado.

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